O Tempo e a Gente

O título, claro, é inspirado de “O Tempo e o Vento”. Porque adoro o Verissimo. O Érico, digo. Verissimo e suas mulheres. Ana Terra, Bibiana. Mulheres que crescem, que envelhecem. Que guardam solidez e força na sua história. Mafalda, também. A mulher do Verissimo. A mãe da Clarissa e do Luiz Fernando.

A passagem do tempo. As rugas. Os cabelos brancos. Mulheres. Com rugas e cabelos brancos. Mulheres com história pra contar. Com história inscrita no corpo. Peso, volume. Rugas. Marcas. Cicatrizes. Cabelos brancos.

Quando eu tinha uns quatorze anos escrevi um texto que falava disso. De um homem, de uma mulher. Sentados numa mesa, um em frente ao outro. Não lembro como começava o texto, lembro que a mulher dizia que estava velha, o homem a olhava, pensava na vida que tinham vivido juntos, no caminho percorrido e “viu, naquele rosto, as marcas daquele caminho. ‘Você está linda’, murmurou”.  Assim acabava o texto.

Eu tinha quatorze anos e já achava isso. E, certamente, muita gente disse “você só acha isso porque tem quatorze anos”. Ah, a inocência. Ah, o encantamento da vida não-vivida, você aí, pele lisinha, magra, tudo por vir, você pode achar bonito. Bobinha.

Bom. Se foi mesmo com quatorze, fazem trinta e dois anos. Ninguém hoje há de dizer que eu sou novinha. O texto tá em algum lugar por aqui, se eu procurar bem eu acho. Mas hoje me dizem “ah, você não parece! Ah, você tem  a pele tão boa, você não tem cabelos brancos, você”… qualquer coisa, né? Qualquer coisa menos aceitar, na lata, pelo valor de face, que eu gosto. Gosto de história. Gosto de tempo passado. Gosto de vida vivida. Gosto das marcas.

Eu gosto, e isso incomoda. Não peço desculpas, não digo “apesar de”… apesar de que? Minha vida, minha história. Meu corpo. Eu. Eu, é isso. Gosto mais de mim hoje. Tenho carinho, sim, por aquela menina perdida e meio selvagem de quatorze anos. Mas voltar? De jeito nenhum. Não tenho nem saudade. Foi bom, tanta coisa. Foi difícil, foi sofrido, foi alegre, foi maravilhoso, foi difícil de novo. Caminho. Marcas. Vida.

Não é “felicidade”: é vida. Vida que se vive. Quando a gente vai, tudo pode acontecer. Alegrias, mas muitas dores também. Riscos. Penhascos. Cortes, arranhões. Nossos abismos. Vida é movimento. Desafio. Desafino. “Felicidade”, assim, como beatitude, só os anjos, acho. Mas eles não vivem: perguntem ao Peter Falk de “Anjos Sobre Belim”. Ele sabia e optou.

Gosto de rostos com marcas. De cabelos brancos. De olhos com rugas nos cantos. De marcas na alma. De vislumbrar dores alheias. Acho bonito. Rostos lisos, barrigas achatadas? Posso até admirar as formas. Mas não me comovem. Nem hoje, nem quando eu tinha quatorze anos.

E agora eu tenho quarenta e seis. Já posso falar disso?

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
Esse post foi publicado em uma biscate quer e marcado , , . Guardar link permanente.

28 respostas para O Tempo e a Gente

  1. Luciana disse:

    Adoro esse tema. adoro sua abordagem, adoro esse texto. Eu achava (eu sei, culpa da Carmem) que ia morrer muito jovem. Não morri e, desde então, me divirto em envelhecer. Me preocupa uma vida que se nega e às suas marcas. Ia comentar sobre meus cabeleireiros, mas seu texto me trouxe foi pra esse antigo post: http://www.etudogentemorta.com/2010/08/como-e-feio-benzadeus/

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      sim, Lu, me preocupa uma sociedade que nega suas marcas. Cujo objetivo maior é permanecer pra sempre jovem. Que sociedade é essa? Que herança você deixa para os mais novos, quando nega o valor da passagem do tempo?

  2. Daniel Nascimento disse:

    Como disse a Lu, também adoro esse tema. Porque ele é inevitável e ao mesmo tempo inesgotável. Parece que diz-se sempre as mesmas coisas, mas sempre com outras palavras, E aí já não são mais a mesma coisa, pois há outras palavras.

    Outra coisa que adoro? Ser testemunha do tempo. Não envelhecer. E não que envelhecer seja ruim. Mas não me sinto assim. Sinto-me…passando. E sendo testemunha privilegiada desse passar; desse fluxo. Hoje mesmo voltei de um pub onde assisti um jogo de futebol com Iara e tive saudade de quando jogava. Mas o importante é que joguei. Agora é viver outras coisas. E olhar. E sentir. E o vento é das poucas coisas que parecem ser das mesmas. O tempo, contínuo, o vento, constante.

    Gosto de minhas linhas de expressão, meus cabelos e barba brancas. Gosto de olhar minhas fotos e me ver jovem. Gosto de saber que alterno meu local no tempo e espaço. Que vivo. Gosto de teu texto. Fez-me sentir o que mais gosto: vivo.

