Sexo aos 40- Liberdade

Estou há poucos dias dos meus 41 anos, demorei uns bons 35, na verdade quase 40, para me descobrir e me sentir mais confortável comigo mesma. E esse confortável defino como: ligar o botãozinho do foda-se para o que estão pensando de mim, desde que eu esteja satisfeita com o que escolhi – o maior número de vezes possíveis (ok, não tenho a escrita tão elegante quanto as demais maravilhosas amigas e companheiras de blog, só sei ser assim, direta, quando falo, e aqui estou falando com quem está a fim de bate-papo tomando uma cervejinha e com vocês, leitoras  e leitores).

Estando assim, confortável comigo, também estou cada vez mais confortável  para fazer sexo, me conheço mais, me toco mais, sinto mais o parceiro. Dou e recebo tanto quanto posso e quero, a entrega é igual, o prazer é dividido, se agrado também sou agradada. Cedemos juntos. Percebo mais, julgo cada vez menos. Aprendo cada vez mais.

Aliás, o que é uma delícia dos 40 anos e ter certeza que a gente não sabe muita coisa da vida, mas já aprendeu mais que aos 20 e, embora não se tenha tantas certezas como aos 20, se esteja aberta a experimentar bem mais de tudo, pois já temos mais certeza da impermanência das coisas. Dos instantes que desaparecem, das oportunidades perdidas, somos ao mesmo tempo menos ansiosos (se der errado a gente sabe que sobrevive) e mais ousados aos 40, ao menos eu sou. Meus peitos caíram, minha bunda também, mas definitivamente sou uma mulher melhor aos 40.

Mas daí que me surgem as pulgas atrás da orelha, os pensamentos que coçam, as coisas que quero entender, consigo entender melhor com a preciosa ajuda da terapia, que adoro, os processos que me levam a ser quem eu sou. Mas como conhecer os processos de quem vê o mundo de forma diferente da minha? Como não julgar essa pessoas pela minha régua? Porque, afinal eu estaria certa e elas erradas, não? Vivemos baseados na dicotomia certo-errado. Como abandonar isso e ver um mundo múltiplo? Onde não há uma moral, mas diversas pessoas e diversos desejos? Não havendo certo e o errado definidos como num filme do George Lucas?

Bom, primeiramente entendo que elas não são eu, óbvio. Porque eu sou uma liberal, libertária e especialmente libertina (desculpa, Alex Castro, mas roubei deliberadamente o nome do seu blog porque me vejo sempre nele). Tendo por meus objetivos ser honesta e clara comigo, incomoda deparar-me com julgamentos sobre o exercício da sexualidade alheia, o cerceamento da sexualidade alheia baseado em moralismos. É bem fácil a gente acabar escorregando por esses moralismos. Eu escorrego. Eu me vigio. Volto atrás, peço desculpas, ou até me calo, embora algumas vezes me irrite e fale. Mas um velho ditado budista me ensinou – é melhor ser feliz que ter razão. Acho que ás vezes nos falta educação emocional pra nos vermos como somos e suportar isso.

Por fim, acho que a única forma gostosa e permitida de dar pitaco na sexualidade alheia é trocar idéias, informações e até, quem sabe, fantasias. O  resto me cheira sempre a cerceamento impróprio de liberdade de ser. Mas, né? Esses são meus achismos, como me sinto confortável vendo o meu mundo.

Sexo não é um fim em sim, nem a única forma de ser feliz e ter prazer, é apenas uma delas. É ótima e deliciosa? É, mas não pode nem deve ser obrigação de ninguém aprender o ABC do Kama Sutra de cabeça pra baixo ou ter orgasmos múltiplos toda vez que transa. Mas seria muito bom que cada mulher se conhecesse, se tocasse. Soubesse mais de si mesma, do que espera de uma relação porque senão pode correr o risco de ficar trocando sexo por amor, e uma coisa não é outra. Pode se ter sexo com amor e sexo, só sexo.

Por fim, o que quero dizer é que  a régua para medir a sexualidade alheia não serve para nada, nem para si mesmo – até o Gilberto Gil disse que a Bahia lhe deu régua e compasso, mas o mundo tirou e ele se sente cada vez mais “sem certezas, sem fórmulas, sem instrumentos já propriamente construídos.” Não há certo e errado. Há se conhecer, saber o que se quer, o que se gosta, ser honest@ e clar@ consigo mesm@. Não é isso uma fórmula de caminho para a felicidade, mas um caminho para uma aquietação interna do turbilhão de carência e auto aceitação em que nos afundamos procurando  aprovação externa que na verdade só pode vir de nós mesm@s, nunca e apenas de uma relação amorosa ou sexual, pois, assim nos tornaremos escravos de alguém, nunca donos de nós mesmos.

Educação sexual e educação sentimental deveriam andar sempre juntas e serem ensinadas nas escolas e lares. Mas ás vezes não sei bem quem é mais necessitado delas- pais sexualmente reprimidos ou filhos ainda descobrindo o mundo.

