Pode Me Chamar de Gisberta

Instrumento

Aprendi: as pessoas podem me ferir. Por maldade. Por falta de imaginação. Por pensarem demais. Por planejarem pouco. Porque estou aqui, e sinto, uma pessoa pode me ferir. Por acaso. Sem querer. A gente esbarra em uma palavra de ponta mais aguda. E sangra. Eu aprendi. E pensei em me proteger. Camadas de silêncio, quem sabe? Mas preferi as cicatrizes. Escolhi os arranhões. A letra, afiada, desenhando, na pele, os desencontros.

 De Dentro Pra Fora

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Quem é você, ia perguntar, mas me perdi estranhando o familiar: ela me sorria com olhos tristes que eram os meus – se eu tivesse me lembrado de sofrer – e inclinava a cabeça em um ângulo que meu corpo desconhecia, mas era quase possível adivinhar que faria exatamente assim se tivesse caído no despenhadeiro errado. Ela tinha faltas, em lacunas eu a sabia quase toda, menos no que nos encontrávamos. Fazíamos tantas esquinas que um caleidoscópio de múltiplas cores era comparação presente. Nunca vinha quando eu a chamava, menos por birra e mais por desconhecermos a língua uma da outra. Faço-lhe cafuné, afago as mãos e ela perde os olhos no infinito. Desacostumou-se ao carinho ou também esta é uma linguagem que lemos em dicionários distintos. Procuro ensinar-lhe a letra A, como dizer da alegria sem isso? mas ela desenha cavernas e poços sem luz e eu temo o escuro de mim mesma e não a sigo em escavações. Faço meus próprios rabiscos, com crayons cor de cobre e ela os preenche com sangue. Eu fecho os olhos, ela os traz abertos e cegos. Eu sei azuis, pássaros e o doce. Ela cozinha em amargos, espana teias de aranha das velhas notícias e tece mortalhas. Eu coleciono fotografias amareladas e sonho futuros. Ela faz fogueiras e geme o hoje que não consegue parir. Ela espalma a mão no vidro embaçado da janela e não escuta os risos na rua. Eu deito na grama e bebo o sol. Andamos no mesmo passo e é um espelho triste, porque seus braços pendem enquanto rodopio com os meus bem abertos. Percorro suas olheiras com as mãos e sinto a carícia. O vento forte faz lágrima no seu olho e eu, que desaprendi a chorar, bebo sal. Choro uma saudade morna de tê-la sempre presente e ela morre – só pra me agradar.

De Fora Pra Dentro

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Porque ela acreditou, bordou camisola, bateu colcha, abriu janelas. Acendeu a lenha no fogão, fez fogueira no terreiro, deixou a pele em brasa. Porque ela acreditou, criou trilhas, espalhou mensagens em garrafas, deixou feijões e sonhos como guias. Porque ela acreditou houve meninice nos olhos e antiguidade nos gestos, ansiosa expectativa, jogos e risos. Porque ela acreditou fez o dia correr pra noite e o sol se vestir de suave negro pra espiar o que ela soletrava como felicidade. Porque ela acreditou a ninguém culpou quando o nada se fez e foi fel que ela bebeu em grandes goles. Aceitou as sombras, aceitou a dor, aceitou a cama fria. Porque ela acreditou arrancou o coração com as mãos nuas, chorou o sal sem soluços e deixou-se morrer sem suspiros.

Gisberta foi assassinada. Em Portugal, dizem os registros. Em 2006, assinalam os documentos. Digo eu que estão errados registros e documentos: Gisberta é assassinada toda hora e por todo o lado. Lá e aqui. Assassinada. Porque era diferente. Por isso: ser. Assassinada por um grupo de adolescentes entre 12 e 16 anos. Assassinada por mim e por você e por toda uma sociedade que vira o rosto e acha feio o que não é espelho. Assassinada para não nos lembrar a diversidade. Para que possamos fazer de conta que não queremos mais, que não podemos mais, que não somos mais. E por incomodar assim, não foi suficiente negar-lhe a vida. Foi preciso a tortura. Uma vida violentada e maltratada por dois dias inteiros antes de ser extinta. Não há palavras pra descrever o horror que é uma sociedade que forma e autoriza jovens, quase crianças, a negarem a alguém a dignidade e o respeito de ser um Outro. Não choramos o bastante. Não protestamos o bastante. Não nos indignamos o bastante. Não lamentamos o bastante. E, especialmente, não estamos, eu, você, agora, fazendo o bastante. Não porque o que é feito seja pouco. Mas porque não tem sido o sufiente. Há Gisbertas morrendo. 

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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2 respostas para Pode Me Chamar de Gisberta

  1. Silvia Badim disse:

    Lú, nossa, puxa, afe, je-suis, coração na boca, em cada letra, uau! lindo demais da conta. chorei.

  2. E sabes, Borboleta, que me senti mesmo fraco, covarde, pouco fiz. Nós todos, como dito no texto. E fui correr linhas sobre Gisberta… http://www.dn.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=636554&page=-1 Fico com este relato: A “mulher belíssima, muito cuidada, profundamente feminina e dócil”.

    Definitivamente, não tem sido suficiente.

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