Duas broxadas e um toque

A primeira é a história de um cara que conheceu uma moça pela internet. Conheceu, conversou, apaixonou-se…. eram “almas gêmeas”. Tudo muito lindo, muito mar de rosas, até que marcaram encontro: ela (que era de outra cidade) viria ao Rio encontrá-lo. Tensão, ansiedade e muita expectativa.

Pois bem: a moça chegou, largou as malas e se enfiou num babydoll sexy, transparente. Empurrou-o para a cama, dizendo “sexo é muito importante pra mim”.
Assim, a seco. Nem um olho no olho, nem um roçar de joelhos e de sorrisos antes. Talvez a história não seja exatamente assim, mas é assim que eu me lembro do que me contaram. O que é real é que o cara broxou com a abordagem “moderna” – se não literalmente, ao menos figurativamente. Broxou geral. Dali não saiu mais nada. Se rolou essa primeira vez (não me lembro), foi essa e só.

Conecto essa com a segunda história – contada pelo bonitinho Dan, mochileiro loiro e gringo a quem ocorreu ser meu professor de conversação em inglês um dia. Dizia ele que o feminismo, e a adesão sem malemolência a suas regras, tinha feito alguns estragos nas relações homem-mulher nos EUA. E ilustrava: estava num encontro que era dos primeiros (aquela instituição esquisita que é o “date” americano) – jantar na casa da moça, comida gostosa, conversa fluindo, clima rolando pra tudo dar certo… aí, nem bem acabam de comer e a moça decreta: “eu fiz a comida, agora você lava a louça”.

Nem precisa dizer: foi broxada, de novo. Dizia ele que tinha lavado a louça, obedientemente. Despediu-se e foi saindo. A moça até hoje deve estar se perguntando o que fez de errado.
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Não, povo, não.

Daqui não se segue, como poderia parecer, uma ode ao “Culto das Princesas” capitaneado pela pastora Sara Sheeva, ex- ‘Riroca.

O que eu queria comentar é, nos dois casos, a ausência de certa escuta. A ausência de abertura para o outro. Para olhar e perceber o outro. Na segunda história, tudo poderia ter sido incrível e ter acabado em uma noite de sexo selvagem. Não aconteceu porque a moça deixou de considerar que cada coisa tem seu tempo – inclusive a divisão de tarefas domésticas. Deixou de entender que talvez aquele momento fosse de fazer o jantar e também lavar a louça. Ou deixar pra depois. Afinal, o que importa? Se não for todo dia. Se não for “tomado como um dado”. Se for, como poderia ser, um carinho, um presente, uma oferenda. Um ritual.

Mas não: o rapaz lavou a louça e foi embora pra casa. Sentiu ali certa falta de sensibilidade, certa mesquinhez mal-colocada. Pulou fora.

E na primeira história? Na primeira, pior ainda. O problema ali – mais uma vez – não foi o babydoll sexy nem a cama: foi o tempo. O ritmo. Afinal, os dois se conheciam intimamente pela internet. E nada pessoalmente. Era hora, quem sabe, de ir com calma. Mesmo que tudo fosse acabar na cama, naquela mesma noite. Ou dali a alguns minutos. O cara se sentiu homem-objeto. Não gostou. Desencantou. E isso não quer nem um pouco dizer que sexo não fosse importante pra ele. Só que, aceitando que sexo é radicalização de cafuné, na bonita definição de um conhecido meu, que tal começar pelo cafuné? Mesmo que o sexo venha logo em seguida…
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A moral? Não sei. Tem, no entanto, um toque – um #FicaDica: não é bom seguir regras de manuais quando se trata de relações a dois. Mesmo que sejam efêmeras. Até quando são fugidias.

Esqueça os manuais e as regras. Toque de ouvido.  Perceba o outro, o clima do outro, o pique do outro. Toque de ouvido acompanhando o outro. Guiando o outro. Mas sempre com atenção e cuidado para o tempo. Que seja adagio, que seja allegro, que seja vivace: tudo tem seu tempo. E nada como tocar de ouvido, nessas horas.  Só um toque.

Sobre Renata Lins

Forasteira. Gosto dessa, com seus subtons de filme de caubói. Forasteira, olhando sempre pro mundo de viés. Tímida e espalhafatosa, apesar de não ser o Caetano. Mulher - e cada vez mais.
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14 respostas para Duas broxadas e um toque

  1. aiaiai disse:

    Dois casos engraçados, sem dúvida, para quem não os viveu…mas, não acho que tem a ver com adesão ao feminismo. Tem a ver com falta de bom senso, característica que ataca também aos homens e às mulheres machistas. Só um toque.

    No primeiro caso, acho que a menina tava a fim de transar logo enquanto o cara queria chamego antes. Pra mim, faltou noção de respeito pelo outro, que deve ser a primeira coisa pra rolar sexo, né? Portanto, nada a ver com feminismo.

