Alteridade

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

Mulher+Sombra

Não sou de falar muito. Menos ainda quando estou “descobrindo a novidade de outra pessoa”. Sei que outros homens entenderiam o que estou tentando explicar. Empresto palavras alheias, se preciso for, porque as minhas são imprecisas. Sou capaz de usar outros mil artifícios, quase outro idioma: olhos, mãos, abraços, cheiros, toques. Inesperados, insuspeitos, provocadores, banais, casuais, audazes, brincalhões. Meu riso vem fácil, meus olhos se derretem, meu corpo se oferece, mas eu não falo. E alguém acaba reclamando… Eu entendo. É bom ouvir que as pernas balançam quando a pessoa te abraça por trás e te beija a nuca. É bom ouvir que se perde a respiração quando ela está por perto. E também quando não está. Quando ainda não chegou. Está chegando. Quando o telefone toca. Eu sei. É bom ouvir o quanto se sente feliz só porque a pessoa está ali, sem saber bem o que isso quer dizer. Também gosto mas, perdão, não sei falar. Minhas palavras soam estranhas, dissonantes, desconcertadas, envergonhadas. Nunca parecem dizer o que estou pensando. Se eu conseguisse … Talvez dissesse que o encontro dos seus cabelos com a nuca parece a porta de entrada de um país estrangeiro. Cada vez que chego ali, nunca sei onde vou parar. Sempre um território novo a explorar e o guia é o som dos seus gemidos. Se eu pudesse descrever como sinto a textura da sua pele latejando sob meus dedos por dias a fio. Que o cheiro do seu perfume atravessa qualquer parede e se entranha em todos os lugares. Que quando seus olhos brilham, vejo meu reflexo neles, como que preso a um sortilégio, um encanto, um malefício… Os lábios. O gosto da boca. Não há palavras que definam a leveza da curva que se forma quando ela se cola na minha. O abraço, braços, pernas, suor… Como descrevo as ondulações dos seus quadris sem me sentir, no meio do mar, tempestade, borrasca e eu, sem salva-vidas. O calor do teu corpo sempre deixa marcas no meu, como tatuagem que (descobri!) servem para me dar “coragem prá seguir viagem quando a noite vem”. O jeito descompassado que meu coração bate não tem tradução. Desculpa! Nunca vou conseguir tanta precisão quanto penso ter quando fico olhando, fixamente, incomodamente. Aprendendo. A curva do rosto, o desenho da sobrancelha, os tons escuros das pálpebras (olheiras, já sei…). O modo como franze os lábios quando leva a lata de cerveja à boca. O jeito que ri das bobagens que costumamos dizer, mas, o melhor é quando sorri, vitoriosa e superior, ao me ver a seus pés, literalmente de joelhos, admirando a luz refletida nos cabelos. E o que dizer da fome… ( Tá! Assumo. Assusta mesmo, às vezes.) Essa brota da boca, da voz embargada, de todos poros do corpo que estremece quando meus dedos tentam explicar que eu também tenho muito a dizer. Perco o juízo, a sensatez e emudeço! Como poderia conseguir dizer algo? Ainda assim, estou aqui. Tentando. E então? Quer aprender minha língua?

 PS: Este texto é um exercício de alteridade. Ou, ao menos, uma tentativa honesta de estar no lugar do outro. Foi escrito como se dito por um homem, mas pensado como algo que uma mulher gostaria de ouvir. Se não todas, certamente esta gostaria…

Patricia_perfil* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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10 respostas para Alteridade

  1. Para quem não sabe falar, esse foi um dos textos mais fortes de discurso amoroso que li nos últimos tempos. E, ao contrário de Barthes, não veio em fragmentos.e sim tal uma avalanche arrastando muitas paixões.
    Não apenas gostei, como me identifiquei com as dificuldades de Patrícia Sampaio para descrever esse redemoinho que nos envolve inteiramente, dentro e fora do corpo e chega até nossas vísceras.
    Beleza!
    Saudações,
    Memélia Moreira

  2. Patricia Sampaio disse:

    Memélia, agora quem ficou emocionada fui eu! Grata pela generosidade e tb feliz por ter encontrado uma interlocutora!

  3. Silvia Badim disse:

    Lindo, lindo texto! Senti tudo, e entendi com os poros esse silêncio que não diz, mas fala tanto!

  4. Paula Dantas disse:

    Difícil é interpretar o silêncio e entender quem se cala.

  5. bete davis disse:

    lindo.
    lindo mesmo. arrepiei.

  6. Um texto que se saboreia.
    E, com sorte, se vive…😉
    Beijo, Patrícia. Que venham outros!

  7. irian gill disse:

    Li em voz alta…para sentí-lo melhor, saboreando-o palavra por palavra!
    Com sorte, se vive algo assim, com tanta intensidade.
    Espero outros tantos! beijo Patrícia

  8. mozzein disse:

    Amar esse post é pouco, né gente! Todos qué mais Patricia no Bisca!!

    E sugiro ouvir “Dans mon coeur” (Terezinha, do Chico, mas em francês) ao ler.

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