Sobre Iara Ávila

Feminista. Falo e escrevo em baleiês. Profissão: comentarista de tv. Mato barata voadora.
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3 respostas para Sexo aos 40- Liberdade

  1. Lia disse:

    Querida e maravilhosa biscate Bete Davis,
    Eu tenho 21 anos. Talvez você não acredite, mas eu acho que passo por um pouco disso também. Eu queria fazer o que eu quero sem me importar com nada, me jogar mesmo de cara,
    descobri o feminismo a pouco tempo e queria nadar de braçada nessa liberdade, nesse mundo sem fronteiras que o feminismo me apresentou/apresenta. Mas e se no meio do caminho, acontecer de eu fazer alguma merda (às vezes, você nem faz nada errado e se f***) que vai f**** todo o resto da minha vida? E se no meio do caminho, eu perder a consideração de alguém muito queridx (mas com uma cabeça totalmente diferente da minha)?
    E se no meio do caminho, eu magoar alguém muito forte (pode ser que me magoem muito também)? Eu passei recentemente por uma fase depressiva terrível, onde não via saída ao meu alcance. Parece ter ido embora. E acho que ela só foi embora porque eu prometi a mim mesma liberdade, para sair dos limites da minha cabeça (na época, eu sentia fortes enxaquecas e achava que a minha cabeça estava muito apertada para quem eu estava me tornando rsrsrsrs). Porque desde criança eu tenho medo, de tudo, principalmente das pessoas. E agora que sou uma jovem adulta e consigo ver as minha próprias loucuras, bizarrices e esquisitices e as dos outros (que me assustam demais)², eu fico me protegendo de tudo, me poupando de tudo, quando tudo que eu quero é cair de cabeça mesmo… Não consigo deixar de pensar; “e se eu f**** tudo???”
    Desculpe se meu comentário ficou adolescente demais, mas adorei seu texto! Eu quero ser livre como você =)
    Beijos!!!

  2. bete davis disse:

    ai, Lia, adorei o comentário! detesto quando alguém não comenta! rs. mas essa coisa de ser eu, usar a roupa que eu quiser, no estar na moda, sair quando eu quiser, escolher o que eu quiser- claro que tem limites, tenho filhos e contas a pagar, né? a gente acaba obedecendo uma ou outra convenção social, mas sim, sou muito mais livre do que há 10 anos atrás, aos 30. começa não querendo ser aceita por todo mundo, começa sabendo que algumas pessoas amam a gente- o pacote todo não importa o que, outras não. escolhi ficar com as que levam o pacote todo, idiossincrasias e chatices, crises depressivas e manias, pq tb aguento e curto as de quem amo de verdade. simples assim. simples mesmo. amigo é aquele que topa até ser seu avalista ou diz na cara que não, com todas as letras. é aquela pessoa q vc pode contar pra tudo. dificilmente dá mais que uma mão, no máximo duas. não quer dizer que não curta e goste de outras pessoas, mas para mim essas são as que importam e elas não me julgam, nunca. e eu não as julgo. tamo lá na parte boa e ruim, a gente abraça, dá conselho se pedir, mas não julga, entende a diferença? parei de viver esperando a aprovação e carinho de todos. se tiver alguns, ótimo, se não tiver tb, pq tinha se tornado insuportável o tetro de não ser eu. já basat não poder ser eu, por motivos óbvios, no trabalho, por exemplo, sou eu, mas não exatamente eu( nessas horas escuto ipod ou canto internamente valesca popuzada pra relaxar rs, ou xingo no twitter). to te dando uma fórmula de ser mais zen? meio que to. mais essa é a minha. se algo de não ser vc, se a falta de liberdade te incomoda, ache a sua, mas isso realmente não vem de vez, vamos estabelecendo nossos limites aos poucos e vou ser sincera, as pessoas se assustam com essa nova pessoa que surge, mas vale a pena. bj.

  3. Lia disse:

    Brigada biscate Bete! Brigada por responder assim, com carinho, com um comentário grande e bonito.
    Eu vou aprender a viver ainda. Eu tenho muito medo de errar e eu fico me escondendo.
    Me protegendo do mundo, escondida, me protegendo atrás do meu orgulho, às vezes. Eu não sou lésbica, nem bi, nem trans, mas eu sinto que eu preciso sair do armário, sabe? Nem sei o que significa isso direito. Mas acho que significa fazer mais o que eu quero fazer, ser menos exigente comigo mesma, aceitar que eu tenho limitações e, como você falou no seu belo texto, viver com menos certezas e menos fórmulas. Não estou pensando em jogar tudo para o alto, não rs. É que, como eu tinha escrito no comentário anterior, mudar agora, mudar de paradigma é uma questão de vida para mim nesse momento. Abandonar o jeito adolescente de ver o mundo, sabe? Sei lá, só sei que eu preciso encarar o mundo de outra forma. Eu estive tão depressiva nos últimos tempos e acho que era porque eu estava presa.

    Obrigada, biscate Bete! =)))
    Adorei o texto, adorei o comentário!
    Te desejo muito sexo e liberdade!
    Beijos!

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