Receitas Indigestas

Tá, eu sei. Já falei sobre isso aqui antes. Mas é que o tema tem potencial para render tantas discussões construtivas que decidi trazê-lo à tona novamente, assim, sem pretensão…

Mentira.

Quis voltar ao assunto porque ao longo da última semana, esta matéria falando sobre dez coisas que eles não querem saber de uma mulher,  foi compartilhada aos borbotões nas timelines das redes sociais. Como tenho a sorte ( só que não, porque a realidade de boa parte do mundo é muito distinta da minha) de estar em uma “bolha” repleta de de amigos e contatos que têm consciência da força que a perpetuação do status quo exerce sobre o nosso comportamento, a maioria dos comentários e reflexões que vi a respeito foram negativas. No entanto, ainda há muita gente que segue à risca essas “receitas” comportamentais. E depois se pergunta porque é tão infeliz, sobretudo no amor…

Bom, sobre a matéria em si, acho válido destacar alguns tópicos que, ao meu ver, são mais preocupantes:

 7- Que você procura aprender sobre sexoNão há nada de errado se a mulher lê várias revistas e livros sobre sexo; muito pelo contrário, só que a eles não interessa saber de onde elas aprendem sobre o assunto. A eles interessa que elas apliquem o que aprenderam na prática. Não importa de onde você tenha adquirido seu repertório sexual, só deixe que ele se impressione e não queira sair de seu lado”.

Claro. Mulheres não têm porque aprender sobre sexo senão para agradar aos homens. Fora isso, elas não têm porque conhecerem melhor o próprio corpo, ou meios de buscar prazer. Mulher nem gosta de sexo, não é mesmo?! Exatamente isso, só que ao contrário.

9 – Intelectualidade em excesso: Não existem muitos homens que gostam de estar frente a uma mulher que procura demonstrar constantemente o quão inteligente ela é. Além de se sentirem diminuídos, se torna tedioso estar frente a uma pessoa que transforma qualquer conversa em um debate existencial. Melhor fazer com que ele conheça sua inteligência através de outras coisas, e deixar estes debates apenas para o trabalho e a universidade”.

Aham. Todo homem sonha em namorar uma mulher que não pensa. Que não tem personalidade e principalmente: que não o questione. E você aí pensando que inteligência era uma qualidade…

10 – Quantos homens passaram por sua cama: Isto sim eles não querem saber. Por mais aberto que seu parceiro seja, saber com quantos homens você transou não leva a nada, já que somente o deixará nervoso e lhe fará mal. A sensação de insegurança que lhe proporciona a compará-lo com outros pode impedi-lo de ser o que ele é”. 

Realmente. Faz muita diferença para quem se gosta saber do passado do outro. E mulheres que tiveram muitos parceiros certamente não servem para namorar…

Sei lá. Não encontro um adjetivo melhor do que petulante para qualificar quem acha que pode dizer ou não como uma mulher deve ou não agir, ou que afirme com certeza que sabe exatamente o que os homens gostam ou não que ela faça. É vazio, simplista e pouco confiável. Cruel também. E mesmo que alguém soubesse exatamente o que TODOS os homens gostam em TODAS as mulheres, porque estariam elas obrigadas a agirem exatamente para atender a tais expectativas? O machismo manda beijos.

Essas “receitas” não me representam. E não deveriam representar a ninguém, porque retratam um modelo de comportamento que já mostra ( ainda bem) sinais de falência há algum tempinho. De um lado, a mulher como ser inferior, sem anseios e incapaz de fazer algo simplesmente por ela mesma. Um ser que deve nortear os seus caminhos em prol da aceitação dos outros. Um ser sem escolhas. Do outro, o homem como aquele que deve ser servido. Que nunca deve ser chateado ou ter o ego ferido. Como aquele que não pode ter sequer um momento de insegurança.

Sinceramente… Penso que é muito melhor estar sozinha do que condicionar-se em nome de outra pessoa. É melhor ter a companhia de si mesma, de bons amigos, da família do que de alguém que, por ventura, não me aceite como sou. Ou estar com um cara tão imaturo a ponto de eu não poder falar sobre qualquer assunto, sem que ele se sinta diminuído. A vida já tem regras demais para que eu tenha que fazer o sacrifício de deixar de ser eu.

 

Sobre Cláudia Gavenas

Paulistana, 26. Designer, gateira, feminista e musical. Meio perdida na vida, mas não tem certeza se realmente quer se encontrar...
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Uma resposta para Receitas Indigestas

  1. Fabio disse:

    Claudia,

    vamos lá….Está preparada para a tempestade de palavras? (risos)

    Dizem por aí que é de bom tom começar um assunto como uma citação, embora não seja o início do assunto (assim espero), farei uma citação, até para que tenham uma idéia do que virá a seguir….

    “só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas… e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro.”
    Lou Andreas Salomé – (Sim, sou louco por ela, mas quem não o é?)

