I, Tonya e o círculo de violência

 Gilson Rosa*, Biscate Convidado

Eu sou uma pessoa dura. Gente mole e sentimental me levam à loucura. Acho que não existe nada que me irrite mais do que pessoas choronas e chorosas. REAGE, CARALHO. Eu nem sempre fui assim. Eu me tornei assim pra sobreviver. Não existia outro caminho. Só esse: trincar os dentes e seguir. A qualquer custo.

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Lavona Harding, assim como eu, é uma pessoa dura. Implacável. Ela é o que foi feito dela: Uma sobrevivente. Que sequer apaga o cigarro ao ver o marido e pai de sua filha entrar no carro e dar no pé,  deixando-a sozinha. Lavona nem se lembra mais como chorar ou se lamentar. Ela só trinca os dentes e segue. Lavona é o monstro que vai moldar, formar e ao mesmo tempo destruir e arruinar a grande patinadora Tonya Harding. Lavona tempera a pequena Tonya no fogo e no aço da pobreza, da privação e dos sonhos frustrados onde ela própria foi criada: Não existe lugar pra fracos. Lavona enxerga em Tonya um talento que a pode levar onde ela mesma nunca foi. E tenta por todas as maneiras possíveis torná-la vencedora. Sem se dar conta que essas maneiras implacáveis vão aprisionar a pequena Tonya no mesmo perpétuo círculo de violência e relações abusivas do qual nunca conseguiu se livrar.

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Tonya, como boa discípula de Lavona, abre o seu caminho a cotoveladas e pontapés. Na interpretação superlativa e visceral de Margot Robbie, Tonya é um dínamo movido a fúria, raiva, frustração e competitividade prestes a explodir a qualquer momento. Chega a ser irônico que um filme movido a esse tipo de combustão chegue a uma temporada de prêmios marcada pelo protesto das atrizes de Hollywood contra o assédio masculino. Pra Tonya e Lavona o mundo é esse onde elas duelam, se agridem e se machucam tentando fugir do circulo de pobreza, privações, pancadas e abandono dos homens as cercam. Nesse mundo, as roupas pretas do Globo de Ouro não significam nada.

14906864_10205828692916235_6183778969703579956_n* Choro de puta, deus não escuta

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Os bons são maioria, e daí?

Os bons são maioria. De vez em quando passa essa frase pela minha TL, geralmente associada a uma reportagem ou imagem de algum gesto generoso, de cuidado, de solidariedade. Eu mesma já devo ter reproduzido. É tentador em vários aspectos, destaco dois: o primeiro é achar que é uma questão de amplitude da visão, que os bons estão em algum lugar, fazendo coisas boas, a mídia é que não conta, tal como a dor da gente, a bondade não sai no jornal. Nesta perspectiva a bondade da maioria silenciosa redimiria a humanidade. O segundo, e de maior impacto, é dividir de forma binária as pessoas em bons e maus. E, claro, colocarmo-nos alinhados do lado dos bons. Do Bem. Faz bem pra autoestima, né.

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Depois de um tempo, desisti. Os bons não são maioria. Nem minoria. Não divido mais o mundo em bons e maus. As pessoas vivem, interage, fazem coisas. Algumas delas, boas. Consideradas boas. Alguém recolhe animais na rua, cuida deles e é um escroto com os vizinhos. Outro é excelente amigo e bate na mulher. Gente que mantém projetos sociais e não paga a pensão alimentícia dos filhos. Pessoa que, num impulso, diante de um acidente, arrisca sua vida pela dos outros mas no dia a dia é mesquinho e homofóbico.  Mulheres valentes que lutam por creches e dizem que mulheres trans são homens disfarçados e podem morrer que não fazem falta. Somos caleidoscópio. Dependendo de onde o raio de sol bata, refletimos diferenças.

Conecta-se com o que a Renata disse: “a casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.” 

Conecta-se, disse eu, mas queria dizer mais uma coisa: as coisas boas que se faz não são assinatura em folha em branco. Não legitima nem minimiza o resto do que somos e fazemos. Nem o contrário. Não é porque se comete um erro, uma escrotice ou um crime que as bondades outras não valem mais. Quando meu pai fez vestibular era assim: uma questão errada anulava uma certa. Não é assim na vida real. Um erro é um erro. Um acerto é um acerto. Uma bondade é uma bondade que não apaga, compensa ou justifica mais nada além dela mesma. E vice-versa.

