Clara e Beto

Eles cresceram juntos, misturados com tantas outras crianças de pé no chão. Não eram namorados. Nunca foram. E a vida seguiria adiante para lhes dizer que nunca seriam. Não eram assim tão próximos. Eram meninos. Brincavam na rua imensa, a rua-mundo, desbravando a infância que correu como um sonho até chegar na adolescência e espinhos de gente grande.

Todos estavam lá. Pais, mães, irmãos, amigos, primos, cachorros e gatos. A rua era encantada, brilhante de brincadeiras e descobertas. Os fins de semana duravam meses. Horas que se proliferavam com a imaginação de criança.

Quando as férias apareciam era tempo longo, tempo de vivência desmedida de meninices. O ar enchia-se de pequenos sorrisos e gritarias a perturbar o sono dos adultos. Bolas nas vidraças, bicicletas, rua desenhada com giz. Tacos, pulos, machucados de feridas abertas a pingar sangue feliz, um ou outro braço quebrado. Histórias de terror, passeios na praia, aventuras no escuro de não saber o que vem pela frente. Olhos bem abertos, corpos despertos, tempo de infância viva e de coração cheio.

As histórias conjuntas podiam durar anos. Até hoje quando Clara fecha os olhos pode lembrar de algumas delas. A invenção das cadeiras, queimada livre, a casa abandonada que habitavam correndo pelo quintal. Banhos de piscina de plástico onde cabiam incontáveis pernas, espremidas em êxtase pela dança das águas. Todo aquele mundo.

Inventavam suas pequenas realidades. E eles cresciam. Meninos e meninas incapazes de parar o tempo. Incapazes de conter o desenvolvimento de seus corpos desajeitados. Pêlos cresciam onde antes era pele lisa e mudavam, incontidos, as suas feições. É, a natureza humana é implacável.

Os seios despontavam em botões, que agora precisavam ser vestidos. Escondidos em roupas novas. A voz engrossava. Espinhas apareciam, para o desconsolo das meninas. Os cabelos arrepiavam e as barbas cresciam, para o espanto dos meninos. Elas começavam a ganhar vaidade, eles começavam a ganhar vaidade. Mostravam-se um ao outro com suas novas vestimentas de ser. Ser que não sabiam que eram.

Elas começavam a sangrar – o sangue que vinha de dentro. Cada qual na sua hora, experimentavam o pingar vermelho escarlate. A força feminina capaz de gerar vida. Clara lembra-se da primeira vez que sangrou. Foi logo cedo, ao despertar. Ficou assustada. A mãe chorou. Ela chorou. Sim, elas eram incapazes de parar o tempo.

Foi então que Clara se viu estranha, com sensações engraçadas a percorrerem-lhe o corpo. Envergonhou-se quando as suas notícias de menina-moça ganharam notoriedade na família. Ela tinha um certo medo bom. Medo da força mulher que ela sentia invadir-lhe os poros, incontida, entre sustos e delícias. Medo do que tocava e não entendia. Das incertezas que deixavam o velho mundo para trás, e abriam um universo desconhecido.

Os meninos e meninas continuavam a correr pela rua. O vento embalava seus treze anos. Alguns mais velhos, outros mais novos. Todos na casa dos treze. Passaram a conversar de coisas diferentes. Outra imaginação aflorava. Ganhavam gosto pela noite, pelas bandas de rock, pelos cigarros e fumaças, por tocarem-se de formas antes impensáveis. As brigas de meninos e meninas e os jogos de queimada convertiam-se em bailinhos atropelados por vassouras.

A nova brincadeira era boa. Corriam para o quintal da casa abandonada, para brincarem de ser gente grande. Riam, beijavam, inventavam namoros de um dia. Sentiam um formigamento estranho pelo corpo, uma quentura desavisada. Um arrepio bom pelo cheiro do outro. Uma coceira pela língua, pelo peito, um ardor, uma vontade de sentir o desejo novo.  Intuíam o corpo mutante, as novas sensações. E tudo era natural como brincar de bola.