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      que delícia de comentário, Daniel. E você pegou bem no ponto: é isso, se a gente se sente vivo, a gente vai com o vento e o tempo adquire outro significado, né? Eu penso bastante nisso das pessoas dizerem que eu não pareço minha idade. Porque acho que a questão aí é que me falta uma certa seriedade que dizem que vem com a idade. Uma certa formalidade, um “estar cheio de si mesmo”. Não tem a ver, de verdade, com minha pele: é mais uma curiosidade e um inconformismo, uma vontade de ir… isso não é “próprio da idade”.
      Como bem o sabia a Maude de “Harold and Maude”. Um dos meus livros/filmes/peças prediletos…😉

  3. bete davis disse:

    não me vejo com outra idade, me vejo com meus quarentinha. os acho modestamente vividos, ms bem aprendidos, gosto deles. tenho orgulho deles. nào tenho obessesào com rugas, estrias , celulite. elas fazem parte do processo da vida. o que não faz parte na minha vida, ao menos, é o botox. mas a tal tintura no cabelo ta aí, to pensando em me livrar dela. adoro seus textos, Renata. bj

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      Ai, Bete, que alegria ouvir isso!🙂 A tintura eu já tinha comentado em outro lugar: eu não sei, viu. O fato é que não tenho cabelo branco ainda. Mas a gente vive numa sociedade tão pauleiramente machista que entendo muito que mulheres que não tem nenhum problema com idade pintem o cabelo. Porque vira quase uma afirmação permanente, e às vezes você não tá querendo isso, né?
      Eu quando fiz quimio (18 anos atrás) ficaria sem cabelo na boa, na maior parte do tempo. Adorei ver que minha cabeça é redondinha, eu-paraíba toda vida…😉 Mas não queria que as pessoas me olhassem com pena, com susto, com… não queria virar assunto. Então mandei fazer peruca, igual ao meu cabelo. E só quando acabou o ciclo e o cabelo tava voltando a crescer é que abandonei a tal peruca. Acho que pintar pode ser tipo isso. Mas não sei.

  4. Fal Azevedo disse:

    sabia que tinha um motivo procê me amar. sabia.

  5. José Wagner disse:

    MARAVILHOSO!

  6. Gostei um bocado disso aqui: “Não é “felicidade”: é vida.” Um jeito elegante e sintético de dizer tanto. De negar a imposição de que sejamos (ou finjamos que somos) felizes o tempo todo, e assumir que é isso, a nossa história tem sua cota de sofrimento, e é ela que nos amadurece. É por ela que deixamos de ser adolescentes, graças a deus.

    Adoro seus textos, Rê. Acho a sua escolha das palavras sempre impecável, e a sua sensibilidade me toca demais. Obrigada por mais esse.

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      … e aí a moça de touro com áries, minha irmã astral, pega no ponto… porque esse sintético foi pensado, viu. Era pra dizer bem isso que você disse em extenso, sem me aprofundar no tema. Beijos e obrigada pela escuta!🙂

  7. mariacera disse:

    Belíssimo texto, me pegou. Tanto pelos meus 52 anos, quanto pelo Érico Veríssimo. Do “Olhai os lírios do campo” às suas mulheres, que também povoaram minha adolescência.
    Grata por ter escrito!

  8. Jane Andrade disse:

    Adorei seu texto mulher, compartilho com vc do mesmo sentimento, adoro cada fase vivida da minha vida, aceito cada marquinha adquirida em meu corpo nesses 41 anos, pois significa que vivi minha vida. Nunca farei uma plástica, quero que minha vida fique marcada em meu rosto para que as próximas gerações da minha família enxerguem a beleza do amadurecimento, cada sorriso e cada choro dos meus filhos estão gravados em minha face, cada vitória e cada derrota, onde aprendi a me levantar. Acho linda a vida e adorei ter 20 anos um dia, mas adoro ainda mais meus 40. Numa época de tanta futilidade onde a juventude eterna e a magreza excessiva é supervalorizada, encontrar um texto desse na net é um super presente. Obrigada querida!!!!!!!!

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      Jane, eu escrevo essas coisas pra mim mesma, na verdade… e fico tão feliz quando encontra ressonância. Muito obrigada por compartilhar a parte que lhe cabe neste latifúndio!🙂

  9. Iara disse:

    É um texto tão lindo esse seu, daqueles que deixa a gente pensativa e demora um tanto até conseguir comentar. Gosto muito do que eu vivi. Sempre fantasiei como seria completar 30 anos (tenho 32 agora) e olha, eu tinha razão. Tem uma coisa linda linda dos 30 de ser ainda muito jovem no espelho e já ter história pra contar. Como se pudesse conciliar o melhor de dois mundos: o frescor da juventude tão cultuada e alguma bagagem de vida. Saber que já passou tanta coisa, mas ainda há tantas outras pra me acontecer, pra viver, pra sentir. Que eu posso sobreviver aos desafios futuros, porque sobrevivi a anteriores. Não sei muito como vai ser envelhecer, porque eu sou uma diva (carregada de uma mal disfarçada culpa, mas sou). Olho no espelho e vejo que tem umas manchinhas na pele que costumava ser um pêssego e não curto muito, não. Mas vergonha eu não tenho, porque elas têm essa dignidade de “olha, nada contra as meninas, mas eu sou mulher”. Porque é isso. Eu sou, nós somos. E acho delícia olhar pras mulheres mais vividas do que eu (como você) e me dar conta do quanto são lindas, como são divertidas e bacanas e dignas da minha admiração. Pensar assim: quero ser assim. Olhar pra frente e não pra trás. Obrigada, viu?