A bondade não é a essência de alguém ou alguéns. É relacional. Processual. Circunstancial. Construída e sustentada pelo olhar de outrem. Não são raros os casos em que identificado algum tipo de “monstro” se sucedam os depoimentos de “mas ele era ótimo pai”, “nunca pensei, um vizinho tão bom”, “imagina isso, sempre tão gentil com as crianças”. É do humano a plasticidade, somos múltiplos, capazes de atos de generosidade e mesquinharia. De enormes gentilezas e da mais aguçada crueldade. Avançaremos quando deixarmos a bondade de lado, como forma de dar estrelinha pros que confirmam nossas idéias e aspirações. Avançaremos quando abarcamos nossa complexidade. Avançaremos quando pararmos de nos desligar dos erros alheios, quando pararmos de apontar dedos, de cobrar coerências, de insistir em uma pureza, retidão e bondade absolutas. Avançaremos quando entendermos o que já afirmava o filósofo: nada do que é humano me é estranho.

Então, Luciana, se perdoa tudo? Nopes. Não se perdoa nada. Ou ainda: não é matéria de perdão, mas de reconhecimento. Somos humanos e isso não é um dado natural, mas uma condição, uma possibilidade, somos candidatos à humanidade. O que é transformador não é a bondade, é o compromisso – individual, mas não só, também coletivo – ético, deliberado, insistente e intencional com um projeto de humanidade, de relações, de sociedade. De existência.

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Detox

Você passa um ano solitária, realmente tentando se entender, você finalmente consegue se explicar, se amar, se admirar. Será que você precisa, no meio de tanta correria de alguém com você? Não, você é auto suficiente. Foi a primeira vez em sua vida que quando apertou pro seu lado, e todos os problemas foram crescendo, você conseguiu entender que você é a única que pode se salvar da depressão e da ansiedade.

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Não, você não precisa namorar, pela primeira vez na sua vida, você não quer alguém que te complete e te tire da solidão, você está completa e a solidão te faz feliz. Você está fazendo algo por você novamente, parou de viver pro outro, você ama seu trabalho, você ama seus amigos, você voltou a ter amigos, você não foge deles e esconde seu relacionamento e sua vida pessoal de seus amigos por medo deles comentarem algo que você sabe mas prefere esconder pra não ter que sair do “conto de fadas” que você criou.

Finalmente você é Sara, não uma extensão de um homem abusivo, que acabou com sua auto estima e sua personalidade. Agora é cuidar, sim, cuidar pra que não apareçam outros, eles farejam auto estima em construção, eles farejam mulheres que cuidam e amam incondicionalmente. Repete pra você mesma: “nunca mais vou mendigar amor e atenção!”; “se ele não suporta sua liberdade, sua vida fora do casal, ele não é homem pra você!”; “se ele não pode te apoiar nos seus sonhos, ele não é homem pra você!”.E com esses mantras eu sigo minha vida, me relaciono por meses, analiso, quando sinto que pode virar abusivo eu me afasto… Essa sensação incrível de poder cair fora quando eu quiser é maravilhosa!

Amor tem que ser leve, não existe amor onde não somos valorizadas, individualizadas, admiradas e livres. Nós, mulheres hetero, bi ou pan, precisamos entender que homens que nos controlam não nos amam. Controle é abuso, não vamos confundir amor com abuso.

Links sobre relações abusivas:

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Amor e jeitos de

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

Tenho certa pinimba das odes ao amor romântico. Pinimba, assim. Como se fosse uma irritação na pele. Ah, o amor romântico, tão exaltado por profissionais das artes e diletantes dos sentimentos. Aquele dos grandes gestos, das flores, das velas em castiçal, dos incensos (inclusive tenho alergia), das declarações em poesia derramada, das hipérboles. Aquele que todo mundo gostaria de ter. Pois bem, sei lá.

Tem quem navegue em serenatas ao luar e sonhos de valsa.
E se deixe levar pela intensidade exibida, pelos arroubos, pelas brasas.
E, claro, pode ser, tanto pode.

Mas tem também quem aprecie aquele amor que se descobre nas frestas, o improvável, o dos pequenos gestos de delicadeza, o dos silêncios e da quietude acompanhada.

Uma imagem que me vem à mente é aquela cena final de “Notting Hill”, no banco: ela, grávida, deitada no colo dele; ele, lendo um livro. Estando ali, dando uma olhada de vez em quando, sentindo aquele quentinho por dentro. Sabendo que dá pra estar ali sem dizer nada.

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Tem aquele amor meio áspero também, que aparece na comida feita, na casa limpa, um amor construído pelo esforço, talhado na pedra, de sol a sol.

Amor bonito esse que se mostra no fazer. Que precisa de tempo pra se entender. Que vem de mansinho, aos poucos, e um dia está instalado, sem que ninguém tenha percebido direito como.

Jeitos de amores. Talvez não tão óbvios. Nem por isso menos preciosos.