    No segundo caso, faltou senso de civilidade. Eu nunca vi ninguém convidar uma pessoa para jantar em sua casa e mandar o convidado lavar a louça…Ñ tem a ver com divisão de tarefas, tem a ver com hospitalidade, ou a falta dela.

  2. Querida, a escrita é arte de Hermes, deus fugidio que só ele. E assim é: a gente escreve uma coisa e tanta gente gosta, ou não gosta, mas sempre recria o texto na leitura…
    Porque, vê, eu não tava falando de feminismo, nadinha, nadinha. Pelo menos não era essa minha intenção, já que a sua leitura foi assim. O único momento em que falei de feminismo, foi pra contar a história do Dan – e aí eu tava recriando as palavras dele, que contava essa história assim mesmo. Nem me estendi, mas ele dizia que as americanas eram muito rígidas nesses códigos, e que ele tinha se encantado com as brasileiras porque, na percepção dele, (mais uma vez), sem deixar de ser feministas, eram mais flexíveis. No sentido estrito apontado acima. E, de novo, não tô dizendo que ele tava certo nisso: contei a história (que me foi contada há muito tempo atrás) porque a mim me impactou a falta de timing da moça. E me lembrei dessa por conta da outra, que ouvi essa semana. Achei que a mesma falta de escuta permeava as duas.
    Era disso que queria falar.

  3. aiaiai disse:

    entendido. Eu sabia que você não tava colocando o feminismo na berlinda, mas quis comentar porque ao citar a fala do Dan você abriu uma brecha para as pessoas entenderem essas atitudes como atitudes feministas. Vivo tendo que lidar com isso, imagino que você também, né?

  4. aiaiai disse:

    só pra completar e mostrar que também acho engraçadas essas situações de falta de sintonia, vou compartilhar uma história de brochada que aconteceu comigo. Eu tinha uns 20 anos e conheci um cara mais velho, tipo uns 36, charmoso, inteligente, tudibom. Daí que dei em cima dele descaradamente. Ele gostou e, papo vai, papo vem, me convidou para jantar. Foi super bacana. Um restaurante chiquérrimo na marina da gloria (nem sei se tem mais…faz tempo isso). Ele me perguntou se eu queria conhecer a casa dele e lá fomos nós. Eu toda empolgada!!!
    Chegamos no apartamento, que era clean, bom gosto pra todo lado, etc. Ele tinha computador e impressora em casa (uma coisa rara mesmo naquela época), foi me mostrando tudo e eu cada vez mais empolgada. Rolou uns beijos, ótimos, e eu lá na empolgação …Daí ele resolve buscar um vinho e colocar uma música. É quando ouço a voz do Julio Iglesias chegando aos meus ouvidos kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Eu sou roqueira, mas sou eclética. No entanto, Julio Iglesias foi demais para mim. Bebi um pouco do vinho e fingi que estava passando mal. Ele me levou em casa e nunca mais nos vimos.

    Tem horas que me arrependo um pouco. O cara era bacana, podia ter rolado um sexo bom. Mas, puxa, ao som de julio iglesias não ia dar mesmo.

  5. magdafurtado disse:

    Muito bom, Renata! Só não vou entrar na onda e contar também um caso comigo porque sou tímida pra isso… Mas adorei seu texto; concordo muito com a necessidade de se entender o tempo de cada um.

  6. Tem jogo que o gol sai assim, de uma vez só, numa tascada só. Mas tem jogo que requer tabelinhas, furulas, troca de passes… avaliar as possibilidades de penetração na área… Como diriam os filósofos, cada jogo é um jogo…

    • Perfeito, Fernando. Jogue que nem Garrincha, que nem Romário. E a diferença deles não era só o talento individual: era a “escuta”… a percepção quase mágica do que o outro e os outros iriam fazer.

