Cinema em Linha Reta

#Alma Biscate
Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado

Letsplay.tumblr (3)Todo mundo tem uma trepada memorável para contar. E aí sobe a rampa do planalto, como que assim o mundo fosse a mais perfeita tradução da pessoa incrível que a gente é. Entre um gole de chope e outro, entre uma piada e outra, piadas as vezes de gosto bastante duvidoso, conta-se o jeito que ela estava, de como a cousa toda funcionou, da molhação, da durescência, do ritmo, das promessas de vida eterna que um simples gozo pode dar. É engraçado que nessas histórias de transa perfeita quase sempre escapa ao relato aquilo que certamente confere a uma determinada transa um status de “memorável”: pouco se fala do afeto e do riso do depois, do carinho com as unhas nas costas, da brincadeira que ela faz com o pau em repouso, como aqueles aparelhos de jogar videogame, com um nome inglês que me deu preguiça de procurar a grafia correta – estamos falando de sexo, caramba, deixemos as grafias de lado: É tudo língua.

Voltando ao núcleo duro do parágrafo anterior, as trepadas para contar por aí são muito mais as aventuras das estripulias de educação física do que os sentimentos de química. Como um retrato daquelas cenas perfeitas de cinema e tudo fica tão maravilhosamente bem feito que aquela cueca rasgada, aquela calcinha puída, aquele chulé evidente depois de um dia de intenso trabalho, meia social ou suor no pé, somem dos resumos, desaparecem das súmulas. É evidente que escrevo aqui com um olhar do cromossomo Y e que aí já começamos a entender que os estereótipos sempre nos pegam no flagra: vai ter aquele cromossomo X que dirá que não é bem assim, que relata mais as nuances dos romances, que serve mais como rima do que como escusa… Mas aí recordo da calcinha puída, esta desaparecida política.

O cacete disso tudo é que este roteiro de cinema não permite muito inovações para as horas em que o trem todo descarrilha, que a máquina engripa e que o guerreiro… medra. Numa conversa de bar é libertador falar da boa e velha, mítica mas mais natural do que erva, brochada. Prepara a alma, prepara o menino, prepara discurso. Mas mais do que isso, prepara o riso, que é a única e verdadeira redenção. Nem o azulzinho salva. Pode ter sido a bebida em excesso, aquela mesma bebida que transformou aquele bate papo descompromissado num pedido de casamento. Pode ser o trabalho, as contas que não fecham, o chefe que persegue, a chefe que assedia. Podem ser as culpas cristãs, o adultério, a paúra de deus. Pode ser a trava porque a moça tem um brinco entre os lábios. Pode ser o pânico do goleiro na hora da penalidade. Pode ser orgânico. Pode ser arrependimento. Xi… pode ser tanta tralha, tanta gaveta cheia, tanto ar, canção, enxofre, paixão desmedida por outra ou outro, apetite, ejaculação absurdamente precoce. Pode ser, pode ser… mas será: a inevitabilidade da brochada é a garantia de que você é humano.

E, sim, na hora das filmagens, e não da exibição entre um gole e outro de vantagens, é encarar o roteiro com elegância. Deixar fluir a vergonha, deixar ela – ou ele, sei lá – brincar com aquele ingrato, mexer, dar beijinhos na ponta. E não é para vê-lo acordar em riste, vingador, perfeito. É para ele se sentir melhor. Só isso. Evidente, o roteiro nestes casos há que ter improviso. Mas se fosse para dar um conselho, tentaria este: nesses dias de infortúnio, tente um pouquinho salvar as preliminares, que a surpresa pode vir entre os afetos, os carinhos, as unhas nas costas. Mas não esqueça da proeza que é o sobreviver depois de uma digníssima brochada. O bar também precisa disso, dos sobreviventes.

Neste blogue de biscatagem libre, neste espaço de libertinagens, a machaiada pode encontrar a mais linda parte do tal feminismo, que é a sua capacidade libertadora, emancipadora. Então, que venham brochadas, cuecas furadas, calcinhas puídas, chulé. E que rir da gente mesmo é melhorar nosso cinema, e não só um ou outro roteiro. E se filme de aventura é, na maioria das vezes, mero entretenimento, comédia, quando boa, é arte pura.

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fernando_amaral*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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6 respostas para Cinema em Linha Reta

  1. Fernando, acho que sua alma biscate pegou total o espírito da coisa… a risada nos liberta a todos. Lembrei desse poema aqui, que um dia encontrei por acaso e que de vez em quando penso que valeria encaixar num post…
    beijo!🙂

    http://mariadapoesia.blogspot.com.br/2004/08/hit.html

    Tem versão recitada tb, olha:

  2. mozzein disse:

    Pela revelação do paradeiro da Calcinhas Puídas! Textarasso!

    • E que vivam as calcinhas descoloridas!!! As com cor de pele, com o elástico já malemale… E que saiam aos desfiles nossas cuecas coloridas desbotadas de cândida!!! Abraço!

  3. AMEY . pq sexo gostoso, amor, cumplicidade ou uma simples trepada bem dada em que o tesão sucumbe aos estereótipos impostos tem calcinha puída, cueca amarela, meias, falta de depilação ( um tabu besta, ao menos pra mim). tesão não repara nisso. nem gente de alma biscate.

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