O cinema, me parece, afetou um tanto a forma de se perceber afetos: confunde-se tantas vezes a embalagem com o conteúdo. Ou, por outra, espera-se sempre uma só embalagem, quando podem ser tantas quanto há jeitos de ser, de chuva ou sol, de riso ou siso. As outras, tantas vezes, não se reconhece. E criam-se faltas de algo que não falta. E dores onde não precisava. Porque não houve rosas. Porque não houve violinos ou exuberantes declarações. Porque a roupa era o macacão de todo dia e não o vestido de baile, o traje de gala, que demonstrasse… o quê? O que é que precisa ser demonstrado pela roupa, pelos violinos, pelas rosas? Por que não pela comida no fogão, pela sacola do mercado, pela faxina na casa? Menos romântico, vão dizer. Sim, é certo; mas não necessariamente menos amoroso. Não menos cuidadoso. Não menos presente. E, algumas vezes, mais sólido, mais duradouro. Resistente aos ventos, às intempéries. Amor, a cada dia.

E tem o vai-e-vem das ondas: um que começa daquele jeito, de mansinho, a cada punhado de sal, um dia pode encher barragem e transbordar em arroubos, assim, sem mais nem menos. O outro, aquele dos grandes feitos, das conquistas de territórios, dos tapetes de rosas, em algum momento pode amansar, qual fera domada, pode aquietar e deitar-se ao pé da lareira, no tapete, ronronando. Vá você desenrolar.

A moral? Não tem, né. Não tem moral. Tá tudo valendo. Qualquer maneira e tal. Só que é sempre bom ficar atento, saber escutar, saber perceber, saber acolher as formas de amar que são aquelas, que são outras. As que se exibem e batem no peito, as que não se deixam perceber à primeira vista. As que atravessam mares e conquistam ilhas em seu nome, as que talvez nem se declarem. E, no entanto, estão ali. Na sombra. Ao seu lado. À espera de, quem sabe, talvez.

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Sylvia Plath e um batom vermelho demais

Sylvia Plath. Entre seus livros, sonhos cor-de-rosa, suas palavras brancas e o sofrido desejo de ser melhor e melhor, Sylvia se construiu e construiu belas e sofridas formas de dizer a dor, a solidão, o amor, a excelência, as perdas. Ela tentou se matar algumas vezes, mas quem não tenta? Com amores infelizes, trabalhos estressantes, falsas amizades, comida enlatada, prática de esportes, maus livros, todas estas escolhas são formas cotidianas de se aniquilar um pouquinho. Mais adiante, ela conseguiu. É muito mais do que se pode dizer de muitos de nós. Ela e Alfredo abriram o gás (aquele Alfredo que ninguém sabe de quê). Não sei se eles eram tão sós como se sentiam. Talvez todos sejamos e eles apenas reconhecessem mais rápido.

 Uma vez, quando parecia que eu sofria de amor, uma amiga me escreveu: não lembre de Sylvia Plath, não lembre de Sylvia Plath. Bom, eu não a esqueço. Não a esqueci em nenhum momento, nem mesmo quando a vida doeu, de verdade,  porque sempre soube que ela era grande e que morrer – de amor? – não a fez maior, apenas fez mais breve seu tempo de escrita.

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 Ela escrevia. Era isso que ela fazia. Talvez mais, era isso que ela era. Cedo chamou seus diários de Mar de Sargaços. Vai na Wikipédia, está lá a descrição, mais ou menos assim: um lugar quente, cercado por correntes oceânicas, um cemitério dos navios. Também lá está a comparação com a descrição de Rufo Avieno sobre as Colunas de Hércules*: “muitas algas crescem em meio às ondas, as quais retardam o navio como se fossem arbustos (…) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente entre os navios que se arrastam“. Para cortar caminho, apressado para realizar mais um dos seus tantos trabalhos, Hércules abriu espaço com seus fortes ombros, rasgando um estreito marítimo, hoje conhecido como estreito de Gilbratar. E não é isso o amor, ou o viver?, insistindo nas perdas, expandindo cisões, aumentando fraturas, ampliando vazios que, a seguir, se enchem de lágrimas mornas, fértil espaço para memórias-algas, saudades bestiais, contraditoriamente encalhando sonhos e alegrias?

Já adulta, escreveu: “talvez eu nunca seja feliz, mas hoje estou contente”. É de uma sabedoria ofuscante: o odor do café, um lençol macio, uma gargalhada infantil entreouvida pela janela, um beijo displicente, um bom livro pra ler. Miudezas. Uma pena não ser, sempre, suficiente.

