Das diferenças entre nós e da Chica

Há muitas formas de preconceito e discriminação. Todas elas têm, no início, a mesma origem: o medo do diferente, do desconhecido. No início. Porque depois esse “medo” vai dando lugar a sentimentos menos nobres ou justificáveis, como nojo e ódio e conforme crescem se tornam anomalia social, apesar de sua aparência “natural”.

Dizer que uma mulher é fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta e apontar o dedo para ela achando que não tem o direito a sua sexualidade e a fazer o que bem entender com seu corpo é uma coisa. Todas nós, mulheres, sofremos isso em algum(ns) momento(s) da vida, sendo fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta ou não. Dizer preconceituosamente o que somos (?) e nos negar nossa sexualidade (a gente vai lá e assume ela do jeito que der) é diferente de achar que porque somos fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta estamos ao alcance, a disposição de quem quiser “se servir”.

É aqui que está a diferença nada sutil entre nós, e precisamos ressaltá-la. Uma diferença de pele, de tom, de cor. As mulheres negras estão mais à disposição e ao alcance de quem objetifica a mulher e nosso corpo: herança ainda tão vívida do nosso passado de casa grande e senzala.

Mas, ao invés de fazer um rosário de lamentações sobre porque as mulheres negras — e também as biscates — sofrem mais discriminação que as brancas e fazer o discurso denúncia-vitimização, prefiro lembrar de uma negra, escrava, biscate até a raiz dos cabelos, que deixou sua marca no imaginário brasileiro da mulher negra e dona do seu corpo e vontade: Chica da Silva.

Não vou contar toda sua história porque há filme, contos e novela onde era o personagem central*, bem mais por sua atitude do que pelo concubinato de quinze anos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica (ou Xica) da Silva, “a negra”, ficou conhecida por sua atitude diante da vida e porque ela dava, e muito. E sabia usar sua sexualidade em benefício próprio. E usou o dinheiro que tinha para forçar ser aceita como sinhá. E foi aceita, a contragosto…mas foi! E foi feliz também, apesar dos pesares.

Há historiadores que colocam em dúvida sua existência, mas o que importa é a história que ficou e que se conta até hoje, como registro do agir de uma mulher livre, nada além do seu tempo, apenas dona de si. Quando se fala em Chica, costuma-se dizer que foi o dinheiro e o prestígio do concubinato com alguém muito importante que lhe conferiu segurança, a salvo da maldade, preconceito e injustiças sofridas por suas iguais. Ainda mais numa época em que a liberdade era uma questão de pele e o direito à fala uma questão de gênero.  Claro que a história dos negros no Brasil não é feita só de vitimização**. Teve resistência, e muita, e outras histórias lindas assim como a de Chica. Uma coisa é certa, num mundo machista e escravocrata somente o dinheiro não teria sido suficiente sem a atitude e o desejo pela liberdade. Sem sua alma biscate Francisca da Silva de Oliveira não seria Chica da Silva.

Dizem que Jorge Ben, antes de ser Benjor, teria dito que o “Xica dá” tem o significado que a sonoridade lhe confere, do verbo dar… “Xica dá”, dava e sambou tanto na cara da sociedade e tão antes de nós que mesmo que ela não tenha existido é preciso de alguma forma fazê-la uma figura presente em nossas mentes e corações.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulheres Negras 2012.

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* era o personagem central, não quer dizer que conte sua história de fato, lhe faça justiça ou não faça uma leitura preconceituosa ou moralista.

** nem os negros e nem as mulheres curtem o papel de vítima, mas é através do registro da vitimização que se prova a existência do racismo e do machismo, e é por isso que precisamos recorrer a ele mesmo quando preferimos falar apenas da luta ou da resistência.

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7 respostas para Das diferenças entre nós e da Chica

  1. Charô disse:

    Xica dá Xica dá Xica da Silva! Obrigada pelo texto lindo. Só vocês para lembrar dessa bisca que amo e sempre me inspirou. Amo, amo, amo. Autêntica e atual. Mais amor ainda.

