Por trás de um grande homem

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É quase arquetípico: o casal está junto há sei lá quanto tempo. O cara é aquele sujeito artista, gente boa, querido, poeta sonhador; criador, engajado em causas, líder de utopias. Todo mundo o ama.
A mulher? briguenta, centralizadora, dominadora, ranzinza – “não deixa ninguém chegar perto dele”, “controla [a grana/as notícias/ os contatos] com mão de ferro”, é insuportável… ah, se não tivesse essa mulher…

Sério que vocês acreditam nisso? Acham que o cara não sabe de nada – tadinho – e que a mulher decide tudo sozinha, faz tudo sem o conhecimento dele, tem toda a responsabilidade? Pelamor. Casal só se entende em conjunto. Inda mais nesses casos. É uma coisa só: o cara só é “o poeta-gente boa-sonhador-criador” porque tem a mulher “criadora de casos” pra fazer a retaguarda. Pra negociar. Pra acertar as arestas. E valorizar o passe.

Isso é até profissão: não é à toa. Quando é profissão, fica mais claro, embora muitas vezes a culpa da dureza das negociações, da dificuldade do acesso, fique nos ombros do agente. Mas esse é pago pra isso. No caso de casais, não. Mas é uma parceria, igual. É um acordo. Um só pode ser o que é porque há o reverso da medalha – da mesma medalha.

A cabeça só se desloca se os pés a levarem, já pensaram nisso? Parece óbvio. E no entanto. Tem até um ditado, muito difundido por AdeA: “idéia não tem perna”. E é exatamente isso. Tantos artistas sonhadores existem sem ninguém saber. Estão lá, no canto deles. Sem “pernas”: porque brigar, negociar, barrar, dizer não, dá trabalho. E, tantas vezes, a mulher vai assumindo essa função: porque ela quer o que ele quer – que é fazer sucesso, aparecer, virar liderança nacional. Crescer para além das próprias idéias, da própria utopia, dos próprios poemas. Virar inspiração e caixa de ressonância. Difundir, multiplicar. Espalhar-se.

E, vejam bem: eu não estou discutindo se isso é bom ou ruim. Não estou fazendo julgamento de valor. Só estou querendo marcar uma posição: não dá para olhar um sem o outro. “Ele completa ela e vice-versa”. E vice-versa. Sem o versa, não há como entender o vice. Fica pela metade. E entendimento pela metade é entend…  não chega a canto nenhum.

Sejamos menos ingênuos: não há bruxa, não há santo. Ou por outra: só há santo porque há bruxa.

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
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4 respostas para Por trás de um grande homem

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