Das forças

themirror

Cena do filme “o espelho”, de Tarkovsky

Talvez você não saiba nunca, porque a gente nunca pode saber do que não vê. Ou do que não sente. Talvez você não tenha visto, talvez tenha sido tudo um enorme desencontro, talvez nada tenha sido exatamente como a gente gostaria, assim, tudo florido e calmo e pacífico como um dia claro de luz de sol. E a gente que estava lá, no entanto. Talvez tudo tenha sido muito, e a gente tenha ficado sem chão nem nada, no meio daquele amor que nos tirou do lugar e nos levou para outro, totalmente diferente daquele que estávamos acostumadas a morar.

 Não dá para mensurar, ou entender. Mas eu estava lá. Do meu jeito, como você, eu estava lá, desabrigada e nua, reinventando-me no meio de tantas marolas que passavam e faziam ondas no meu barco, eu estava lá, um tanto desnorteada e sem rumo, um tanto opaca no meio de tantas marés, e com uma fome enorme de descanso, eu estava. Meus braços estavam abertos e eu te via, sentia seu corpo arrepiado colado ao meu, seu coração assustado e desconfiado junto do meu, sua vida sorrindo latente e reticente para a minha, eu te via. Eu te acolhi no seu mergulho corajoso e eu mergulhei também, acredite, eu mergulhei no gelado e as minhas pernas enlaçaram-se às suas desde a primeira gota de água.

 E eu vinha com muita bagagem, eu sei, eu vinha com meus lastros que por vezes eram mais do que eu podia carregar. Mas eu estava soltando os pesos ao longo do caminho, eu estava mergulhando cada dia mais leve das vidas passadas que se acoplaram à minha, eu estava sempre e indo, ritmo constante de quem quer. E era você, o tempo todo, desde aquele primeiro beijo, era em você que eu via meu futuro e o meu presente, acredite, sempre foi desde então, a imagem que estava no norte que me guiava, a flor que desabrochava nos meses que brotavam no calendário.

 Não teve mentira em nenhum movimento, não cabiam mentiras ou desvios de querer, não cabiam dúvidas porque a gente não precisava ir para onde não queria. A essa altura da vida não cabiam falseamentos, não cabiam casas em terrenos arenosos, não cabia nada que não fosse nosso. Simplesmente não cabiam desvãos de vontade, não tinha espaço além dos nossos corpos colados e das nossas mãos dadas, não tinham respiros além de nossos amores mergulhados no rio que encontramos escondido entre as árvores das vidas que se cruzaram, ali, por puro mistério do destino.

 Claro, sempre existem os ventos e as tempestades, sempre existem as contingências e os imprevistos, e a gente já não se ilude mais com a certeza da construção que nunca desmorona. Ela pode desmoronar, mas a vida que escolho é a que resiste.

 E é porque eu acredito na força, nessa força que enxergo quando sinto seus olhos mirando profundamente os meus, ou quando nossas bocas conversam para além das palavras. Nessa força capaz de conter os arroubos do caminho, uma força capaz de cercar a casa com flores e quebra-ventos, com patuás contra os quebrantos, com cercas vivas de amor e sossego bom.  É, é preciso perseverança e um tanto de paciência, é preciso acreditar na mágica e na sinastria dos astros, na luz da lua inundando a alma, no canto dos grilos que celebram a felicidade. É preciso ter a ingenuidade de seguir desprevenido, é preciso acreditar no carinho dos pássaros e na voz aguda do vento que sopra poesia, é preciso acreditar em tudo isso e ainda em um pouco mais de beleza.

 Porque o amor é mágico, e dentro do amor estamos nós

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
Esse post foi publicado em biscatagi, biscatagi séria, desejos de biscate, uma biscate quer. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Das forças

  1. Li como se estivesse lendo um texto meu. Beijo, Silvia.

  2. Anita Dutra disse:

    Eu também li assim. Simetrias.😀

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