Ele Só Quer Te Comer

“Eu só quero que você me queira…”

Ele só quer te comer, escuto tantas vezes e ainda me espanta. Que digam, não que os eles queiram. Ou, na sua variação mais suave: ele só quer teu corpo, dizem por aí, como se fosse demérito. Mas a recíproca é verdadeira: só quero seu corpo. Quero acariciar a cicatriz na testa de quando você caiu da bicicleta fazendo manobras pra impressionar a paquera do fim da rua. Quero deitar a cabeça na curva da barriga de tantas cervejas com amigos em botecos. Quero, na minha boca, a tua língua que fala, arisca, nos debates no trabalho. Quero, passeando em meus seios, a mão forte que pinta paredes e a mesma, manchada aqui e ali do óleo quente na cozinha, quando você cozinha pra mim. Quero a outra, que segura os discos de vinil com tanto cuidado, rude, tirando a roupa entre nós. Quero beijar as rugas perto do olho, riscadas na pele por aqueles sorrisos tímidos e também aquelas, grandes, do lado da boca, da risada inesperada. Quero acariciar o cabelo pintado de branco das preocupações com a irmã, dos cuidados com a mãe, das saudades do pai e puxar aqueles fios grossos e prateados que estão ali sem motivo outro a não ser o tic-tac do relógio. Quero as pernas entre as minhas, essas pernas ainda rijas de andar de bicicleta ou fazer caminhadas para as quais você sempre convida e eu nunca vou. Quero arranhar a linha das costas, moldadas pelas horas curvado, lendo. Quero mordiscar as orelhas que escutam jazz, roçar meu queixo na preguiça matinal da sua barba por fazer, lamber a já não tão elástica pele do pescoço. Quero encostar no teu peito e escutar os vazios deixados pelos amores do passado. Quero aproveitar e puxar, devagarzinho, os pelos dali, até seu gemido tornar-se desejo. Quero palmilhar descobrindo curvas que não estavam, arestas, sinais e alertas. Quero teu corpo querendo meu corpo. Eles tem história pra contar.

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Uma vez ou tantas, faz mesmo diferença se o riso é fácil, o prazer é grande, o sangue se inquieta e a pele fica sensível? Uma vez ou tantas, o que é só agora também é eterno. Uma vez ou tantas, o pra sempre, sempre acaba. Tantas que se tornam uma só, no que diferem de uma vez que pode ser recordada outras tantas? Porque é preciso um final feliz se não sabemos o quando do fim?

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O que há de errado em se querer o corpo de outrem? Em olhar alguém na rua e pensar: ai, a minha mão nessa bunda ou essa boca nos meus peitos? Ah, mas é objetificar a pessoa. Bom, não precisa ser. A não ser que você tome a ferro e fogo a separação dualista alma X corpo, de resto onde está o espírito, está a carne e vice-versa. O corpo é o que a gente faz dele, assim como o que pensamos e sentimos depende, em muitos aspectos, das características e limites do nosso corpo. Aquela bunda do moço que passa e eu penso em apalpar é carne, mas é também as horas que ele passa na academia ou andando de bicicleta ou escalando montanhas ou subindo e descendo a rua como boy, sei lá eu. Mas o que quer que seja, é mais do que a carne, é o hobby ou o trabalho dele, coisas que fazem dele quem ele é, e, ao mesmo tempo, são opções que ele fez por ele ser quem é. O corpo é essa encruzilhada bonita de trilhar e mesmo que eu não deseje saber do seu trabalho ou andar em serras com ele, só queira mesmo apalpar a bundinha, ainda assim ela, a bunda,  não deixa de ser ele e sua história.

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Quem sabia bem de bunda era o Drummond. Ou as suas letras sabiam:

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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25 respostas para Ele Só Quer Te Comer

  1. mayroses disse:

    Essa Luciana é muito danada de boa. Poutz, amiga, tu escreve de uma forma que mexe lá no fundo da gente. Amo seus textos. Beijos e agradecimentos por ter feito meu dia mais feliz😉

  2. Dandi disse:

    “O corpo é essa encruzilhada bonita de trilhar”, perfeito! porque é tão difícil de entender? querem alcançar algo e não o prazer da caminhada, do processo. essa romantizaçãoda dos relacionamentos já obriga pensar em vida a dois, casa com cerquinha branca, um casal de filhos e um cachorro. gente, mas e quanto ao sexo? e quanto a pegar de jeito, morder o pescoço e ir descendo pra um mergulho nas carícias?

    Drummond sabia das coisas, pois a bunda, “está sempre sorrindo, nunca é trágica”, e está sempre pronta ao que interessa.

  3. Juliana disse:

    Viajei e babei em cada palavra, arrasa menina!

  4. Hahaha. E como.🙂
    Beijos.

  5. Delícia de texto sobre a densidade do corpo e do sexo.

  6. Aproveitando que agora você está em Portugal – você conhece/gosta da Inês Pedrosa? Meu conto preferido de “Fica comigo esta noite” é justo o primeiro, que se chama “Só Sexo” e, claro, tem tudo a ver com esse prodigioso ser que Só Quer Te Comer. O conto fala de uma mulher que está à beira da morte, e tudo o que ela mais deseja nesse momento é um último encontro com seu amante que, a vida inteira, só quis comê-la. Olha que primor as duas últimas frases: “Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.” Achei que você iria gostar, se é que já não conhece e adora :*

  7. mozzein disse:

    “Quero arranhar a linha das costas, moldadas pelas horas curvado, lendo. Quero mordiscar as orelhas que escutam jazz, roçar meu queixo na preguiça matinal da sua barba por fazer, lamber a já não tão elástica pele do pescoço”. Um voluntário o/

    E que ode à bunda!

  8. Que lindo!! Como disse a amiga de cima, mexe na gente.
    Quantas vezes já ouvi que é só isso que ele quer, mas quem disse que não quero o mesmo?

  9. alexandre moreira disse:

    expiação moral…o ser justificador de si próprio…não deixa de ser uma forma terapêutica de encarar uma neurose existencial…mente carne corpo alma …no final a auto sugestão em busca da receita unificadora, cósmica de uma continuidade idealizada dentro da realidade partida com chegada indeterminada…desde a hipótese do big bunda🙂

  10. luciana, morri de ri lendo o texto. muito sensacional! a gente precisa mesmo deixar de ser besta e assumir que pode sim desejar o corpo do outro.

    sou sua fã🙂

    beijobeijo

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