Chamado

“O outro sugere ser decifrado, para que lados mais difíceis de meu eu, do meu mundo, de minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e é às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu.” (Carlos Rodrigues Brandão)

Paixão é fogo. Queima como para nos fazer renascer. Para pessoas como eu, em que a paixão é o estado em que disfarço alguns climas frios do de dentro, certos olhares são quase a morte por congelamento.

Nunca prometi a ninguém nada além do que posso dar, que se por algum acaso e desejo, olhares, mãos e corpos se encontrem, algo de nossas verdades possa transparecer. Talvez, por isso eu escreva histórias, para que a certeza que esses encontros só podem ser breves, fugidios, fugazes, mesmo que durem, não me atinja com tanta força.

Pessoas que me imaginam tola, romântica e frágil, um tanto quando ensandecida e incoerente, não sabem da possibilidade de frieza e manipulação de que sou capaz. E do ódio que me toma quando me dou conta da minha incapacidade em machucar outrem conscientemente. Da raiva pela minha impotência, e a palavra é essa mesmo, impotência, em magoar conscientemente as pessoas.

Das muitas vezes em que me disfarço em bebedeiras para tentar fazê-lo. Porque eu preciso? Porque eu quero? Porque também poderia me dar prazer?

Fui alvo de tentativas de colonização excessivas vezes. Soube-me por conta disso anima, alma do mundo, metáfora ideal, estrangeira na minha própria casa, para que aquele homem não precisasse olhar para dentro de si mesmo e reconhecesse suas fragilidades e terrores interiores. Foi quando olhei para dentro de mim mesma e aprendi a buscar temperaturas mais amenas. Dentro e fora.

Estou pois, cansada de lutar contra esse mundo “real” que ele me ensinou a viver. Onde o feminino era constantemente o desconhecido que precisa ser ou dizimado ou divinizado. Não sou apenas imanência ou terror. Ninguém é apenas isso. Ou aquilo.

Que loucura é essa que nos tenta ensinar que alma vale mais que corpo, razão que emoção, inteligência que intuição? Que corta, machuca, fere, faz-nos ver o pior para que olhando em nossos olhos de dor possa se enxergar?

Não posso dar mais nada de mim. Estou cansada. Muito, muito cansada.

Não atendo o telefone e continuo a ler trancada em mim mesma.


Até que um alguém, longe do passado triste, me molha a boca com gosto de café num sussurro quente: “Assim, o que o outro vê de seu lugar não é apenas a película superficial de minha pele, mas uma interioridade inesgotável que aí se expressa e exterioriza, sendo possível aos corpos enlaçados um ao outro (um corpo em geral visível-vidente) fazerem seu exterior seu interior, e seu interior seu exterior”.

Quebro o espelho algoz, coloco meu batom vermelho, a saia curta, fecho os botões da blusa negra para que o coração não se assuste com tanto barulho de outros tempos, tranço o cabelo e vou ao encontro de um alguém quem tenta enxergar todas as estações que podem nos contar, não como homens ou mulheres, e sim como pessoas, para dividir alegrias das bobas e musicais depois desse longo inverno de lembranças e sentimentos ruins.

Porque há muito tempo meu veneno foi dado àquele personagem de filme de terror.

Vivo, pois, o agora de acordo com a liberdade de estar romance leve.

Desligo o som e o celular antes de fechar a porta. Vou embora.

* Imagens da Série Entrelinhas de Raquel Stanick

Sobre Raquel Stanick

Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso) escreve desde não se lembra bem e quando.
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