Uma Biscate De Família

#AlmaBiscate
Por Renata Lins

 

Pois é, gente. Sou biscate de família, confesso. Não tenho nem muito mérito nisso: a biscatagem corre solta há várias gerações. Da minha bisavó paterna Joana, dita Janinha, pouco sei: mas sei que ela causou escândalo em Areia, sua cidade natal, quando cortou os cabelos curtos, à la garçonne; quando andou a cavalo “como homem”, pernas abertas, e não de lado. É ou não é para ter orgulho?

Minha avó Maria, filha dela, parecia extremamente comportada. Silenciosa, ponderada, elegante. No entanto, botou os filhos – sob reprovação de boa parte da família católica – no Colégio Americano Batista do Recife: o motivo? Queria que seus filhos estudassem em colégio misto. Só tinha aquele. Minha avó não gostava desse negócio de homem prum lado, mulher pro outro. Quando resolveu deixar de pintar o cabelo e assumir o branco, foi no cabelereiro e pediu pro cara passar a máquina. A um. Essa eu me lembro. Tem foto linda da minha avó, toda sorridente, cabelinhos espetados. Minha avó só fazia o que lhe dava na telha.

De tia Sônia, irmã do meu pai, vou falar pouco aqui: dia desses faço um post só pra ela. Basta contar que ela foi presa e torturada pela ditadura. Guardou sequelas, mas não arrependimentos: nunca, nunca na vida vi minha tia dizer que deveria ter feito outra coisa. Tia Sônia, digna herdeira da linhagem Janinha-Maria. Dona do seu próprio nariz. Apesar do sofrimento.

Minha mãe? Biscate 100%. Das seis filhas do meu avô Pimentel,  a única que foi para a  faculdade: imagino que pra isso deva ter cantado meu avô, que esse era o jeito da minha mãe conseguir exatinho o que queria (e isso, eu, que bato de frente, nunca aprendi). Minha mãe que tinha sido proibida pelo meu avô de namorar tal ou qual sujeito, e combinou com a madre superiora da sua escola que iria ver o rapaz ali mesmo, na escola. Com o argumento razoável que ela iria vê-lo de qualquer jeito: será que a madre superiora não preferia que fosse sob as vistas dela? Minha mãe morena e seus microbiquínis, suas gargalhadas. Biscate toda vida. Casou com meu pai por procuração, porque ele já tinha saído do Recife após o golpe de 64 – e por isso não se formou, já que do casamento eles foram pra Paris e depois pra Argélia, onde eu quase nasci. Aliás, no dia em que saiu da maternidade, foi  a um churrasco… comigo. “Você tava bem, ia mamar, tinha um quartinho onde eu podia botar o moisés”, explicou.

Então, quando chegou a minha vez, acho que não tinha nem muito jeito, não levo nem muito crédito: não há saída senão fazer o próprio caminho, escolher as próprias dores, viver  as alegrias. Conquistar as gargalhadas, soltar o choro.

O que eu demorei a aprender, e que a coragem de vir fazer parte do time incrível do Biscate Social Club me ensinou, foi como é bom dizer-se. Contar-se. Deixar-se ver. Abrir esse espaço pra mais gente. Eu sou do tipo privado, introvertido. Por muito tempo eram vastas emoções e pensamentos imperfeitos guardados dentro. Ou escritos só pra mim, em cadernos trancados. Comecei a escrever “pra fora” porque ganhei um blog de presente no ano passado: obrigada, Cacá! E, pelas redes, conheci as super-fundadoras do Biscate, Niara e Luciana. Primeiro pelas redes, depois pelas ruas: amor eterno, encontro de almas. Mas mesmo assim foi devagar. Fui chegando de mansinho, olhando, visitando. Depois, como biscate convidada. E, finalmente, cheguei de verdade.
Ufa. Achei meu canto. Um canto de militância com muitas gargalhadas. Um canto de liberdade como poucos. Primeiro ano. Lindamente primeiro ano. Vamos mais!

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
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10 respostas para Uma Biscate De Família

  1. Patricia Sampaio disse:

    Que post lindo, Renata!! Tenho, como vc, a mesma dívida com as mulheres extraordinárias que vieram antes de mim. Avós e tias que me ensinaram, sem duvidar, o que significava ser “valente”! Cresci ouvindo isso. É bom sentir-se parte de uma corrente de mulheres valorosas, cada uma, a seu modo e a seu tempo, inventando um jeito de ser. Biscates! Que maravilha, que coisa linda… Minha vez! Tô na área! :))

    • Então, Patrícia. Sempre tenho vontade de desfiar essa história quando galera chega com papo de “as gerações anteriores” como sinônimo de retrógradas, de atrasadas. A astrologia me ensinou a olhar a parte cíclica do tempo, que vem e vai e vai e vem. E conhecer a história da gente, as lutas de quem veio antes, ajuda a dirimir preconceitos e ilusões de pioneirismo… Beijo! E que bom que você tá na área!

  2. lislemos disse:

    Ah, Renata! Que família linda! Somos biscates de linhagem. Tá no sangue!

  3. nina caetano disse:

    que post mais lindo. e que família mais linda também. lembrei de histórias da minha família e de outras mulheres, do passado, que geraram outras, de agora, também guerreiras como elas. obrigada!

  4. Adorei, Renata! Vc me fez lembrar deuma bisa-bisca que tive. Mas ainda não consigo escrever pra fora, não é fácil sair do privado/cadernos trancados… vamos ver se se consigo, ela merece. Beijo

  5. José Wagner disse:

    Sou “das gerações anteriores”,que maravilha!E vamos viver,lindo post.

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