 “Morrer é uma arte, como tudo mais”, escreveu ela. E o que mais seria? Viver é trazer a morte como possibilidade. É experenciar a finitude, todo dia, de forma solente, irreverente ou iludida. E disse também, complementando: que eu pratico surpreendentemente bem. E o que mais é escrever senão procrastinar em suicidas bilhetes? Quando não mais praticou bem a arte, foi quando abriu o gás.

Ler os tantos textos publicados sobre ela revelam como é difícil simplesmente aceitar a alteridade. Busca-se uma resposta fácil, um culpado, um motivo evidente para não encontrar o nosso desejo de um dia a mais na clara renúncia alheia de todos os dias outros. Num viés moralizante, a infidelidade se torna alvo fácil e tentamos dar nome ao que ela – e tantos – decidiram deixar no silêncio.

Sylvia era obsessiva em seu trabalho, as minúcias a atormentavam, a busca pela alinhavada precisa entre palavra e sentido – isso a consumia. Uma pálida beleza com um batom demasiado vermelho. Ela era forte, mas parecia saber disso apenas em dias alternados. Ela era bela. E ela era triste. Entre homens fortes e suas abelhas e seus ferrões ela só pôde morrer. Eu posso mais, porque posso lê-la.

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Esse tempo presente

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É tempo de plantar

Baixinho, pra dentro, sem alarde

É tempo de deixar escorrer o rio

De transbordar pelas margens

E sonhar com flor

 

É tempo manso, sorrateiro, arredio

Da chuva que se derrama escandalosa

Das poças de lama nos pés

Do teu amor batendo na janela

E crescendo por entre as frestas, portas fechadas

Por todos os cômodos escuros

Por todos os campos vastos

Por todas as perguntas sem resposta

 

É tempo de trovão, clarão, braveza do céu fevereiro

De acalentar as rachaduras por baixo da pele

De festejar os ventos desavisados

De sorrir para a desordem nos sentidos, latentes,

Procurando caminhos de costurar a terra

 

É tempo de amor, bonita

De mãos dadas na memória do corpo

De gozo na memória do corpo

De desejo na memória do corpo

De encontro nas distâncias que somem quanto te penso,

Quanto te sinto,

Quando te vejo no inverso de mim.

 

Revoluciono-me,

Em todas as hipóteses que já joguei fora

E em todas as certezas que já não tenho mais

Em todos os escuros que me percorrem

E me contam que o medo

pode ser um impulso,

para dentro de mim.

 

Teu nome brilha

E eu acredito.

Acredito.

Desenho teu nome

Um par de asas

Um coração com flores

e um caminho até o mar.

 

Assim te espero.

E eu sei

Que você chega

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O eu que eu não fui

O eu que eu não fui é uma entidade que me acompanha. Uma sombra fugidia. Quase uma lembrança. Alguma melancolia. Um breve piscar de olhos. Que de repente, pronto, passou.

Mas está ali e segue estando, esse eu que eu não fui. Que teria estudado – claro – letras. Teria pegado o ônibus por quatro anos para o fundão, ou, quem sabe, aprendido a dirigir.

Letras, para fazer pós-graduação em linguística. Lembrar do amigo Saussure, aquele da “lettre de De Saussure à sa femme” em que eu tinha achado tanta graça, vista em um museu perto de casa, quando eu nem sabia quem era De Saussure. Antes de ler o tratado dele como se fosse romance e receber olhares esquisitos dos mais-velhos em volta.

O eu que eu não fui iria morar fora, é certo. Morar fora de novo, reencontrar-se com a forasteira que mora dentro de mim e do eu que eu sou. Fora – na Europa, em Paris, provavelmente. Em um quartinho daqueles lá no alto, com montes de escada até chegar lá em cima. Em Paris, os cafés. A beira do Sena. Os livros usados. As praças e os parques. A rua. O cheiro de castanhas quentes no inverno. As crêpes. O eu que eu não fui teria gostado de morar em Paris, embora a saudade do Brasil não fosse embora nunca.

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O eu que eu não fui não teria casado, não teria tido filhos: não exatamente por decisão, mas porque namorar é trabalhoso e difícil, estudar ocupa tempo, ter filhos…. Não teria acontecido, apenas.

Uma ponta de tristeza, talvez, mas rapidamente afastada: afinal, haveria amigos, viagens tantas, um trabalho cansativo mas recompensador. Os alunos, os colegas. Uma vida cheia de cores e de gentes. Uma vida gostosa, essa do eu que eu não fui.

Às vezes, a sensação do eu que eu não fui é tão forte que me pergunto o que estaria acontecendo agora com ela, que imagino que ela deve estar vivendo de verdade essa vida que eu não vivi em alguma realidade paralela.
A garganta aperta um pouco, mas sorrio de leve.

A eu que eu sou é tão diferente desta que eu tinha certeza que ia ser.
E nem fui.

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