Cabras e suas Ambições

Você deve estar se perguntando: Por que as cabras, de repente, passaram a povoar as redes sociais? Que brincadeira é essa? Qual o porquê desse novo meme? Pois é, as cabritinhas que passaram a habitar suas redes de relacionamento são uma reação de sensatez, uma nova metáfora nas reivindicações de direitos de igualdade.

De onde surgiu essa reação? Bem, você leu a Veja dessa semana? Não leia, não vale a pena… Pois então, foi nessa revista, em um artigo sobre a questão da homossexualidade no Brasil em que uma comparação descarada entre o casamento igualitário e o casamento entre um homem e uma cabra foi feita, como forma de desclassificar o primeiro. É… leia por si próprio na imagem abaixo…

O problema não está na alusão ao sexo com animais… isso pouco importa… O problema está na comparação, na relação de direitos que isso significa. Reduzir a condição do casamento igualitário à vedação do casamento entre seres humanos e outros animais é igualar em direitos humanos e animais. Sim, animais têm direitos, mas não há sequer um pingo de possibilidade de se dimensionar os direitos dos animais aos Direitos Humanos, principalmente os relacionados à Liberdade e à Igualdade.

A questão não está na comparação esdrúxula, aliás, essa foi a primeira coisa a ser tomada como piada. O problema está no fato de tal comparação banalizar, em um texto repleto de preconceitos, uma causa que está em voga atualmente e que precisa de amplo suporte. A artimanha? Buscar nas origens do patriarcado e de um Estado de bases religiosas, porém laico, uma forma de justificar as opiniões pela vedação de direitos. O raciocínio é simples: o casamento, com base nas tradições (e a Constituição é um poço de normatização de tradições) é uma instituição destinada a criar uma família e só quem pode fazer isso de forma natural são um homem e uma mulher (Adão e Eva, lembra?); logo, homem com homem, mulher com mulher, gente com bicho, não pode.

O problema está justo aí, utilizar a estratégia de reafirmar um conceito formado através de uma tradição religiosa para impedir uma relação laica. Exato, o casamento previsto legalmente em nosso “Estado Laico”, é de origem religiosa. Para reafirmar esse estado como laico, é necessário que suas instituições também sejam laicas, assim temos que chegar à Família! Deixando de lado as cabras que não têm essa ambição – aliás, se alguma te procurar demonstrando interesse e você se afeiçoar à bichinha, vá fundo! Havendo consentimento, não há impeditivo – a busca pelo direito ao Casamento Igualitário é uma luta pelo reconhecimento de direitos, Direitos Humanos conquistados historicamente, mas plenamente desrespeitados institucionalmente e socialmente.

Aliás, a palavra Direito tem muito a dizer sobre isso tudo. Direito refere-se a conquista e, mais, à possibilidade de livre manifestação de vontade. Ou seja, que case quem quiser,  pode ser homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, etc. Se não tiver vontade não se case. A beleza do reconhecimento e um direito é a afirmação dessa liberdade em relação a ele, poder exercê-lo!

Entenda, ninguém está pedido que, de uma hora para outra, todo mundo passe a corroborar com a homossexualidade, pois preconceitos cada um guarda onde bem entender. O que se pede, é que o de cada preconceito um não impeça os demais de alcançar e garantir direitos. O que o texto da má-afamada revista faz, com a comparação ridícula com as pobres cabras – e poderia ser com qualquer outro animal, ninguém aqui é contra cabras – é reafirmar esse preconceito religioso, em um estado laico e, com isso, reduzir direitos e descaracterizar um debate que ganha força.

Mas onde está o preconceito se a liberdade religiosa deve ser preservada como direito humano? Bem, pra ficar simples de entender: a garantia do direito de liberdade religiosa SÓ existe em um Estado Laico. É justamente pelo fato de o estado estar se lixando para as crenças alheias e buscando garantir a liberdade e a igualdade de todos, que cada qual pode seguir a crença que quiser. Assim, como cada um crê no que quer, nenhuma crença pode, igualmente, ditar padrões de conduta e organização social sobre questão alguma, principalmente sobre a forma de constituição das famílias. Essa é a finalidade da interdependência dos direitos humanos: a medida de um deles vai até o ponto em que não interfere no outro.