  7. Muito legal o texto. Parece uma daquelas boas conversas de mesa de bar, em que alguém puxa um causo com uma opinião, e o resto da mesa vai adicionando um outro causo, dando sua opinião, às vezes na base do se fosse eu, concordando ou discordando e desenrolando um bom novelo de prosa. Então, pedindo licença à dona da mesa, aí vai minha opinião. É difícil se colocar no lugar dos rapazes sem saber com que tom as moças falaram, mesmo assim, vou me arriscar. Começo pelo segundo causo, que acho bem universal e não tem a ver com nenhum gênero específico. Estivesse eu no lugar o rapaz, e a rígida divisão de tarefas afirmada pela moça me impediria a gentileza de me oferecer para lavar os pratos, o que até seria meio óbvio na situação. E o problema maior está aí. Como diz o antropólogo, existe um dar-receber-retribuir que alimenta amores e amizades. Além de poder ir muito longe, este circuito é carregado de possibilidades e da alegria de dar. Quando as ações já estão divididas na ponta do lápis, o gesto perde em gentileza e ganha em obrigação. O gesto exigido deixa também de estar grávido de possibilidades: como eu posso retribuir a gentileza daquele jantar ? Com outro feito por mim ? Com uma ida a um restaurante ? Com um cinema ? Com a dureza da divisão pré-definida, o dar e receber está se encerra alí, e quem quiser ir além que abra outra conta. Então, eu me identifico com o moço e talvez também fosse embora com o fim da minha tarefa.
    Já com a primeira história, me identifico menos, ou mais, por que nela creio que fala o gênero. Vou começar pelo geral, e depois vou para o específico. Acho que pra qualquer um ou uma é um pouco intimidante ser chamado a mandar bem e corresponder a expectativas. Mas para homens é um tanto mais complicado. Isto porque existe uma fantasia masculina em torno da capacidade de satisfazer as mulheres, o que, por sua vez, está na origem da frustração de não ser capaz de fazer isso. A velha pergunta: “mas afinal, o que querem as mulheres?”, tem pouco a ver com a possibilidade de saber o que diabos qualquer pessoa quer. De fato, ela se baseia mesmo é nessa fantasia masculina e feminina de que os homens tem de ter a chave do prazer e da felicidade femininas. Então, quando esse desejo se afirma assim na sua, digamos, urgência, o temor de não dar conta assusta o vivente. Talvez assustasse menos se ele abrisse mão dessa fantasia e apenas se entregasse às possibilidades abertas ali, naquele momento: uma mulher atraente querendo transar com ele. Por isso, em relação ao segundo moço, faço uma auto-crítica masculina. Já falei muito, fico por aqui. Parabéns por esse e outros textos.

    • repimlins disse:

      Jair, que comentário mais legal… adorei o comentário todo, desde a comparação com a mesa de bar (que é, de fato, de onde falo… se não literalmente, ao menos figurativamente!) até as suas ponderações. O comentário sobre a louça é perfeito, acho que foi exatamente essa a situação. O Dan poderia ter lavado a louça feliz, e provavelmente se ofereceria: mas a rigidez da moça jogou fora a possibilidade da gentileza, junto com outras possibilidades. Quanto à outra história, acho que o ponto não foi bem o temor de não dar conta: foi mais uma questão de os tempos não terem se encontrado. Ou de falta de escuta por parte da moça, mesmo. Falta de atenção. Eu gostei dessa porque a atitude dela foi tão tipicamente aquela que a gente tá acostumada a ver por parte dos homens, e da qual tanta gente reclama. Eu não gosto que façam isso comigo, não gosto de ser um número nem de ser testada pra ver se correspondo às expectativas do sujeito. Entendo que o inverso também seja verdade, né? Grande abraço, volte sempre!

  8. Amei o texto. E entendi perfeitamente que a autora não quis tratar do feminismo no seu texto. Não quis de forma alguma “condená-lo”. No entanto eu deixo a minha opinião, de que vivemos numa era de feminismo desmedido. Parece-me que as mulheres (e isso pode incluir a mim) não conseguiram encontrar um equilíbrio de fato, um feminismo positivo e libertador, mas que não assuste ao sexo oposto (ou o mesmo sexo.. correção: que não afaste qualquer possibilidade de um relacionamento!). Ainda estamos tentando equilibrar uma revolução que começou há várias décadas, e ainda está se assentando. É isso. E tempo, claro.

  9. Luciana disse:

    Mariana, cara, interessante como eu um ponto de vista seja sempre a vista de um ponto. Porque já eu acho que vivemos um tempo de pouco feminismo. E acho que a falta de jeito das duas moças do post tem pouca relação com o feminismo e muito mais com estilo pessoal. Explico: diz o Alex Castro (de forma bem pertinente) que a gente conhecer uma feminista chata indica apenas que aquela pessoa é feminista E chata, não que é chata porque é feminista. É um relação de adição e não de causa e efeito. Um outro exemplo: violência nos estádios. As pessoas são torcedoras de algum time E violentas, não são violentas porque torcem por time A ou B. Se não houvesse mais futebol eles estariam brigando pelo tipo de carro, pelo lado da rua ou qualquer coisa assim. Enfim, as moças do texto não tiveram timing nesses contextos específicos. Ninguém pode saber, inclusive, se na relação anterior ou na posterior elas não tiveram um ritmo perfeito. A vida é circunstancial, né?

    E já que o tema está em aberto, eu sou mulher, feminista e não tô sabendo de nenhum homem assustado comigo. Tem os que se interessam, tem os que querem, tem os que não. Isso, de forma pessoal. De forma estrutural perder privilégios é sempre assustador e indesejável.

    Foi um comentário longo, sorry. Mas eu acho que devemos estar atentas mesmo. O feminismo anda sofrendo um discurso do tipo: ok, foi legal, mas tá superado. Eu acho que não chegamos nem perto do necessário

    • Fiz o comentário do feminismo em função do primeiro comentário de “Ai ai ai”! Porque, como disse, entendi que tu tratou de estilo pessoal, personalidade, e não de feminismo. Maaaas, já que o assunto havia entrado em pauta decidi por uma vista de ponto a mais, justamente por concordar que o assunto não está superado. Como disse, ainda não nos assentamos.

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