Hiato

Por Barbara Manoela Bijos Maués*, Biscate Convidada

“desse jeito, tão perfeito, só você me faz feliz.”
(Movimento – Poléxia)

Desde o acidente, minha vida se tornou um amontoado de acontecimentos diários: contas pra pagar, gatos, meditação, amigos, trabalho. E o desafio que é aprender a lidar com um dia a dia tão dolorosamente vazio da falta que faz não escutar a cantoria dele durante o banho, pela manhã, ou as conversas imaginárias que ele tinha com o gato, durante os jogos do São Paulo.

Entre os aprendizados, está a questão da mobilidade: ir ao cinema tornou-se uma questão complexa. Hoje, enquanto combinávamos nosso próximo encontro (depois de 1 mês sem se ver), percebi que ir ao cinema já não é mais um programa simples: a distância entre a tela e as primeiras poltronas é confortável o suficiente para que ele consiga assistir ao filme sem sentir dores no pescoço? Será que é mais confortável ir ao cinema em uma sessão mais cedo e portanto, mais vazia, e assim conseguirmos posicionar a cadeira de rodas em um degrau mais alto?

Confesso que, diante de tantas  dificuldades, senti pena de mim mesma, pensando na dificuldade que vai ser conseguir assistir a um filme no cinema com meu marido. Mas a tristeza durou pouco, afinal de contas, biscate que ama não desiste nunca!

Rapidamente, lembrei da nossa coleção de DVDs, carinhosamente apelidada por ele de “Fetuteca”, em uma analogia ao apelido pelo qual ele é conhecido – Fetu. E imaginei nossa casa cheia de amigos, pipoca e risadas, durante sessões de cinema particulares, onde escolheremos que filme assistir, ou criaremos nossos próprios enredos diante da história que se descortina na TV de plasma. Ou então, brincaremos de cinema mudo e criaremos trilhas sonoras alternativas pra histórias de amor, suspense ou terror.

A criatividade no viver a vida certamente terá que ser muito maior, assim como a vontade de experimentar situações para saber o que funciona e o que não vai dar certo. Devagar, estamos tateando esse universo e fazendo nossas próprias descobertas.

A falta de mobilidade do meu marido, definitivamente, não é sinônimo de isolamento e tristeza, pelo contrário.

E hoje, aprendi mais uma lição: quando existe amor, a gente vai aonde ele estiver, do jeito que for, porque não existe imobilidade, deficiência ou obstáculos pra ser feliz.

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*Barbara Manoela Bijos Maués é uma carioca morando em São Paulo, trabalha com gestão cultural, amigona, intensa e criativa, feminista e gateira. Para defini-la em duas palavras: amor pululante! Você pode acompanhá-la de perto no Facebook ou pelo twitter @barbaramanuela.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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2 respostas para Hiato

  1. Andryo disse:

    Muito linda a historia de vocês dois… tudo isso merece um filme…beijos de seu amigo Andryo Ferrari

  2. José Wagner disse:

    Lindo,alimente sempre este amor.

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