Do Desejo

De pé, defronta-se com o espelho como se este fosse um enigma. Os olhos vasculham a extensão deste território outrora desconhecido: seu corpo. Procura marcas, sinais. Seu corpo, ela reconhece, é um território em convulsão. É-lhe estranho que nada se note, ainda ontem era, assim, uma pessoa, dentro e fora. Complexa e unicamente: ela. E, agora, embora não se encontre signo desta devastação sentimental, é uma pessoa ainda, mas, em reconhecido prazer, ela sabe, já é uma mulher. Dentro, já sente o veneno do gozar agindo no sangue. Virão mudanças no andar, no sorriso, o corpo todo se fazendo desfrutável, ela antecipa, em tremores, o deleite de não poder esconder: conhece o prazer. Mas, agora, madrugada partindo, nada há que indique o gozo morno que ela prende entre as coxas.

Vasculha na imagem tranquila um indício qualquer do desvario a que sucumbiu. Talvez os olhos estejam mais velados. Talvez. Talvez seja apenas a pouca claridade da manhã que não chegou inteira. O corpo é o mesmo, como são os mesmos seus sinais no mundo, mesmo cheiro, mesmo sorriso, o mesmo corpo no mundo. E, mesma, ela já se conhece outra. Alguém que teve o mundo entre as pernas.

Ela nunca soube que podia ser assim, como o mar e seus segredos, tempestade e calmaria. Fartura e beleza. Ainda ontem ela dançava com um corpo que por tantos anos fora seu. Carregava-o para lá e para cá sem compreender direito seus poderes. O corpo pode. Ele sente. Ele vibra. O corpo agora, já sabe, reconhece, é preciso saber fazer tudo isto com o corpo: senti-lo vibrar. Era noite e a mulher não sabia que perderia o corpo. Ou melhor, era noite e a mulher não sabia que se perderia no corpo. Também o homem não sabia, mas seus corpos sabiam e atraíram mulher e homem e eles se souberam. Se souberam em mãos e saliva, tato e paladar, sentindo o agridoce da vida. Sentir o gosto. Sentir o cheiro. Sentir o som, alto e baixo, um mundo se faz num discurso que é um gemido.

Há luz no quarto porque o olho do outro é a delícia de conhecer-se na revelação do desfalecer alheio. O que os corpos sabiam, fizeram, ainda que mulher e homem se constrangessem um pouco. O que os corpos queriam, faltou, posto que queriam começar sempre e não parar nunca de se fazer gozo. Mas a mulher e o homem souberam que o que faltou aos corpos tem nome e a este hiato de insatisfação chamaram amor e se chamaram por toda a noite falando de toda a vida.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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