Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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