Biscatagem na novela

Quem me conhece sabe que adoro tv, e em especial, novelas. Cresci assistindo novelas, minha madrinha via todas, e comentava, criticava igualzinho a gente faz no twitter na hora de OI OI OI. Só não era com o Brasil todo, era na sala de casa mesmo. Hoje a gente assiste a novela acompanhada das amig@s e amigos noveleir@s e comenta, só que on line. É uma enorme sala de estar virtual com a tv ligada.

A novela sensação do momento é Avenida Brasil, trama de João Emanuel Carneiro, sucesso como há muito não se via (não que Cheias de Charme também não seja maravilhosa e um enorme sucesso das 7). Comentada em todos os bares, em todos os cantos que fui neste último mês: no salão, na sala de espera do médico, no elevador, no spa ( ui, to chique), no trabalho, nas rodas de bar ( na minha e nas mesas vizinhas) e por aí vai.

Mas não vou falar do ápice emocional da novela – o antagonismo Carminha/Nina, mas do núcleo que eu, e muit@s achamos mais chato que carrapato – o núcleo Cadinho. Em primeiro lugar queria só dizer que não poder ser o João Emanuel que escreve aquilo, devem ser os estagiários do Zorra Total, não tem uma piada que funcione. Mas o problema lá não é piada, é o desperdício de biscatagem. Explico.

Cadinho é um mulherengo, não quer ter uma mulher só, sendo assim mantem 3 famílias e obviamente é milionário, porque economicamente não é fácil manter 3 famílias, né? Nem vou entrar no mérito de Cadinho ser machista e incentivar o machismo ou não ( sim, acho o personagem machista, bobo, caricato e não me importo com um homem ter várias mulheres, e verdade, acho que cada um cuida da sua própria vida, a propósito mulheres também podem ter vários homens se assim o quiserem – e viva Suellen!).

Quero é falar do comportamento das  mulheres do Cadinho, são 3 peruas ricas que brigam por ele o tempo todo – Verônica, Noêmia e Alexia- as duas primeiras eram tidas como oficiais a terceira era tida como amante, embora ele não fosse casado com nenhuma delas. Alexia era doida para se casar como se tivesse 25 aninhos e tivesse medo de ser deixada para titia e tal ( a sociedade ainda pressiona muito a mulher que não casa ou nunca foi casada, parece que a gente adquire um novo status a partir do olhar de – um homem me quis, triste isso). Quase se casou com o Otorrino Ruy ( saudades Ruy, bjs, adorava ouvir Otorrino Ruy e era aquele narigão).

Enfim as outras duas patetas descobriram que dividiam o mesmo homem – Cadinho – agora já casado com a Alexia ( tá confuso? Novela é assim, gente, dá muita volta, confira aqui) passou a traí- la com as duas  ex., lembrem-se ele gosta das 3. Alexia descobre e oferece para que todas entrem em acordo e dividam igualmente o macho que tem que ser entregue na hora, limpinho e alimentado ( Cadinho, o homem- objeto).

PARA TUDO. Mas o que uma biscate como eu tem para estar reclamando de uma relação onde 3 adultos resolver viver uma poligamia? Nada, exatamente aí que está o problema. Eu nada teria contra se o amor ali prevalecesse, se a poligamia fosse ali uma livre opção de cada um, e não a falta de opção gerada pelo apego aquele homem, se cada personagem não fosse representado e  tratado meramente como objeto do outro e não como pessoa com desejos e identidades próprias. Se a finalidade das 3 mulheres não fosse só ter um homem para chamar de seu 9 mesmo que seja o Cadinho), até porque ninguém é de ninguém, assim eu penso . Meu coração biscate defende o poliamor, o amor livre, a poligamia. Só acho que a forma como isso está representado na novela reforça estereótipos negativos sobre as mulheres, sentimentos amorosos e relações amorosas doentias. As 3 peruas são infantis, mimadas e possessivas, não amam  o moço objeto da disputa, amam a disputa e a si mesmas, além do dinheiro. E é triste ver o estereótipo mulher neurótica-perua-em busca de dinheiro- representado mais uma vez. Preferia uma biscate polígama mesmo. Mas isso choca mais na tv. Ou chocava, pois Suellen está aí para nos redimir, biscates unidas, mulheres livres que amam seu corpo, o sexo, os homens, a liberdade.

