Em busca da perfeita imperfeição

 

Com agradecimento especial à amiga e escritora que eu tanto admiro: Lélia Almeida, pelas tantas conversas inspiradoras. 

A paixão é feita do imperfeito. Mora bem ali no território do impossível, das coisas indizíveis, do inalcançável. Um terreno de fantasias, que são fantasias exatamente porque não tocam os pés na terra. O desejo da paixão é um desejo feito de irrealizações. A gente quer sempre mais. A gente quer o que o outro nunca pode dar. A gente deseja um algo mais que não se toca com as mãos, cria expectativas que nunca podem ser satisfeitas. O desejo é mágico, é aquele pó dourado que faz brilhar a pessoa onde só a gente consegue enxergar, em lugares inventados e inalcançáveis.

 A paixão é egocêntrica, e ela sobrevive porque é assim. Porque ela é nossa, é nossa fantasia projetada no outro, é a vontade de seguir com ele até o reino do inimaginável, onde moram os tesouros escondidos da transcendência. A paixão quer transcendência, vida líquida, imaterialidade, projeção louca que nunca será alcançada. E é dessa matéria lúdica e rarefeita que ela se alimenta, que ela se cria, e é tão bom que a gente não quer que acabe nunca. 

 O que alimenta a paixão é justamente a falta, a incompletude, o buraco não preenchido, a ausência não suprida, tudo isso que faz com que a gente busque, com que a gente se reinvente, com que a gente reinvente o outro a cada momento, com que a gente chore e sofra e queira  mais, porque quando estamos cansados e queremos ir embora o desejo nos invade e grita: aqui eu sou feliz. Porque aqui eu posso ser impalpável e incerto, porque aqui o outro é faltante – e que bom que ele é faltante, porque é na falta que mora o combustível do querer-mais, e do querer-sempre. É da falta que se faz a pulsante natureza humana, o enigma da existência e da vida, o curso do rio que nunca cessa – em busca do mar-mundo e sua inquietude de ondas.  

 E mesmo que haja dor (sem que isso soe masoquista), há alimento para a alma. Mesmo que hajam lágrimas existe a vontade de fantasiar mais, porque aqui o humano se potencializa e rompe barreiras, porque aqui o sexo é algo mais do que prazer, é aqui onde a vida se faz mágica e cheia de indefinições. E no fundo, acredite, a gente gosta das indefinições e dos improváveis, porque são eles que nos motivam a buscar mais, a movimentar a vida como ela pulsa por dentro, a sermos mutáveis e vibrarmos com a constante energia das nossas menores partículas – que nunca se aquietam.  

Quando tudo tá certinho e cor de rosa, quando não tem desejo louco nem impossível, quando não  há algo escondido a ser descoberto, quando o outro é fácil e previsível nas suas ações, quando a gente tá “satisfeito”, quando a gente decifra os passos e sabe tudo que vem do outro, a gente enjoa. E a gente enjoa porque é da natureza humana, porque quando tá tudo perfeito a gente vai buscar a imperfeição de novo – já sabia bem disso o velho Freud. E quando a gente não busca a gente se resigna, a gente se diminui, a gente vive sem sobressaltos, quase apático para tudo que pode ser, quase cego e quase mudo, fazendo de conta que a gente é feliz ali, no morno. E fazer de conta, às vezes, é uma espécie de morte. 

 E também porque os encaixes perfeitos não são aqueles que a primeira vista a gente julga perfeitos, são os improváveis, são aqueles que a gente olha e dói a vista e não entende nada nem porque encaixa, são aqueles completamente imperfeitos. A incompletude é, talvez, o único modo de nos sentirmos completos, porque é exatamente um reino onde tudo pode ser diferente e sempre se pode sentir desejo de mais. Porque o humano, lá no fundo, não se contenta com certezas fáceis e corriqueiras. 

