Trinta anos quase

Aviso aos Navegantes: Eu escrevi este post (Meus 50 tons de…), que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
Trinta Anos Quase, Renata Lins

Fazem trinta anos. Ou quase.

Foi no dia 1° de janeiro de 1983. Ano Novo.

A gente namorava há três meses. Desde setembro.  Eu tinha dezesseis anos. Dezesseis anos e frio de gente. Corpo de dezesseis anos, mas sabia tantas palavras. Tinha lido livros. Conhecia Sartre e Camus, Voltaire e Flaubert. Isso enganava e enganou tanta gente: parecia que eu era madura, vivida. Mas eu tinha só dezesseis anos.

Sobrancelhas, cabelos, patuá africano. Calças jeans e camisas do meu pai. Dezesseis anos, e muita fome de vida. E muita angústia do não-vivido. E muita vontade.

A gente tinha se dito quase tudo. Tinha falado, conversado, brigado, voltado. Discutido, feito as pazes. A gente tinha dito o que precisava.

A gente já tinha se pegado, tanto, e não tinha rolado. Angústia, ansiedade, pressa. Eu tinha te acalmado, como uma veterana. Que não era. Mas parecia: “Vai rolar. É assim mesmo”.

E naquele dia foi. No dia de Ano Novo. Ano Novo, vida nova. Não é assim? Pois. Do ano novo propriamente dito, não lembro nada. Possivelmente foi no Leme. Certamente a gente foi à praia. Definitivamente, de branco. Oferendas a Iemanjá. Molhar os pés. Antes, possivelmente teve banho de sal grosso. Talvez até com pétalas de rosas brancas. Tinha disso. E eu gostava.

Todo mundo foi dormir. Ficou a gente. A gente, na sala de casa. O som ligado. A gente: mãos, bocas, coxas. Línguas, dedos. A gente: suspiros, respiros, inspiros. Ai. Han. Hum. A gente: tira, tira logo. Tira só um pouco: pode chegar alguém. Ajeita, vem, entra. Isso. Empurra. Agora. Foi. Vai. Isso.

Morno, úmido, gostoso. Isso. Assim.

Trinta anos quase. Vocês não tinham nem nascido e eu tava dando. E recebendo. E recebendo. E recebendo.

Foi gostoso, nem teve dor. Ou tão pouca. Tão mais prazer. Alívio e gosto de quero mais. De quero de novo. Muito mais. O chão da sala. O som ligado.

Ao fundo, fogos.

Celebremos. Fazem quase trinta anos, afinal.

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
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12 respostas para Trinta anos quase

  1. O que há em comum: com 16 também parecia madura. E só. Não tive fogos, nem na primeira, nem em nenhuma vez (a não ser por dentro, mas esses não estão em pauta). E fiquei aqui, rindo-me, das vantagens da idade. Quando estiver em situações onde o “jovem” é valorizado por si só, vou sempre lembrar-me: “Vocês não tinham nem nascido e eu tava dando.”

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      Gargalhei com esse comentário. Porque tem isso, né? Eu nem me dei conta, mas tem isso. Eu penso isso mesmo, e aparece quase sem querer no que eu escrevo: jovem é apenas alguém que viveu menos. 🙂

  2. Afffffff… Renata me fez voltar a adolescência. Não aquele papo saudosista de “eu era feliz e não sabia”, mas de sentir os desejos como eram. Fiquei com a impressão de que era mais pele, mais à flor da pele… Ou estava mais atenta ao corpo e superdimensionava o toque? Enfim… Como muito bem disse o João Bosco, pele tem memória e a minha acaba de ser despertada com esse texto. É… Ui!
    Beijo, sua linda! ❤

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      “Pele tem memória”. Corpo tem memória. Lindo isso. E tão verdadeiro. Por isso, talvez, porque eu já intuía, é que mesmo quando eu era bem jovem já me atraíam os corpos vividos. Os olhos com rugas em volta. Vida vivida. Isso é que me encanta.

  3. Dandi Marques disse:

    Gostei dum tanto desse texto! Tão leve e inocente como a primeira vez geralmente é. A cena da sala com som e os fogos ficaram bem nítidas. Aposto que as explosões combinaram com a ânsia da vontade do não-vivido e do experimentar que todo adolescente vive/possui. E, não tem como escapar, a frase “Vocês não tinham nem nascido e eu tava dando” marcou 😉

    • Renata Lins (@repimlins) disse:

      Hahahaha a frase é boa mesmo… pura provocação. 🙂
      Eu gosto dessa data, inclusive porque senão provavelmente nem lembraria. Mas 1° de janeiro, como não?

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  6. Só uma cousa: “É gooooooooool”. E ao fundo, os fogos. Não os de artifício. Os que importam.

  7. ..”Trinta anos quase. Vocês não tinham nem nascido e eu tava dando. E recebendo. E recebendo. E recebendo..”

    Otimo texto,me fez rir mas me deu esperanças de sei lá encontrar prazer no mundo sexual.
    amo o blog vcs todas estão de parabéns =*

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