O amor nas novelas, filmes românticos, etc., é representado como uma força suprema que sobrevive 20 anos intactos ( eu não sou a mesma de vinte anos trás, como o amor que nunca mais vi seria?), como exclusivista e quanto maior o ciúme demostrado, logicamente, maior seria o amor. Essa ideia de relação romântica onde  há duas partes de uma laranja, uma alma gêmea ( dois amantes, dois irmãos- ai que tédio), onde dois se fundem num inteiro é que faz tanta gente sofrer, que impede um crescimento emocional. Calma, não estou dizendo que todos devem ser poliamoristas, polígamos, etc., acho que na verdade a maioria das pessoas hoje são monogâmicas em série, acabam um relação duradoura  e exclusiva e partem para a próxima. Mas essa noção de que o amor é ciumento e possesivo propagada nas novelas, inclusive em um núcleo onde em tese deveria haver liberalismo, mas  onde as 3 bocós brigam pelo bocó –mor é um tormento pra quem tem uma alma que deseja ver as pessoas livres das amarras dos preconceitos e dos medos.

Agindo como neuróticas e briguentas as 3 mulheres do núcleo Cadinho, junto com o próprio, só vem reforçando o conservadorismo da sociedade e espalhando estereótipos sem graça pela tv. Enquanto as 3 peruas patetas brigam pelo bocó, a biscate delícia da novela é a Suellen, e agora o poliamor mudou de casa e e de gênero!Mas…  (fica para o próximo capítulo. CONGELA).

Sobre Iara Ávila

Feminista. Falo e escrevo em baleiês. Profissão: comentarista de tv. Mato barata voadora.
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2 respostas para Biscatagem na novela

  1. Noveleira desde que me entendo por gente, não posso deixar de concordar com você. O núcleo-Cadinho y peruas loucas é o núcleo mais chato da novela. Lendo seu texto, me ocorreram alguns motivos: 1. aquelas mulheres hoje são intercambiáveis: tanto faz se é Alexia, Noêmia, Verônica. São iguais, usam o caral igual, são três faces da mesma pessoa. São uma hidra, uma medusa, um ser de várias cabeças. Tanto faz. 2. Essa mulher-em-três é chata bagaray. Chata, chata, chata. É a “mulher-GNT”: só quer saber de moda, de roupas, de grana … e de sexo, não importando se o cara quer, não quer, tá cansado, tá dolorido… (aliás, isso aí que elas fazem com ele é sexo não-consensual, né? O sujeito até finge estar doente porque não aguenta mais.). Sexo como número, como quantidade. Sexo-qualidade? Nem pensar. Me dá um certo engulho ver aquilo, mas nunca tinha parado pra refletir, até ler seu texto. 3. Numa novela famosa por seus diálogos, por suas nuances, esse núcleo é o que há de mais chapado. Você tem toda razão, de poligamia isso não tem nada. De poliamor muito menos. Isso é uso compartilhado. Homem-objeto (e bota objeto nisso) com horário certo.
    Ou seja: João Emanuel, dá uma olhada nisso aí. O núcleo-cadinho pode ser resgatado: basta cuidar dele com algum afeto. “Sim, é como a flor/ de água e ar, luz e calor…” já cantava a Cor do Som.

    • bete davis disse:

      Bem isso Renata, talvez com o núcleo ficando pobre a história seja explorad ade outro jeito. Interessante será ver como elas, mulheres que disputam o homem-objeto-provedor vão lidar com ele sem dinheiro.

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