Tá combinado!

Eu não sei se é lisonjeiro ou irritante homens que oferecem (e insistem nesse oferecimento) ir te visitar, quase sempre depois das duas da manhã, seja te abordando na festa por sua ousadia no decote, seja por que em redes sociais você escreve palavrão e poesias eróticas. Mentira, eu sei sim, é extremamente irritante. Ainda mais, porque hipoteticamente, esses caras são meus amigos. Deviam saber que quando trata-se de sexo, não é não.

Outra coisa, se você é meu amigo, custa chamar para tomar uma cerveja antes? Ou para assistirmos um filme? Você deve gostar da minha companhia sendo meu amigo, não é? Ou ao menos respeita o fato de que existem relações que ainda estão se estabelecendo e a amizade não faz parte dos termos que utilizaríamos para nos referir a alguém que só queremos para ser nosso parceiro numa casual e única relação sexual?

Amigo meu se quer vir na minha casa para transar comigo, sabe que as conversas não vão se esgotar com o sexo, a camaradagem já está estabelecida, e principalmente, o convite foi feito na forma de “minhas portas estão abertas para você”. Essa ligação normalmente vai me alegrar por que ela não envolve apenas, ainda que seja somente para sexo. E não seremos menos ou mais amigos por causa disso.

Claro que esse texto é uma provocação mesmo. Dessas coisas que viram outras, ou daquela que deixa de existir, ou de uma nova que surge lá adiante. E foi escrito por que dia desses neguei tornar-me amiga de alguém com quem tinha transado. Porque tenho repensado meus conceitos nas relações amorosas em geral. Amorosas no sentido de incluir um outro, aquele que desejamos que nos deseje. Sem tornar títulos em estigmas ou dogmas. Sem esquecer quem você é.

Viver assim, é claro, é escuro, tão mais cheio de sutilezas, olhares, palavras, atitudes, linguagem corporal, e em outros casos de suores, tremores, ardores. É educação diária que inclui por vezes impor silêncio à sua mente e escutar seu corpo. Ou vice-versa. É troca, nem sempre equilibrada, nem sempre justa, no sentido da justiça que agrada a todas que cabem dentro de nós, múltiplas e desdobráveis que somos, mais uma troca mesmo assim. Entre você e você mesmo, entre você e a outra, ou outras pessoas que estão nesse lance. Talvez por isso chamem de jogo. Jogo de sedução. Jogo este, em que preferi permanecer amadora. Aprendendo.

E claro que amo meus amigos, quero que nossos caminhos sejam de outros amores, muitos, dos mais variados, diversos, aconchegantes, com boas lembranças. Isso inclui também impor-me limites, inclusive nos meus ciúmes, atitudes intempestivas e demais monstrinhos, baseada unicamente no que não desejaria para mim. Inclui respeito e atenção, mesmo que a gente enfie os pés pelas mãos alguma vezes.

Talvez por isso tenha negado ser amiga desse homem especificamente, por que senti que tal título, lindo e tão importante, estava sendo usado para restringir o meu desejo, não o dele. A amizade era um “não se envolva, mulher” dirigido unicamente a mim, com várias exclamações depois do mulher, e que me colocava como mais propensa cromossomicamente a tal ocorrência. Era também um esgotar de possibilidades, um construir de muros que sempre acaba me cansando quando se trata das relações entre as pessoas. Gente. Humanos com o pacote todo que o termo implica. Com sentimentos bons e ruins, terrores e belezas. Entendi isso quando ele disse que queria que continuássemos amigos “porque eu poderia sentir ciúmes” se hipoteticamente o visse com outra pessoa. E que achava que a relação seria mais duradoura se baseada na amizade. O que a gente mais teme no outro normalmente fala muito de nós, pensei. E senti medo. Por ele e por mim.

Então é simples assim? Amigos não sentem ciúmes, certo?  Amigos são cuidadoso uns com os outros, não são? Não causariam ciúmes um ao outro por querer, causariam? Mulheres se apaixonam quando fazem sexo e homens não? Homens dividem bem as coisas e mulheres complicam tudo? Ah, somos biscates e portanto nossos amantes, aqueles que amam e que são por nós amados, são sempre passageiros e muitos? Biscate quer dizer o que mesmo?

E sim, aconteceu o que esse cara me disse que aconteceria, ele ficou com outras pessoas na minha frente e eu senti ciúmes. Foi então que decretei: seremos amigos no dia que eu me sentir confortável para também fazer o mesmo, ok? Não é isso que amigos fazem? Não é assim que as relações se tornam “duradouras”? Com gente que fala a verdade, deixando às clara as regras do jogo?

Não me interessam mais adversários, e sim, companheiros numa diversão que chamo vida, por isso talvez faça questão de escutar meu corpo, porque sei da sabedoria que a pele carrega e nesse caso, entendo quando a minha arrepia quando recebo uma ligação dessa pessoa e não daquela às quatro da manhã. Abro portas, espanto sono, acendo velas, me preparo para o prazer. Não só para o prazer sexual, mas o prazer que considera também a educação, bom papo, companheirismo, risadas, respeito e sim, também a amizade como fatores importantes para que ninguém saia com a sensação de que perdeu mais do que tinha antes dessa confusão toda que é desejar uma ou mais pessoas.  Amor-próprio e alegria, inclusive.