    • Renata Lins disse:

      Iarita, pra você que sabe francês, tem uma música bonitinha do Yves Duteil sobre os trinta, olha http://www.youtube.com/watch?v=nG4Qg5xA4k4
      Ele diz mais ou menos o que você diz. Meu tempo passa diferente: criança e adolescente, eu era muito velha, séria, compenetrada. O tempo me ajudou a perder um pouco do peso e da gravidade, a conseguir fazer de conta que sou leve, às vezes. A gargalhar (eu demorei pra tomar posse da minha gargalhada, viu.).
      E sou sim, vivida.🙂 Mas a idéia de “velha” não faz nenhum sentido pra mim. Tava falando disso outro dia, a respeito de um texto da Eliane Brum: não é que eu “rejeite”, ao contrário: brigo pela afirmação e pela aceitação das belezas das idades. Só acho graça, não faz mesmo sentido. Em nenhum sentido. Vivi mais? Sim. Tenho mais memórias, mais histórias? Decerto. Mas o que pra mim caracteriza a velhice é uma certa desistência; uma sensação de “já vivi”. E essa eu não tenho, viu. Acho mesmo que depois da curva há uma nova aventura, e que os melhores anos ainda estão por vir. Não porque sejam mais felizes, mais plenos: apenas que, por serem porvir, são melhores. Beijo e obrigada!

      • Eu ia comentar no comentário pós-daniel, mas aqui faz ainda mais sentido. Sabe, meu simbolismo pra velhice não tem absolutamente nada a ver com o seu – choque total aqui. Nunca consegui ver velhice relacionada a passividade, desistência ou o que seja. Pra im há pessoas que desistem aos 15, 28, 42, 75… E gente que curte aos 15, 28, 42, 75. Sempre detestei isso de alma jovem como vinculada a um gosto pela novidade, acho injusto. A mesma sociedade que fica dizendo que velhice é o nada não consegue evitar dizer que não é, tá aí o cinema desde sempre que não me deixa mentir. Aí se trata como exceção uma Elza, o que é nonsense, já que um dos motivos pelos quais fez sucesso foi a rápida identificação, acho eu.

        Por outro lado, pelo menos uma divergenciazinha, né?😉

        • Renata Lins (@repimlins) disse:

          sei não… se isso é divergência… eu achei que tinha dito isso mesmo, só que de outro jeito… que “velhice” – diferente de acúmulo de idade, vê: “velhice” com todos os seus sentidos implícitos – p mim tem a ver com certa desistência. E não tem a ver com idade… apesar de considerarem que tem. E apesar de muita gente, acabrunhada pelo peso das cobranças sociais, acabar se recolhendo à sua concha com a chegada de certa idade.
          Se você vai andando no tempo, mas continua andando – olhar curioso, vontade de outridades, acreditando… você vai amadurecendo, vai mudando, vai vivendo mais… mas não fica velho, nesse sentido aí, né? FIca “idoso” = “com idade”; mas não “gasto”. Não é isso que você acha não?

  10. Para não perder o costume e o hábito…. Golaço. E sempre, sempre, sempre, acho que as linhas de uma partida começam antes do apito e… nunca terminam. Quando a gente lembra, joga ainda. E quando a gente joga…. tá vivendo, né?

    • Joga. Com gosto, com garra. Eu dei sorte e tive uma família em que ninguém desistiu. Meu avô, meu tio, meu pai (Lins) morreram cedo, todos. Mas com mais de 60. E vivendo, e vivendo. Dia desses vou escrever sobre meu tio e seu segundo casamento – história mais linda. Meu pai pegou bactéria em Moçambique, onde estava a serviço da FAO prestando consultoria s reforma agrária. Tema em que ele entrou depois dos 40, e do qual virou militante, engajado, operário, especialista.
      E meu avô… ah, meu avô…. só conto no chope.😉

  11. Fabio disse:

    Texto corajoso, um tema tão recorrente (todos nós nos apropriamos deste assunto ao nos olharmos no espelho todas as manhãs) e ao mesmo tempo espinhoso, falar sobre o tempo e o efeito deste sobre nós é algo que no mínimo evidencia muita lucidez, ainda mais com todo este discernimento.

    Dia desses vi uns filmes e umas peças que tratavam (com excelência) sobre o passar dos dias….Sobre a experiência somada (multiplicada)….

    Filmes: Feminices, Todas as mulheres do mundo.
    Peças: Confissões das mulheres de 30, Confissões das mulheres de 40.

  12. Pingback: Sambando e estripando… |

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s