    ——————————————————————————————–

    O que você procura para aprender sobre sexo.
    A alguns dias participei de uma palestra cujo assunto era o empreendedorismo, dentre os palestrantes havia um cientista social que fez um discurso muito inspirador, me lembro que dentre os seus comentários em um determinado momento ele disse: “o conhecimento não necessariamente deveria ter uma finalidade, pois ele (o conhecimento) já é uma finalidade em si”. Aprender para que? Para sermos pessoas melhores, para que possamos adquirir uma real consciência sobre a nossa existência, para que possamos contribuir com o todo de uma forma mais eficaz, enfim motivos não faltam…..
    Concordo com a autora quando ela diz que o objetivo da mulher em buscar o conhecimento sobre o tema proposto vai muito além (mas muito além mesmo) de querer colocar em prática este conhecimento a serviço do seu próximo parceiro sexual. O conhecimento pertence a nós, mesmo sendo passível de ser compartilhado, ele pertence a nós
    Sou muito suspeito para falar a respeito, mas acredito que um dos caminhos mais eficiente para o conhecimento (sobre nós mesmos) seja justamente através da sexualidade, se eu fosse psicólogo com certeza minha abordagem seria Freudiana….(risos)

    Intelectualidade em excesso.
    O próprio título já é antagônico, pois não consigo imaginar cultura em excesso, conhecimento em excesso, informação em excesso; Porém a realidade realmente é bem triste quando se tratam de mulheres intelectualizadas que estão em busca de um parceiro à altura; sim é bem verdade que os homens (inside information) em geral se sentem “ameaçados” quando se veem diante de uma parceira cuja bagagem cultural é nada menos do que extraordinária. Não acredito que hajam justificativas plausíveis para este tipo de comportamento, o máximo que conseguiremos serão algumas poucas explicações.
    Com certeza o caminho a ser trilhado para que possamos chegar a algum tipo de conclusão comum seja o da insegurança.

    Quantos homens passaram pela sua cama?
    Eu mesmo já caí na armadilha de fazer esta pergunta. Mais intrigante do que qualquer resposta foi eu tentar entender o porque desta pergunta e qual o nível de relevãncia (se é que havia alguma), confesso que a única conclusão que cheguei foi que a minha motivação nada mais foi do tentar utilizar desta resposta como unidade de medida para eu avaliar o quanto inseguro eu era (estava)

    Todos (e não é um luxo somente dos homens) em um determinado momento das nossas vidas buscamos algo utópico que chamamos de “segurança”, não entendendo que é algo que em geral está dentro de nós, ao longo dos meus anos percebi que falhamos explicitamente quando transferimos a responsabilidade de sermos felizes para aquele(a) que esta ao nosso lado, como se o(a) outro(a) fosse responsável ou pelo menos co-responsável pelo nosso bem estar, quando na verdade a responsabilidade é (ou pelo menos deveria ser) exclusiva nossa (homens e mulheres).

    Sou sensível a muito do que tenho lido aqui, mas que esta sugestão de mudança de consciência em relação a servidão (que tem perseguido as mulheres ao longo dos anos) é algo que em primeira instância precisa ser despertada nas mulheres; o que nem sempre é fácil pois estamos falando de condicionamentos, é evidente que haverão resistências, (principalmente dos homens), porém também é muito claro (e basta um pouco de lucidez) para concluir que todos (eu disse todos) ganharemos e muito com este modelo de sociedade; em que mesmo com as diferenças possamos nos expressar da mesma forma.

    Eu admiro e costumo aplaudir sempre quando me deparo com alguma mulher que de algum modo subverteu o senso comum de uma sociedade machista cujos resquícios ainda podem ser observados. Penso que, se existe um caminho para que uma relação afetiva dê bons frutos, seja justamente esse, duas pessoas extraordinárias em igualdade de condições (visões de mundo) que concluiram que seja o momento de seguirem (sem a idéia romântica do “parasempre”) este trecho do caminho juntos……Me lembro que certa vez fui a uma destas casas de swing e durante algum tempo observei uma mulher que estava “fazendo acontecer”, sem amarras, sem pré conceitos, simplesmente explorando os limites de seu corpo e observando detalhadamente todas as reações daqueles com quem transava, na ocasião me lembro de ter pensado: – Uau !! Ela se conhece muito bem, e possivelmente esta querendo ir além de onde já foi, explorarndo todas as possibilidades, observando todas as reações não só as suas, mas de todos com quem transava…….Simplesmente me apaixonei, o resto é história….rsrsrsr

    “Conheço” pelo menos uma dezena de homens que se destacaram por que tiveram a oportunidade de terem ao seu lado (eu disse ao lado, não atrás) mulheres extraordinárias, Henry Miller foi concebido como escritor quando conheceu e conviveu com Anais Ninn (quando escreveu Trópico de Câncer), Rainer Rilke escreveu suas melhores poesias depois de ter conhecido Lou Salomé, Diego Rivera teve sua projeção internacional ao lado da Frida Kahlo, Carl Gustav Jung se destacou como Psicanalista depois de ter tido a oportunidade de tratar e estudar com a Sabina Spielrein (sim, eles trabalharam juntos), Sartre e Simone de Beavoir, Camille Claudel e Rodin, enfim……Quando individuos (independente do sexo) deixam as diferenças de lado entendendo que são complementares e buscam explorar o melhor de si com objetivos em comum, o resultado é extraordinário.

    Nos exemplos citados acima, confesso que me perco quando tento imaginar quem influenciou mais quem……..

    Em fim….

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