Dar-se ao respeito

Cresci ouvindo de quase todas as pessoas ao meu redor que a mulher deve dar-se ao respeito. Eu não entendia muito bem porque tanta gente me falava aquilo, e de alguma forma, internalizei tal discurso como o correto, o ideal, algo que eu deveria seguir. Afinal de contas, mesmo eu tendo sido uma criança questionadora, não imaginava que aquelas pessoas que tanto me amavam poderiam me ensinar algo ruim.

corujinhaEsse respeito do qual falavam (e falam) significava, basicamente, que a mulher não poderia fazer nada que “manchasse” sua reputação. Sabe como é, né? Mulher tem que ser discreta, comedida, pura. Seus gestos “naturalmente” (sic) delicados não podem dar brechas para palavrões ou conversas animadas e regadas à cerveja em mesas de bar. Mulher de respeito não sai de casa à noite, muito menos desacompanhada de um “macho protetor”. Mulher de decote? Vixe… O demônio em pessoa. Essa só quer chamar a atenção dos homens, ela certamente não tem nada além disso para se preocupar. Tem muitos amigos homens? Provavelmente não presta, não é de confiança. E já deve ter “dado” para todos eles…

Um tempo depois, quando eu já era adolescente,  reproduzi tudo isso que supramencionei. Eu julguei muitas meninas que não agiam dentro do que eu entendia como certo. Perdi oportunidades de, talvez, ter feito grandes amizades e de aprender coisas bacanas com quem pensava diferente de mim. E só hoje, alguns aninhos depois dessa fase de descobertas que eu temo não ter vivido plenamente de tanto que me “dei ao respeito”, é que eu compreendo o que significa, na visão de quem me ensinou, ter o direito de ser respeitada.

Se eu quero tal direito, devo me condicionar. Devo negar o que sou, o que sinto. Não posso ter vontades e vivê-las. Ai de mim se eu resolver demonstrar que penso bem fora da caixa que arranjaram há milênios para separar as mulheres “dignas” das outras. Justo isso, né? So que… Não. E sabe o que dói mais? A quantidade de gente jovem, que deveria ser trangressora e lutar para dirimir tantas ideias cruéis e vazias, mas reforça tudo isso, sobretudo nas redes sociais, parece aumentar a cada dia. Não os culpo, mas me preocupo bastante com isso.  Aquela palavrinha que me dá medo, backlash, está bem aqui, à espreita.

Penso eu que muita gente precisa aprender a enxergar as mulheres como GENTE. Isso mesmo. Mulher é gente. Mulher não é um ser humano de segunda classe, que é incapaz de gerenciar as próprias escolhas. Não se mensura respeito a uma mulher tendo como critério o que ela faz com o seu próprio corpo, como ela se veste, o que ela bebe, etc. Você até pode se incomodar ou não aceitar a forma como ela age. Mas quem é você para determinar qual o nível de dignidade dela?

Acho que ninguém tem de “dar-se” ao respeito caso não esteja prejudicando alguém. Trocaria esse “dar-se ao respeito” fácil fácil por um “dar respeito”. Respeitar o outro, genuinamente. Até porque, esse papo de que o respeito tem dois pesos e duas medidas, que uns o merecem mais que outros já não me convence mais. Convence a você?

Sobre Cláudia Gavenas

Paulistana, 26. Designer, gateira, feminista e musical. Meio perdida na vida, mas não tem certeza se realmente quer se encontrar...
Esse post foi publicado em biscatagi, memória biscate, uma biscate quer e marcado , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Dar-se ao respeito

  1. Keith Fernanda disse:

    lindo texto!! Nós as mulheres estamos na luta por direitos iguais e uma sociedade mais justa sem discriminação e violência!!!!

  2. Alessandra disse:

    Gostei bastante, Cláudia. (Me “dei ao respeito” tempo demais)

  3. Isto chega a ir além do sexismo. Pessoas que se fazem menores ou aceitam ser tratadas como inferiores principalmente no mercado de trabalho também fazem parte desse grupo. Devemos entender que na condição de humanos civilizados, com leis que “garantem” igualdade, somos os únicos responsáveis por exigir tratamento igualitário.
    Gostei bastante do texto. bjão =]

  4. marcia perez disse:

    É tudo isso e muito mais. Parabéns pelo texto.

  5. “Dar-se ao respeito”: mais uma desculpa que o homem inventou para controlar a mulher

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s