Mas essa sou eu, veja só. Eu no meio de tantas. E ele, ou eles, no meio de tantos. E mesmo assim, só por enquanto. Podemos mudar de ideia daqui a pouco. Assustador? Também acho, podes crer. Mas a vida é assim mesmo e até amizades podem ser passageiras, quem não sabe disso? Ou você acredita mesmo em amor eterno, esse clichê brega?

Então vai um em que eu passei a acreditar: só podemos ser fiéis à nos mesmos. E compartilhar o máximo de intimidade que duas pessoas podem compartilhar, seja por uma hora, uma noite, ou pelo tempo que tiver que ser, exige muita, muita fidelidade a si mesmo.

Pelo menos até nos presentearmos silenciosamente com todas essas coisas sem nome que se misturam e são uma coisa só. Ou até quando eu sentir o mesmo com aquele tal outro cara que me ligou depois das duas da manhã. Ou com outro qualquer. Porque sou livre, assim como você. E nunca foi a liberdade de escolher o que esteve em jogo, lembre-se, sou uma amadora. Não jogo apostando tão alto assim.

Agora me responda você: amor só dura em liberdade ou é um estar-se preso por vontade?

Nunca fomos amigos, mas sempre o seremos. E não há nenhuma contradição nisso, meu amor.

Sobre Raquel Stanick

Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso) escreve desde não se lembra bem e quando.
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16 respostas para Tá combinado!

  1. 1. Gostei imenso do texto. Porque será que nego complica tanto… e é lindo você dizer assim, de cara: hoje pra mim não dá. Mas quem sabe um dia.
    2. Lembrei de um caso extremo, em que o sujeito nem era meu amigo: era conhecido, a gente tava na mesma festa e ele passou a festa sentado numa cadeira, cochilando. Aí me deu carona na saída. E quando chegou na porta da minha casa, assim, sem preâmbulo nenhum – nem mesmo um olhar, nem mesmo um sorriso -, perguntou “e se eu subisse?” . Eu caí na gargalhada, e como sou educada disse que não dava, que meu filho pequeno estava dormindo em casa. Fala sério. Onde é que se dá aula de cortejar mesmo preu indicar pro sujeito? (se é que ainda dá tempo…) .

  2. Raquel Stanick disse:

    pois é, um dia me disseram disse que ternura é das coisas mais perigosas do mundo. todo mundo foge, uma pena. É tão mais legal. beijocas.

  3. Desde que li o texto fiquei cantarolando a música, que prefiro com a Bethânia. E ainda fiquei com outra música que está volta e meia na minha cachola… “a porta vai estar sempre aberta, amor”… Músicas a parte, não consigo entender o porquê da complicação. Juro! Porque é sexo casual não pode conversar, ser gentil, seduzir, ter “trabalho”? Precisa ser como se fosse uma protistuta de graça? Tchê, se quer assim (e não vou dizer que nunca curti uma vibe não-te-conheço-não-quero-saber-teu-nome-mas-teu-pau-me-interessa), a seco, só chegar e meter, que pague. Né, não?
    Beijo, Raquel!

    • Raquel Stanick disse:

      Sabe, Ni, dia desses ministrei uma oficina sobre (des)construir imagens da Marcha das Vadias. Talvez esse seja mesmo o esteriótipo que eu tenha que desconstruir ou (re)construir. Nesse texto falo de dois caras distintos, um pq quem eu me apaixonei e outro pelo qual não tenho o menor interesse (por enquanto). Quem foi mais claro, né? E que “valores” eles utilizaram? sei lá, sei lá…

      • Raquel Stanick disse:

        se bem que em termos de licença poética tornar duas personagens numa só é um recurso extremamente útil. rsrssrrsr

  4. De vez em quando me bate uma certa vergonha de nós homens sermos assim tão tapados…
    Curti o texto, acompanharei o blog sempre que puder.

    Abraço!

    • Raquel Stanick disse:

      Não acham que sejam os homens, Marcos. Acho que somos todXs nós que tentamos nos proteger como pudemos do afeto, esse bicho medonho. beijo e sinta-se à vontade em nossa casa.

  5. Bom mesmo é cortejar, deixar claro que só pra fortalecer a amizade e não dar em nada… #SóQueNão

  6. lislemos disse:

    Raquel, me identifiquei tanto com seu texto. Tb neguei amizade de um cara que “queria ser meu amigon pra não me magoar”. Vou imprimir e botar debaixo da porta dele!
    E assim como a Niara tb prefiro a música coma Bethânia!

    • Raquel Stanick disse:

      que bom que vc se identificou, Lis. espero q o tal “amigo” tome tento, como dizemos aqui no Nordeste😉

  7. Adriana Jota disse:

    Lindooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo e sem palavras…………………

  8. bete davis disse:

    quem nunca passou por isso? me parece machismo, um pseudo -liberalismo e se achar a última coca-cola do deserto. nesse jogo de comandante e comandada não sei jogra. sei jogar algo que se troca, e não uma constante batalha, onde um ganha e outro perde.

  9. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

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