Ler é mergulhar: impressões e sensações de uma leitora biscate

Quem hoje fuma tuíter amanhã estará bebendo aforismo,

cheirando axioma, injetando haikai e escrevendo poesia

Michel Melamed (no tuíter)

Post sendo reescrito: perdi toda a primeira versão. Artes de Netuno… dizia que, num dia habitual, vejo o que ando repassando no tuinto – tuíte de Paulo Coelho. Texto do Delfim sobre juros. Outro, do Plinio de Arruda Sampaio Jr, sobre os rumos do PT no governo. Um lindão, do Fernando Fernandes sobre Iemanjá, “a mãe de todos os peixinhos”.

Peixinhos. Quem te ensinou a nadar? Não sei. Sempre nadei. E como sempre nadei, sempre li. Leio desde que me entendo por gente, e ler é como me jogar na água. Imersão. Esquecimento. Fuga. Envolvimento completo. Encantamento. Tudo junto e misturado.

Leio tudo e qualquer coisa: sou uma leitora biscate, e só assim entendo a leitura. Shakespeare, Simenon, Sartre, fotonovelas, Sabrina, Bianca, Paulo Coelho, Paulo Rónai. Milton Hatoun, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Agatha Christie. Goscinny. Mark Twain, Monteiro Lobato, Lygia Bojunga. Viriato Correa. Érico Verissimo, Camus. Ian Rankin, Maurice Leblanc. Guimarães Rosa, Manuel Bandeira. Gilberto Freyre. Bruna Lombardi. Rubem Fonseca.

(a lista acima é de cabeça, e de todos esses autores pelo menos um livro li. Muitos outros poderia, mas é só uma amostra pra dar idéia.”Sabrina” e “Bianca” são categorias, claro. Bem como fotonovelas).

Não dá pra vir de frescuras, acho. Ler é mergulhar. E mergulhar é entrega. Da qual  a gente nunca sai igual: a água renova, lava, transforma. Mágica água. Mágicas letras, livros. Eu sempre li assim. E aí tinha as casas que eu frequentava, o que por lá havia. Na casa de tia Zélia: clássicos e “Tesouro da Juventude”. Na casa de tia Goia e tio Edgar: engajados – “Lamarca”, o Sirkis dos “Carbonários”, Gabeira do “O que é isso, companheiro?”. Francisco Julião – “Até quarta, Isabela”. Na casa das tias Sônia e Pilar: um pouco como na minha. Um pouco de tudo e de tudo um pouco. E eu mergulhando. Prendendo a respiração e abrindo os olhos de espanto e de prazer. De susto e de horror. De.

Porque ler é paraíso e abismo, ler é Charybde e Scylla, é os Dioscuros, é o lado claro e o lado escuro da força. Ler não é inócuo. Nem é pacífico. Tormenta, ondas altas. Espuma e águas cristalinas. Turvas, paradas. Mergulhos.

Suspender o julgamento? Não, claro que não. Mas biscate não suspende, né? Se entrega, mas depois avalia. “Foi bom”, “foi rápido”, foi intenso”, “foi caído”. Um e outro. O que não dá é pra dizer não antes. “Isso eu não leio”, “isso não pode”, “aquele não dá”. Um não-me-toques. Um cheio-de-dedos. Excesso de cerimônia. Não. Ler é pagão. É subversivo.

E por isso, quando se fala em tarefa, em esforço, em estudo, é perdeu playboy. Não rola. Não dá liga.

Bora se jogar. Biscatemente. Mas isso é apenas um convite: não é imposição. Convido, mas você pode dizer não.

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
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4 respostas para Ler é mergulhar: impressões e sensações de uma leitora biscate

  1. “Tesouros da Juventude” eram minha paixão de infância! O Livro dos Porquês, o Livro das Belas Ações, o Livro dos Contos… ai, bateu um revival aqui daqueles!

    Gostava mais de Barbara que Sabrina e Julia, muito mais chique (adoro novelas de época). E as coleções antigas, como M. Delly? A coleção da Agatha Christie, depois Sidney Sheldon…

    Livros são minhas viagens preferidas, sejam elas para o mundo da Administração, das Feministas, do imaginário…

    Louca para o Leon crescer um tiquinho pra eu poder me jogar novamente neles! (é, porque ultimamente o sono me faz ler um parágrafo e dormir…rs)

    Beijos!

    • Ah, Adriana, a “versão que não vingou” do texto – que foi apagada, e que era outro texto – contava dos leitores que formei aqui em casa: Felipe e João. Felipe, de prima, direto, se apaixonou e mergulhou como eu. Foi só dar corda… João demorou um pouco mais: menino yang, de ação, de movimento, não tinha paciência pra ouvir histórias longas. Nem pra ler. Agora foi definitivamente fisgado, lê e acha graça, ri sozinho, fala com o livro… e me esquenta o coração, me dá tanta alegria ter conseguido compartilhar esse encantamento com eles.
      Beijo pro Leon, que já já chega lá!🙂

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