Eis que um dia, em uma dessas naturalidades, Beto e Clara tocaram-se, no escondido do quintal. Ele se deitou sobre Clara, que ria como menina. A brincadeira tinha gosto doce. Vestidos como crianças, brincaram de línguas e mãos que exploravam novidades. O movimento era fluxo, era bom, era forte de apagar as luzes e não ver mais nada ao redor. Clara sentia que algo se avolumava por entre as suas pernas, ela sentia algo novo penetrar-lhe os horizontes, algo forte e natural como crescer e respirar o ar que infla o peito.

Foi quando um olho grande de adulto percebeu a brincadeira. Um olho atento de repressões e controles que eles não entendiam. O olho logo se espalhou pela rua, e chegou aos ouvidos de pais e mães. Um quase escândalo assustado. Clara correu para casa, onde foi sacudida pela realidade dos moralismos de gente grande.  Pelo que ela não sabia que não podia. Recebeu o castigo devido, entre gritos e perplexidades descabidas para a sua cabeça de menina. Ouviu coisas que faziam ruídos ensurdecedores. Ela quis se trancar no quarto e não sair nunca mais. O mundo era bruto, e ela não conseguia entender o que tinha feito assim, de tão errado. Era errado?

Beto não sofreu os mesmos alardes. Ele seguiu. Clara não entendia porque com ele era diferente. Ninguém parecia se importar com as suas experimentações de menino. E ela não entendia – e até hoje não entende – porque ela menina e ele menino não podiam tocar os mesmos limites do corpo.

E assim as repressões foram causando-lhe efeitos em ecos que retumbavam por dentro. Clara estava exposta. Sentia-se envergonhada por algo que não sabia o que era. Algo que lhe foi dito como indevido. Indevido? Pensou. Por quê? Não sabiam explicar-lhe. Apenas gritavam-lhe aos ouvidos os limites do não. Um não que nunca lhe fez sentido.

Essa negativa ininteligível lhe percorreu a alma. Passaram-se anos e mais anos, até encontrar-se mulher adulta permeada pela mesma indagação – que hoje sabia que não valia a pena procurar a resposta. Sempre haveria um não, ela aprendeu. A sociedade tinha voz, mesmo que oculta, a mesma voz da mãe gritando para a menina controlar-se e enquadrar-se aos limites do permitido.

Mudaram os contextos, e ela era mulher dona de si. Experimentava muitas coisas com seu corpo florido. Ela se permitiu ir além, desafiar o não que sempre aparecia com novas roupagens. Hoje na casa perto dos quarenta, sorria por se sentir-se livre para viver sua sexualidade como intuía. Para viver a liberdade do sexo-mundo. Para mergulhar e nadar de braçadas no universo das sensações e das trocas que lhe davam prazer. Para brincar de fazer sexo sem nome nem padrão nem nada. Para rir dos que ficavam na margem olhando e julgando a vida que nunca tinham coragem de experimentar. A vida livre da sexualidade.

É, hoje Clara ri, gostoso, porque o riso que brota da liberdade é um riso de alma. E o não que tanto lhe causou medo hoje se transformou no seu avesso: ela o olha com pena de quem o diz. Porque o que importa, mesmo, e sempre, é brincar de ser feliz. E felicidade não combina com repressão sexual.

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
Esse post foi publicado em biscatagi, desejos de biscate, uma biscate quer. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Clara e Beto

  1. Lia disse:

    Você já escreveu um livro?
    Eu quero comprar… =]

  2. silvia maria badim disse:

    Que lindo isso,mas não me lembro dessa passagem de repressão.Onde eu estava??Nem soube disso, mas enfim é muito lindo o texto.Gozado falando asssim parece tão frio,e não é o que eu quero passar…mas de qualquer maneira eu,sua mãe,tenho muito orgulho de voce, minha primeira.Te amo,filho, apesar de vc se sentir com quase 40 e ainda me fazer marcriações.Bj.

  3. silvia maria badim disse:

    eu quiz dizer filha

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