O concurso de Miss Bumbum e o direito de falar merda

*Jeanne Callegari

Amanda Sampaio é mulher. Transexual, decidiu pela cirurgia genital, que realizou na Tailândia, em 2007. Em 2012, Amanda decidiu participar do concurso Miss Bumbum, e foi selecionada. Até aí, tudo OK. O problema é que suas concorrentes não gostaram nada da história. E saíram às ruas para protestar contra sua participação no concurso – veja notícia aqui (http://ego.globo.com/famosos/noticia/2012/08/seminuas-baianas-protestam-contra-transexual-no-miss-bumbum.html). Entre outras delicadezas, disseram: “Na Bahia tem mulher bonita, não precisa de transexual”.

Amanda respondeu aos ataques com frases como “sou mais mulher do que elas”, “mulheres da Bahia são feias” etc. Algumas colegas apontaram: os dois lados falaram besteira. Discussões sobre a validade do concurso à parte (tem gente que acha, afinal, que nem deveria existir o Miss Bumbum), os dois lados falaram bobagem, sim. Mas existe uma assimetria bem grande aí.

A mulher transexual falando bobagem não tem poder de afetar a vida das mulheres cis*. Ela não está levantando faixas em um protesto organizado deslegitimando a identidade de gênero das outras. Ela só falou que se sente “mais mulher” porque alguém foi lá e perguntou. Conceitualmente está errado (provavelmente ela pensa que é “mais mulher” porque se adéqua melhor aos estereótipos do que é feminilidade na sociedade, e a gente sabe que não é isso que deve ser a régua; o que vale é, apenas e sempre, como a pessoa se identifica, independente de como ela se veste, de como se parece), mas isso não altera a vida das outras. Nenhuma das outras concorrentes vai se sentir menos mulher por causa do que ela disse.

E aí é que entra a grande questão. Todo mundo tem o direito de falar bobagem, né. Não é porque se é mulher, negr@, trans* ou qualquer coisa que a pessoa se torna automaticamente iluminada.

Mas o lance é que o fato de a pessoa falar merda não interfere na opressão em si.

Uma mulher machista que fale bobagens, por exemplo. Ela perde o direito de ser defendida pela Maria da Penha? Perde nosso apoio ao querer fazer aborto, ao ganhar menos, ao ser estuprada, ao ter menos acesso a certas carreiras? Não, porque não é uma questão de “merecimento”.

A pessoa não precisa ganhar diploma de coerência para poder ter sua opressão reconhecida. 

O que Amanda falou sobre as mulheres serem feias na Bahia é lamentável. Mas isso não muda em um milímetro a questão principal, que é a opressão que as mulheres cis estão tentando exercer sobre ela, ridicularizando-a, dizendo que a Bahia tem mulher bonita e não precisa de transexual, ou seja, negando a ela o direito de ser mulher. Negando sua identidade.

Claro que essas mulheres da Bahia estão agindo dentro da lógica de uma sociedade cissexista e não sabem o que fazem, mas os machistas também foram criados dentro da lógica de uma sociedade machista e por isso não sabem, muitas vezes, o que fazem. Então a gente precisa levar isso em consideração. Não é porque a pessoa faz parte de um grupo oprimido que tudo que ela diz se torna verdade sacralizada e inquestionável. Mas também temos que lembrar que essas pessoas são falíveis, como todo mundo.

Mulheres, negr@s, trans*, lésbicas, gays e demais grupos que sofrem preconceito e opressão são apenas gente. Merecem o direito de falar merda de vez em quando, sem terem suas demandas deslegitimadas por causa disso.

Jeanne Callegari é jornalista e poeta saindo do armário. adora um ismo – desde que esteja do lado certo da força, como ciclismo e feminismo. Você pode encontrá-la em jeannecallegari.com.br/blog.

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9 respostas para O concurso de Miss Bumbum e o direito de falar merda

  1. Jeane disse:

    Se falar m… fosse pré-requisito pra perda de direitos, o Rafinha Bastos e seus afins teriam se mudado pra Marte… Gostei mt do texto, Jeanne!

  2. msvivianev disse:

    Bom demais. Não tinha ficado sabendo das declarações de Amanda, e a argumentação de que ela não deixa de ser deslegitimada enquanto mulher por conta deste seu erro é excelente. Obrigada.

  3. também gostei do texto, Jeanne; me fez pensar… parece que em terra de opressão, quem tem palavra é rainha/rei: por isso buscam-se palavras – de ordem, de escárnio, de afirmação, de contestação, etc. – como se fosse munição. E a partir das fronteiras tão nítidas (e nitidamente estanques, na maioria das vezes) da identidade, atiram-se mutuamente palavras, pois todxs sabemos: elas ferem, e muito.
    E são realmente espadas, facas de dois gumes: todxs ‘podem’ (têm um certo direito – esse, sobre o qual vale pensar mais) de falar. Mas e aí? Lembro de um grupo de jovens evangélicos levantando ante um auditório que discutia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e dizendo: “nós temos liberdade de expressão. Se o nosso pastor quer falar que gays e lésbicas não são gente, ele pode falar – nós queremos afirmar esse direito”.
    aí complica… Pois, afinal, que é realmente ouvido? Se todos tivessem o direito de serem devidamente escutados (se fosse diálogo, e não violência), a coisa mudava de figura. Mas sabemos, com a tristeza de sempre, que não. E por isso, acho, você pontua a questão do merecimento…

    é triste ser assim: vivermos nessas trincheiras, precisando nos armar de palavras e engolir secamente a ideia de que todos podem falar merda – e de que, de um lado, as merdas são escutadas e diluídas no senso daqueles que ‘foram criados assim’, e assim naturalizam as merdas todas; enquanto de outro lado, precisamos correr para defender quem não foi criado assim e precisa falar – ainda que seja merda.

    no fim das contas, prevalecem os mesmos reis e rainhas de sempre – as maiorias, que embora sejam um pouco diferentes daquelas que cantou Elis (http://letras.mus.br/elis-regina/209463/), ainda são os donos do reino. E nós, que vemos os outros, continuamos na esperança de que deus esteja conosco “até o pescoço”.

  4. Mas que M de concurso não??? E noticiar esse concurso… mais lamentável ainda (falando bem fora do contexto do post).

  5. Pingback: primavera literária & mais

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