As regrinhas ou você não é síndico

Tentei achar um nome mais elegante para o que está na minha cabeça mas não há forma mais direta de dizer – odeio a cagação de regra. Entenda-se por cagação de regra isso que a gente ouve todo dia – você deve ser isso, deve ser aquilo, deve fazer isso aquilo, ouvir , ler, vestir, sentir, etc. As normas. Os conselhos que você nem pediu e nem quer ouvir. Conselhos que são uma cagação de regras disfarçados de carinho e atenção. Alguém acha que ser o que essa pessoa acha que é certo ( defina certo) é que será melhor para você.

Nas relações amorosas e sexuais a regras terão os seguintes nomes: heterossexualidade, monogamia, fidelidade e a tal pessoa certa ou alma gêmea (a metade da laranja,  dois amantes, dois irmãos). Qualquer coisa que saia disso você estará automaticamente errada. Não estou pregado aqui também a poligamia, a homossexualidade, a transsexualidade ou a infidelidade. Cada qual escolhe seu caminho. Não há culpas, pecados e erros aqui.

Estou pregando a amizade e a ternura, o abraço terno quando a amiga ou amigo com coração em frangalhos porque a relação amorosa acabou, ou nem começou, (quem nunca?) vem pedir ajuda e a gente ao invés de escutar e abraçar – porque na verdade tudo o que a pessoa quer é um abraço,  ou dar um colo para chorar as pitangas, porque a pessoa sempre sabe se, porque e onde errou, porque acabou ou nem começou, e se não sabe um dia saberá, cada qual ao seu tempo – a gente acaba deitando uma cagação de regra sobre onde a pessoa errou, como errou, como deveria ter feito, ao invés de somente acolher.

Cagar regra. Sabemos. Cumprir regras. Nada fácil. Desejo. Amor. Paixão. Não tem regras. Autoconhecimento cada qual  tem ao seu  próprio tempo. Mas, amizades verdadeiras costumam ter sempre compaixão e carinho e abraço, mais que regras. Isso não é passar a mão na cabeça. É saber a hora de falar e a hora de calar, e como falar. Isso é conhecer seu amigo, saber que cada um tem seus limites e desejos, cada um tem seu tempo, sua forma e ser e agir. Amizade passa por respeitar o outro, amando-o como ele é.

Cagar regra em relacionamentos alheios é ainda pior que no seu próprio relacionamento. Cagar regra é diferente de escolher seus limites. É ficar arrotando superioridade para os outros. Escolher seus limites é saber quem você é, o que te deixa confortável e aonde você pisa. É algo só seu e não é pra ser escrito na tábua dos 10 mandamentos como verdade absoluta e imutável. Nem no estatuto do condomínio, afinal você não é síndico de relacionamento.

Assim, se a amiga querida ou o amigo querido estiver em apuros acho que até vale contar como você resolveu seu impasse amoroso, mas jamais imponha que a pessoa resolva o dela como você resolveu o seu. Abrace e acolha. Deixe que os outro junte seus caquinhos. Quantas vezes for preciso. Isso é amor e respeito. E se, naquele momento, isso estiver além das suas forças, porque ás vezes isso acontece, seja claro e dê um abraço no amigo e diga a ele ou ela para procurar um outro suporte, mas jamais cague regra, jamais seja grosso. É desumano. Grosseria, ao contrário do que parece não é sinal de força, é sinal de medo disfarçado talvez, ou de várias outras coisas, até de preguiça. Gentileza consigo e com o outro é força. E se for gentil se afastar, que você o faça sendo gentil e clara, sucinta. Mas quando puder, que volte a abraçar. Mas cagar regra, jamais.

E desculpem, não achei expressão melhor pra definir o que é jogar na cara de alguém o que você acha que deve ser do que – cagar regra. E é só isso mesmo – uma achismo barato – um achar que deve ser. E achando, é só seu esse achado, não o jogue em outra pessoa. Dói. Amizade biscate é respeito e compaixão.

ps: qualquer dúvida sobre regras chame o síndico

Sobre Iara Ávila

Feminista. Falo e escrevo em baleiês. Profissão: comentarista de tv. Mato barata voadora.
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5 respostas para As regrinhas ou você não é síndico

  1. Renata Lins (@repimlins) disse:

    Ai, Iara, e você…. olha, há um mês mais ou menos – e talvez bem mais – que eu tô precisando ter lido esse seu texto. Lembrar disso. “Pregar na cortiça”. Ler todo dia.
    Amar -> respeitar. Amar -> abraçar e acolher. Amar -> suspender, por um momento, o espírito crítico, o julgamento: dar colo primeiro e antes de tudo. Depois pode comentar, ponderar, contextualizar. Mas só depois e só no sapatinho: com delicadeza, com cuidado, sem invadir o espaço do outro.
    Tanta tanta gente que eu queria que lesse isso. Que pensasse nisso. Que avaliasse. Que absorvesse.
    Tomara que.

  2. bete davis disse:

    poxa, Renata, sau resposta é que me emocionou e me deixou feliz. pq esse texto é um desabafo engasgado meu. bj

  3. bete, Concordo com a Renata quando diz que muita gente deveria ler e refletir o seu texto… Tudo que eu gostaria de dizer, de deixar bem claro ao mundo esta nele, você conseguiu se expressar de uma forma verdadeira, e simples. Amar é isso, ser livre, deixar as pessoas livres, sem seguir regras, sem ficar alienado ao outro…Será que somos tão diferentes?? Porque as pessoas acham que ser Bisexual, homosexual é ser errado?? É o que as deixam feliz, que sigam seu caminho, cada um vive feliz do jeito que acha melhor, sendo poligamico ou monigamico, fiel ou infiel, solteiro ou casado… A sociedade é muito cruel com quem pensa e age diferente, por isso tentamos mostrar que o diferente é nossa forma de ser feliz e viver intensamente, sem se preocupar com o que os outros pensam ou deixam de pensar. Eu ha muito mudei, e quanto mais me conheço, mesnos me importa o que os outros acham de mim, vivo do meu jeito, não tenho que me moldar a ninguém, se quiserem que se moldem a mim ou não…
    Beijos de coração

    Amei seu texto, bete é perfeito!!

  4. bete davis disse:

    poxa, Carina, brigada pelo comentário. mas a gente é o que dá conta de ser. mas eria legal se todo mundo tivesse ao menos um amigo ou amiga verdadeiramente acolhedor, no matter what…

  5. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

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