  2. Luana disse:

    “Não vou contar toda sua história porque há filme, contos e novela onde era o personagem central, bem mais por sua atitude do que pelo concubinato de quinze anos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica (ou Xica) da Silva, “a negra”, ficou conhecida por sua atitude diante da vida e porque ela dava, e muito. E sabia usar sua sexualidade em benefício próprio. E usou o dinheiro que tinha para forçar ser aceita como branca. E foi aceita, a contragosto…mas foi! E foi feliz também, apesar dos pesares.”
    Lamento profundamente que um blog que se diz feminista paute a história da Chica da Silva pelo filme do Cacá Diegues e pela novela da Manchete, obras que não fizeram outra coisa a não ser alimentar os estereótipos que a sociedade tem em relação à ex-escrava e consequentemente, em relação à nos, mulheres negras. Sugiro que a autora do texto leia o livro da Junia Ferreira Furtado – “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes: o outro lado do mito”. Um trabalho bem feito, honesto, uma pesquisa minuciosa que “mostra que a vida da ex-escrava, nascida no arraial do Tejuco, atual Diamantina, contradiz o mito. A autora distingue a personagem histórica dos estereótipos a que foi reduzida e revela particularidades desconhecidas sobre os costumes da sociedade mineira colonial, o cotidiano das mulheres forras e as relações raciais nas Minas Gerais do auge da mineração..”
    É…minha mãe tem razão: “de boas intenções, o inferno está cheio”.

    • Não lamente. Não sabemos tudo nem sobre feminismo, imagine sobre racismo (sendo as duas gerentes dessa bagaça brancas, como todos sabem). Não temos a pretensão de saber tudo, está dito lá no nosso editorial.
      Dito isso, uma correção: não pautamos a história da Chica pelo filme e pela novela. Mas, podemos retirar esse trecho do post e/ou não linkar o filme e a novela. Quer nos ajudar a reescrever o trecho?
      Não participamos da Blogagem Coletiva por sermos boazinhas, gentis ou por termos boas intenções, mas para fazer o exercício de escrever sobre uma opressão que não sofremos, nos colocarmos no lugar (tentar ao menos) e ampliarmos consciência e visão e darmos nossa cara a tapa (metaforicamente falando, claro). Afinal, é errando que se aprende, máxima tão antiga quando a que usaste.
      Erramos? Critique, claro, mas nos diga o que podemos fazer para corrigir nosso erro. A gente está aqui para ouvir e repensar. Entendemos machismo, racismo e homofobia como estruturais e não nos sentimos a salvo de preconceito algum por sermos feministas. Estamos sujeitas a termos atitudes machistas, racistas e homofóbicas a qualquer momento como qualquer pessoa, embora nos vigiemos para não. Ao sermos alertadas a respeito de um erro, estamos prontas a repensar, reconhecer o erro, pedir desculpas e fazer tudo diferente se for o caso.
      Podes não nos identificar como parceiras de luta (a recíproca não é verdadeira, viu?), mas é certo que não somos inimigas.
      Um beijo, Luana.

  3. Luana disse:

    Talvez, se for do interesse de vocês, ler o livro da Junia Furtado como eu sugeri, seja um caminho.
    Chica Vive! E não é a Chica do Walter Avancini ou a do Cacá Diegues!!!!! Muito menos a mulher que “usou o dinheiro que tinha para forçar ser aceita como branca”.
    Ps: Nunca disse que não as “identificava como paceiras de luta”. A questão é que não consigo concordar com algumas questões. Daí a minha opção em buscar outros espaços…

    • Ler o livro agora para corrigir o post não vai dar. Dica e crítica aceitas, mas teremos de resolver de outra forma. Quando alguém critica de forma agressiva, das duas uma: ou cometemos um pecado capital ou fomos identificadas como inimigas. Só quis dizer que não somos.
      Já pensaste que quando optas por outros espaços e nos deixa sem teus puxões de orelha e discordâncias aí mesmo que a diferença cresce? Nunca soube que não concordavas com as questões do BiscateSC. Aliás, foi a primeira vez que comentaste aqui. Mas, tá… Sem polemizar mais. Tens o direito de só participar onde te sentes bem e onde achas que a luta flui e rende e panz… Se achares que deve, as portas do BiscateSC estão abertas para quem quiser publicar suas letrinhas e reclames. Então, se achares que deve, fique a vontade para usar esse espaço, inclusive para criticar esse ou outro post. Gostamos de debates.
      Sobre o post, já que não podes ajudar, tentaremos fazer da melhor forma possível. Hoje ainda.
      =*

  4. Luana disse:

    Misericórdia! Não quero essa função de ser “puxadora de orelha”, não!!!!kkkkkk. Deus me livre!
    Vida longa às Biscates!
    Abração!

    Luana

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