Uma breve história de conchas

Relato de uma mãe biscate eternamente aprendiz

Era uma tarde daquelas reluzentes do cerrado.

Os amigos reunidos para comemorar uma data especial de aniversário. 4 anos, barrigas, bebês, aquela esperança boa que vibrava nas vidas que ainda estavam por vir. Nas novas vidas que ainda seriam descobertas dentro de cada um de nós.

Sol e Be se viram depois de alguns dias de distância. Os dois logo se conectaram como irmãos que tem tanto para conversar e descobrir ao longo do dia. É bonito ver como conversam. Como trocam as grandezas que encontram nas miudezas de seus mundos de meninos de pés no chão. Como o diálogo acontece quase sem querer, como quem respira o mesmo ar dentro do peito. Como os significados de seus achados dialogam, e formam conhecimentos conjuntos.

Gosto de acompanhá-los assim à distância, observando o que acontece quando estão juntos. Meu olhar fica ali ao redor, compartilhando seus aprendizados com uma imensa alegria por aprender também. Por aprender a olhar com novos olhos as mesmas velhas formas que me permeiam.

Nesse dia eles encontraram conchas no parque de areia. O Be pegou todas que conseguiu enxergar com as mãos despertas. “Mamãe, o que essas conchas fazem aqui?”, ele perguntava curioso. “O lugar delas não é aqui! como vieram para cá?”. Ele ficou realmente incomodado com a descoberta das coisas fora do lugar.

 “A ordem das coisas está cheia de desordem filho”. Vivemos permeados por desacertos. E tudo bem. Tudo bem as conchas estarem aqui. Tudo bem estar fora do lugar. Tudo bem também inventarmos novos lugares, novos abrigos para coisas diversas. A Sol parecia concordar comigo. Ela gostava de ter as conchas ali perto, como se fossem dela. Como se pertencessem àquele exato lugar onde se encontravam, mesmo que não fosse o lugar onde deveriam estar.

Abrigamos, então. Juntamos todas num copo, cheias de areia e de indagações brandas.  Mas o Be não se sentia feliz com as conchas ali naquele lugar improvisado. Ele ficou sisudo, com olhar sério. Queria levá-las de volta ao mar. Elas precisavam voltar para a casa delas, para onde faziam sentido.

Estávamos na beira do lago, e logo o lago virou mar. Aquele mar grande-mundo, aquela imensidão disforme e cheia de vida. Levamos as conchas descalços, beirando a água gelada com vento bom. Eles queriam molhar os pés. Sentir o arrepio vivo daquilo que viam. E molhamos, arrepiados.

Ficamos ali contemplando o desconhecido, por um tempo sem tempo. Fitando o destino escuro das conchas que sairiam de nossas mãos para nunca mais voltarem as mesmas. Suspirando a despedida do momento passado que nunca mais voltaria o mesmo. Despedida da vida que segue para onde deve seguir, e nem sempre leva junto o que desejamos levar na bagagem.

 O Be e a Sol dividiram as conchas. Uma a uma pingaram na água, mergulhando no lugar inventado de onde vieram. Parecia certo jogá-las de volta ao lago vestido de mar. O Be sorria, feliz em devolvê-las para a sua vida marinha. “Agora elas vão encontrar os seus irmãos e irmãs, sua família Sol!” – ele exclamou. A Sol voltava calada. Voltamos calados, enfim.

Até que ela olhou algo no chão de areia: outra concha! “Olha Be, outra concha, outra concha!”, gritava animada. Mas o Be não gostou do achado. Ele não gostava de descobrir que sempre haveriam conchas fora do mar. A Sol, por sua vez, não pensou duas vezes: agarrou-se na concha. “Agora ela é minha Be!”.

Ele teve um verdadeiro ataque raivoso, daqueles de bater o pé no chão. “A concha não é sua Sol, o lugar dela é no mar!”. “Mamãe a Sol não quer jogar a concha de volta ao mar!” – chorava ele sentido, derrubando lágrimas inconformadas. “Filho, deixa a Sol ficar com a concha. Ela quer sentir um pouco o que é ter uma concha junto de si. Deixa ela sentir”. Ele pensou, pensou, investigou terrenos, mas não se convenceu: “não, não isso não é certo!”, emburrava-se.

 A Sol apertava a concha nas mãos. A concha pequena dentro de suas mãos pequenas. A concha acalentada pelo seu mundo novo, pelo mundo dela, por ela que era concha também. “Sil, a concha não tem olhos e nem boca. Ela não pode ter irmãos e irmãs. Ela não é como a gente”, afirmava a Sol, querendo convencer-se de que a concha agora deveria seguir com ela.  Que ela lhe emprestaria olhos e bocas de gente. Que ela lhe supriria as faltas que sentiria nesse mundo que não era o dela.

O dia seguiu. O Be ainda bravo, esqueceu-se um pouco do mundo das conchas em meio a outras brincadeiras e docinhos cheios de açúcar. A tarde caia, e a gente ia se despedindo com a lua que começava a aparecer naquele horizonte sempre aberto.

De repente a Sol chegou perto do Be. Pegou na sua mão com delicadeza: “Vamos Be, vamos jogar a concha de volta ao mar”. “Isso Sol!!”, ele esbravejou! Foram os dois de mãos dadas, os dois juntos com a concha acalentada. Era hora. Ela estava pronta para despedir-se da concha que, de fato, não era dela. “É, Be, você estava certo. A concha deve voltar para o mar”, ela falava em silêncio enquanto se dirigiam para o mar inventado.

Ela só precisava de seu tempo para dizer adeus. Precisava conviver um pouco com aquilo que precisava ir. Precisava senti-la por entre seus dedos, e guardar na memória o que era ter uma concha só sua. O que era ter uma coisa de mar junto de si. Precisava do seu próprio tempo para decantar e para deixar ir. E a concha foi. Num só gesto, certeiro, ela desprendeu-se de suas mãos e mergulhou de novo no mar de água doce que, talvez, nunca fosse o dela.

E os dois voltaram ainda juntos, correndo pelos arredores, felizes com a empreitada que realizaram de mãos dadas.

Eu continuava acompanhando tudo com o coração pulsando. E pensava no dia em que eles encontrariam novas conchas e novas oportunidades de viver e de se despedir do que precisava ir embora. No dia em que de novo sentiriam o que é ter algo que deve partir para o desconhecido.

Pensava também nas minhas próprias conchas guardadas, que precisavam voltar para o mar. No que precisava desgarrar das minhas mãos atrapalhadas. No meu tempo de deixar ir o que precisa ir. O que, de fato, não cabia aqui junto de mim.

E eu vou. Quando estiver pronta. Quando conseguir dar o passo em direção ao mar inventado, e me despedir das conchas para nunca mais.

 Obrigada meninos, pela grande partilha de coragem.

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
Esse post foi publicado em uma biscate quer. Bookmark o link permanente.

10 respostas para Uma breve história de conchas

  1. Lia disse:

    Que lindo.

  2. silvia maria badim disse:

    Que saudades do Bernardo,e que pena estar perdendo esses e outros momentos dele, que não voltam mais….

  3. chorei chorei lendo isso… delicadezas de amores… aprendizados de desapego… tão precisamente desfiado.
    Lindo demais.

  4. silvia leio todos os seus posts e oque posso dizer é que voce sempre me faz caminhar rumo ao mar….seja para arrepiar pés, corpo e alma ou para me fazer toda mar : )

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s