Lado a lado e suas mulheres livres e biscates

Novela também é cultura, informação e , porque não, biscatagem, em forma de entretenimento. Sem perder que mais que cultura novela é um produto feito para dar lucro temos que admitir que é um produto brasileiro, apreciado em vários lugares do mundo, e que pode ser feita com muita qualidade. O filósofo pop star Slavoj Žižek diz que as novelas brasileiras são uma contribuição genuína para a cultura mundial. Ou seja, agora você pode dizer que é noveleira sem culpa de ser chamada de fútil, desinformada e inculta.

 isabel-danca-no-carnaval

Tivemos recentemente o sucesso retumbante de Avenida Brasil e Cheias de Charme, mas quero é falar da novela que ganhou o meu coração – Lado a Lado. Ela não atingiu  o Ibope que a emissora pretendia como média para o horário, mas é um sucesso de crítica. Esse texto excelente do Maurício Stycer explica algumas das razões,  por exemplo, excesso de didatismo no começo e  um ritmo mais lento que as novelas atuais. O texto também faz uma boa reflexão sobre o dilema audiência x qualidade.

Mas entre várias noveleiras amigas e amigas feministas ( algumas são as duas coisas) a novela está nos nossos corações.  Lado a Lado me ganhou logo de início: ambientação de época linda, como só a vênus platinada faz, atores dando o melhor de si e muito bem escalados para o papel e texto ótimo, com diálogos ágeis e bem escritos como há tempo não se via ( sou fã de filmes calcados em bons diálogos). Aliás, do lado de cá da telinha é quase palpável a alegria dos atores ao interpretar, o carinho por suas personagens e suas falas, como demonstra Lázaro Ramos nesta entrevista linda aqui. 

E não há só diálogos maravilhosos quando a novela toma um lado, digamos, panfletário, há diálogos ótimos na parte dramalhão – nos embates entre Isabel e Constância ( Camila Pitanga e Patrícia Pilar, que aliás está novamente dando um show como grande vilã da trama). Digo que na novela há um tom panfletário porque são claras as bandeiras levantadas pelos autores- o racismo e  a emancipação feminina e a liberdade de culto – tendo como pano de fundo no início do século XX. Em vários momentosa novela deu uma aula de História, melhor que vários livros didáticos, sobre a expulsão dos cortiços da cidade, o início da formação das favelas, a Revolta da Chibata e a Revolta da Vacina.

Mas ao meu ver o grande fio condutor de toda a trama ainda é o amor, e encarnado numa das formas mais belas de amor, porque não tende a aprisionar – a amizade profunda que nasce entre as duas mocinhas da trama, Isabel e Laura, uma negra e a outra branca. Elas se encontram no dia que deveria ser o mais precioso de suas vidas, o dia  de seus casamentos. Uma indo casar com o amor de sua vida (Isabel) e a outra casando com um homem que não amava e mal conhecia, por conveniências sociais. Uma alegre outra infeliz. Os acontecimentos do destino mudam a vida de ambas –Isabel não se casa e Laura encontra com o tempo sua alma gêmea no marido Edgar (Thiago Fragoso, também em ótimo momento).

Ok, ficou meio conto de fadas. Mas esse modelão clássico do drama vem junto com o pacote de duas mulheres que também lutam contra toda espécie de preconceito do início do século, muitos deles ainda presentes nos dias de hoje, infelizmente. Duas mulheres bem  biscates, por assim dizer. Elas almejam ser independentes, dentro das relações amorosa, em  suas vidas profissionais , pessoais e na vida sexual, na liberdade de ir e vir sem ser vista como mero objeto de desejo dos homens.

Laura quer ser reconhecida como pessoa, como mulher capaz de se sustentar sem um marido, depois de um divórcio ( na época mulher divorciada e prostituta eram a mesma coisa). Laura que ser jornalista (homenageando talvez  o papel desempenhado pela primeira mulher  a publicar textos em jornais do Brasil e precursora do feminismo, Nísia Floresta). Isabel também quer ser profissional reconhecida- empresária e bailarina (inspirada talvez  em Josephine Baker), com o adendo da dificuldade de ser negra, aliás um grande obstáculo no seu caminho. Ser mulata, negra, a faz sofrer ainda mais que Laura na trama, bem mais. Ela é além de vítima do machismo da época, vítima do racismo , esse mesmo racismo que até hoje negam existir entre nós, mas insiste em mostrar a sua face perversa aqui e acolá.

E, claro, a  liberdade sexual de ambas as moças é questionada –uma porque é negra e dançarina no teatro ( algo equivalente a prostituição na época) e outra porque é divorciada, logo, sem dono. Laura, inclusive, é vítima de uma tentativa de estupro em dado momento, e pesa contar ela o fato de ser divorciada, como se por isso só instigasse os avanços indesejados dos homens. Afinal a mulher até o hoje é  considerada muitas vezes culpada pelas violências que sofre. Isabel, para piora é ainda mãe solteira, um terror na época.

edgar-laura2

E é essa a novela que amamos todos dias ás 18:15. Que nos emociona, nos faz ver o quanto  as mulheres que lutaram antes de nós fizeram com que possamos ser mais livres hoje, mas ainda não totalmente livres, somos prisioneiras de nossos corpos, da nossa cor, de imagens preconcebidas do que é ser mulher. Somos ,ainda, vítimas de sexismo e violência doméstica, mas estamos lutando para que isso tenha um fim.

E todo esse pano de fundo da trama vem  colorido por  excelentes atuações e diálogos finíssimos. E ainda temos o amor, porque somos biscates românticas (quem disse que feminismo não combina com romance?) e faz a gente torcer pelos casais: Laura e  Edgar (Laured) e Isabel e Zé Maria. Porque na novela a vida sempre tem final feliz.

Sobre Iara Ávila

Feminista. Falo e escrevo em baleiês. Profissão: comentarista de tv. Mato barata voadora.
Esse post foi publicado em biscatagi é cultura, Biscatagi na Tv e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s