Entre o Preto e o Branco

Por Mestre Addam*, Biscate Convidado

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri relativamente mais cedo que a maioria das pessoas que conheço. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

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fotografia: Alexandre Medeiros; modelo: Jessica Luz

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

.

2012-12-07 08-50-00.895*Mestre Addam (mestreaddam@gmail.com) é Marcelo Leite, carioca, defensor da liberdade de expressão, da livre relação e da biscatagem em geral. Escreve ainda como Troll, no Palácio Elétrico e surta em doses homeopáticas pelo twitter @addammgl

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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11 respostas para Entre o Preto e o Branco

  1. Então. Que bom que um praticante de BDSM também não gostou. Eu “não li e não gostei”, embora tenha folheado, como comentei em post aqui https://biscatesocialclub.wordpress.com/2012/09/22/meus-cinquenta-tons-de/ . Mas o meu não-gostar era externo: não gostei do texto, da forma. Não gostei da construção dos personagens, precária. Não gostei das marcas, como você também aponta com propriedade.
    E minha sensação ao ler seu texto, de que gostei e que me ensinou coisas, é que é bom demais para aquele livro. Sério. Ele não merece isso tudo. É ruim demais e me arrisco até a dizer que, aqui no Brasil, se não tivesse havido a megaoperação que houve no lançamento e divulgação, ele teria passado batido.
    Merece o esquecimento. Ao contrário do seu texto.

    • Agradeço imensamente os elogios.
      Já me perguntaram se pretendo ler os outros livros da trilogia e minha resposta foi que não, exatamente por que achei também a narrativa fraca e mal escrita. Não acho que mereça a chance que possa ter de se tornar melhor peça BDSM, ao longo do tempo, por que já de cara não gosto da forma.

      Li o primeiro livro por que muitos praticantes o comentam sem lê-lo, e queria ter uma opinião um pouco mais formada.

      Mais uma vez, obrigado, caríssima. Imenso prazer.

  2. bete davis disse:

    achei que seu texto foi preciso na crítica. estou como a Renata, não li e não gostei. li um pedaço aqui outro acolá postado em listas de discussões e matérias de revistas. Como literatura achei fraquíssimo e como literatura erótica idem. Há muita coisa melhor por aí, as pessoas precisam é descobrir. Adoro pr exemplo, Anais Nin, pouca gente já leu. ( não acho os malditos acentos nesse Mac). Mas ler uma boa crítica de um praticante doce e inteligente do BDSM é algo único. Beijos, meu amigo.

  3. Ana Beatriz disse:

    Adorei o texto e achei muito pertinente afirmar que muitas relações tradicionais estão longe de ser um relacionamento são. Perfeito! Fiz uma leitura conjunta do livro e posso dizer que o único efeito sobre nós dois foi provocar inúmeras gargalhadas. Tive a mesma sensação do Mestre Adams, definitivamente Ana é a Bela e o Sr. Grey é Edward! Isso sem falar da constrangedora troca de e-mails no estilo ” Diário da Srta. Jones”. Perdi o meu tempo com essa porcaria de leitura apenas porque queria ilustrar melhor uma discussão sobre a questão do controle nas relações. Isso é algo que me intriga, gosto de controlar e ser controlada em nuances sutis que não se aproximam do BDSM, mas estão longe de um relação “padrão” (seja lá o que isso for…). Não conhecia Laura Reese, vou procurar os livros dela. Ótimas dicas, queridos!

    • Infelizmente, caríssima, o que tivemos não foi só uma “sensação” sobre o livro parecer Crepúsculo. A escritora já deu entrevistas em que revelava que começou tudo escrevendo suas próprias ficções daquele universo. E a coisa estourou online, então editoras olharam interessadas.

      Não digo q perdi meu tempo completamente, com essa leitura, por que agora percebo melhor o ponto de vista das pessoas q vêm ao meio BDSM ou procuram mais informação a partir desse texto.

      Quanto a jogos de controle, BDSM não, mas D/s possui um aspecto power-play bem pronunciado.

  4. Fernanda Souza disse:

    Excelente crítica! Os 50 tons de bobagens, apelido dado por mim para uma obra que não passa da versão moderna dos contos de livraria, somente reforça a solidão e ilusão das pessoas na qual as mulheres devem ser submissas para alcançarem a felicidade. Não sou feminista e muito menos defendo ideologias de forma drástica, mas confesso que tenho preguiças das modinhas capitalistas.

    • A submissão não deve ser meio, mas fim. A pessoa precisa ter aquela vontade, aquele fetiche, e satisfazê-lo, não por que isso leve a algo mais. Mas por que aquela posição faz parte daquele momento.

  5. dia desses comentei com algumas amigas do movimento feminista ao conversarmos sobre o livro (que tb não li e não gostei. rs) e que o criticaram por supostamente erotizar a violência doméstica, que pelo que eu conhecia de BSDM, a diferença básica entre uma coisa e outra era exatamente a ausência do que você aqui chama de “freio de mão”. delícia de texto.
    P.S: Bete Davis, também adoro Anaïs Nin.

    • “Erotizar a violência doméstica” é um preconceito bem comum em relação a práticas S&M e D/s. Importante ressaltar q nenhum praticante são apóia qualquer coisa do gênero fora de um consenso entre as partes envolvidas (que às vezes não são duas partes, podem ser mais).

      Da mesma forma, fica a questão do poliamor, ou de relacionamentos livres: é traição, estar apenas com outra pessoa, se não é algo q vc sinta q precisa esconder do outro?

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