Portanto, nesse e em outros aspectos, quando tentar exercer seu direito humano de expressão é de bom tom procurar compreender se ele contém um discurso de redução dos direitos alheios. Isso é muito comum na história contra negros, judeus, mulheres, homossexuais, populações nativas e se repete ainda hoje e, pior, se replica. E é por aí, da próxima vez que for comparar cabras com seres humanos, lembre-se que cabras não têm muitas ambições, seres humanos têm e muitas delas são legítimas e vêm sendo constantemente impedidas por uma sociedade que se acha no dever de impor uma moral que não é universal. É essa vontade de ser dominante que mantém as coisas da forma que estão…

Sobre mozzein

Augusto Mozine aka @Mozzein é desses. Desses que chega conquistando espaço. Diz-se por aí que ele não gosta de rótulos, mas nós por aqui dizemos que é cientista social e surrealista. Se você passar quietinho e com atenção, vai ouvi-lo conversando com estátuas enquanto escreve nonsense pra quem quiser… Se espalha entre O Blog que Habito, Pode isso, Nelson? e Hipérbole Política (um segredinho: é um inveterado apaixonado, sofre e aproveita o melhor e o pior que as pessoas estão dispostas a oferecer…).
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7 respostas para Cabras e suas Ambições

  1. Roney Torres disse:

    sensacional!

  2. Entra as várias aberrações encontradas no texto [sic] da tal revista, um não apontado diretamente pelo escriba biscate é o de conceito de família. A primeira coisa que me veio em mente, ao ler esse recorte, foi a relatividade tamanha que o próprio conceito guarda em si.
    Nem entrarei no mérito da família formada por José e Maria que, pasmém, não gerou um filho legítimo (“não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco”, diz a pessoa que vomitou as linhas da revista), já que segundo a tradição católica José não é o pai biológico [imagine um negrito nesta palavra] de Jesus. Em pesquisas históricas, com apoio de disciplinas como a antropologia, pesquisadores do tema “família” (como Sheila de Castro Faria, Silvia Brügger, Renato Venâncio, entre outros) tem demonstrado que muitos núcleos familiares (portanto, famílias) mesmo em períodos mais remotos na história do Brasil (e duvido que sirva apenas para os casos estudados e a região abordada) a variedade era bastante considerada no que se refere à família ser uma “coisa” muito mais complexa do que pai-mãe-filhos-prociados, observando esses estudiosos uma gama bastante variada com agregados de todo tipo e muitas vezes sem mesmo a existência de filhos naturais (gerados fora do casamento) ou legítimos (gerados após o casamento), com bastante incidência de pessoas adotadas por razões diversas (roda de expostos, apadrinhamento, misericórdia, empatia, sensos de humanidade variados). Muitas vezes pessoas “solteiras” agregavam em torno de si pessoas de variadas origens sociais para formar o núcleo coeso que se pode chamar de “família”.
    Se se constata tais “aberrações” (sim, o autor da veja chamaria isso no mínimo de aberração) para os séculos XVII, XVIII e XIX, não há qualquer dificuldade de se perceber que muitos núcleos familiares são formados, em qualquer época, por pessoas não consanguineas e com “chefes de família” com todo tipo de orientação sexual (ou mesmo celibatários), nascidos de qualquer sexo.
    Enfim, eu só queria dizer que o que se vê nas páginas de Veja realmente não se pode levar a sério.

    • mozzein disse:

      Como a Niara disse, sua colocação é perfeita pra demonstrar o debate. Não aprofundei a discussão sobre família justo para não falar besteira, pois como você demonstra, é um debate profundo e de muitas nuanças… Dava outro post! (Aliás, fica o convite!)… E outra, realmente não li o artigo completo, vi que várias pessoas se deram ao trabalho de rebater ponto a ponto… Eu não tive muito estômago…🙂

  3. Eu, como gaúcha, até consigo entender a “relação” com a cabra. O que não entendi até agora foi o espinafre. o.O
    Amei o texto Augusto e o comentário do Hellllbo fecha com chave de ouro.
    Beijo, seus lindos!

  4. O texto do sujeito, que agora sei que é de um tal J R Guzzo (que pra mim deve ser um pseudônimo de quatro mãos), não se sustenta desde a primeira linha. Até aquele menino do famoso video que foi viral, que entendeu perfeitamente a relação de amor entre dois homens, destruiria o autor de Veja em dois segundos.

  5. A tempo: Beijão procê, Niara. Diliça!

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