 Algo acontece por dentro quando não é assim, algo chora e vai buscar mais, a gente – espero eu – larga o casamento porque não tem ambição, a gente termina o namoro porque ficou morno, a gente rompe aquela relação duradoura que os amigos achavam que era a “relação perfeita” porque ficou chato, de repente ficou chato, e a gente se culpa por querer mais, por querer exatamente sair do conforto. “Mas, porque?”, perguntam. “Vocês se davam tão bem!”. Pois é, a gente se dava bem demais e não sei porque alguém teve que ir buscar algo fora, a gente se dava bem, estava certo e fácil, porque, céus, porque alguém quer sair daí? A dura resposta é porque estava desinteressante, porque o bem ficou bem demais e acabou o tesão, porque o bem era bom mas ficou sem graça, o bem era legal e previsível mas deixava um gosto de insatisfação no final, e essa insatisfação foi crescendo e sufocou. E aí a gente quer de novo a falta, algo novo que nos revire em desejos contraditórios e impossíveis. Porque, oras, Roberto Freire já disse com propriedade: “sem tesão, não há solução”!

 E é exatamente nessa dinâmica – e na negação compulsória dela – que mora uma das nossas ilusões. O mundo ocidental, desde os tempos modernos, capitalistas, dos Estados de Direito e dos impérios da lei, busca uma segurança ilusória que não existe. Deve haver segurança social, relações regulamentadas, fatos previstos, penas definidas, investimentos financeiros certos, casamentos de papel e “para sempre”, propriedade privada inabalável. Segurança jurídica é o nome do jogo, quer-se segurança, lucro e conforto, vida estabilizada, poder investir e não ter prejuízo, evitar os riscos. Evitar a dor, a doença, a loucura, a insegurança, o sonho, a confusão, a matéria prima de que somos feitos, a própria vida que corre indefinidamente para a morte.

 E nessa batida vamos tentando achar a fórmula de “como fazer durar um relacionamento”, negando a vida indizível da paixão e querendo acorrentá-la em certezas e solidez sem graça, em pequenos desejos satisfeitos que viram tédio, em mornidão bege. E tudo que consigo pensar, navegando pelos meus desejos e buscas impossíveis é: que eu consiga sempre me livrar da mornidão. E que a imperfeição seja meu norte!

 

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
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11 respostas para Em busca da perfeita imperfeição

  1. Isabela disse:

    Perfeito demaaais seu texto!Muito filosofa! Foi o melhor texto que já li neste blog!
    Bjãoooo!

  2. Silvia,
    que texto lindo.
    Lindo e foda.
    Foda e lindo.
    Adorei cada parágrafo, cada sentença.
    Obrigada, mesmo, viu!
    Beijos!

  3. mclarags disse:

    esse texto eh muito minha cara! agora, se for pensar por esse lado, e mais otimista possível.. talvez, minha vida só seja em busca das imperfeições possíveis. chega a um ponto tão grande, que algumas pessoas falam que eu já escolho o mais difícil por saber que vai ser hard core conseguir.. SE eu conseguir, que fique claro. não sei a postura eh extremista demais ou eu goste de aventuras do tipo montanha-russa! entrei, vou passar mal, sofrer muito mas entro e me arrisco. o que acham? fiquei confusa com meus próprios pensamentos. esse eh o meu esporte favorito, só pra ficar claro! hahahaha

    • mclarags disse:

      tava procurando a autora do texto.. só agora vi que foi a Silvia. agora entendi o porquê de ter me tocado tanto! adoro seus textos, só pra repetir mais uma vez!

  4. Muito, muito bom o texto, Silvia. Ecoou tanto dentro de mim, que justamente comentava um filme bonito e delicado que vi esta semana, mas cujo mote era justamente “como fazer durar um casamento”. E eu me peguei pensando “mas pra que? Por que lutar tanto pra durar? A que essa gente tanto se apega?”. Claro que parte disso é retórico, eu sei e entendo a que as pessoas se apegam. Mas seria tão legal se não.

  5. Clara Gurgel disse:

    Pera aí que ainda estou absorvendo em pequenas porções essa delícia de texto. Por enquanto ainda estou na fase do: “puta que pariu, que texto!” Obrigada, Sílvia!

  6. Silvia Badim disse:

    ai que delícia ler os comentários de vocês!!!!!!

  7. Vivi Ayres disse:

    Texto foda!! Sensacional Silvia!

  8. Rafaela disse:

    Quase fiquei sem fôlego ao terminar de ler o seu texto, Silva.
    Ele tá lindão.
    Parabéns!

  9. Tamiris disse:

    Que tesão seu texto , Parabéns ! bom demais

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