Traição – O Nome do Jogo

Por Renata Lins*

“Traição”.

Pausa.

Vamos de novo, com mais vagar: traição.

Pausa de novo, pra você ter tempo de pensar.

Pensou? Feridas nunca curadas, amizades destruídas, ser passado para trás, duelos de espada … ? Bom, tem isso tudo também. Mas o que a gente quer tratar aqui é, biscatemente, a traição amorosa. Ou o que chamam de traição amorosa. Porque, claro, chamar de “traição” já dá um peso. Já legitima. Já justifica tanta barbaridade. Traição é o que de pior pode acontecer. Uma palavra feia. Uma palavra dura. Palavra sem volta. Julgamento inapelável.

Nossa sociedade estruturada em torno da propriedade privada e do seu simbólico transfere, sem nem piscar, o direito de posse para a relação amorosa. Meu marido.Minha mulher. Meu namorado. Minha noiva (inda existe isso, né?). Numa relação amorosa, dor e delícia, sonho e desejo, entra primeiro o possessivo. Entra com tudo. E com a exclusividade. Porque amigo também é meu: mas é meu e pode ser seu, dela, dele também. Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.

Não é, portanto, a questão da intensidade, como poderia parecer: o que diferencia o relacionamento amoroso do amor-amigo na chamada sociedade ocidental é a necessidade que ele seja único.Que supra tudo. Que dure. Que tenha paixão. Sexo selvagem. Filhos. Tanta coisa. Tanta, tanta coisa. Coitada da relação amorosa: muito peso pra ela. Muitas exigências.

Vi na semana passada o programa do Pedro Bial (Na Moral, of all names) que “discutia” traição. Lá havia um casal que estava junto há, se não me engano, 52 anos. E, segundo disseram, sempre foram um do outro. Sem trair. Sem escapadelas. Foram aplaudidíssimos. “Parabéns!”. Emoção, alegria, uma filha linda. Conforto para os telespectadores, moral da história e do programa: o ideal é mesmo ficar junto e ser fiel – mesmo que a gente faça de conta que tá abrindo a conversa.

Era um casal bonito, e parecia feliz. Não quero falar do casal, e sim dos aplausos, que me deixaram pensando. Aplausos pela vitória. Pelo esforço. Pelo sacrifício. É, gente, não dá pra negar: é um sacrifício, sempre. Se você é interessante e interessado. Se você está na vida e gosta de gente… você sempre encontra. Um olhar, um sorriso. Umas letrinhas, como dizia uma amiga que se encanta com textos alheios. Você pensa “e se…” e no “e se” está contido um mundo de aventuras. Junto com a sombria palavra traição.

Com ela, a idéia de traição, vem o medo da liberdade do outro. A necessidade de vigiar. Ah, pra isso, a era internética é fantástica. Fica fácil. Como no caso daquela moça que se desesperou ao fuçar as mensagens do celular do namorado. Fuçar as mensagens do celular? Imagina você fazendo isso com um amigo – a invasão, a falta de respeito à privacidade. Não aconteceria. E, acaso você não resistisse a dar uma olhadela, seria por diversão. Provavelmente nem mencionaria. Já na relação amorosa, a pessoa se acha no direito. Não só de ler, mas de fazer barraco caso leia algo que não esteja a seu gosto.

Antes mesmo dos tempos hiperconectados, já haviam me contado aquela história da moça que foi olhar o extrato do cartão de crédito do namorado. Surtou com ele: tinha feito uma compra na rua que era a rua da ex. Muito estranho isso. O que é que você estava fazendo naquela rua. E … dá pra imaginar como continua. E como é absurdo. Olha o tamanho da maluquice: o cara tinha feito uma compra numa loja situada na rua em que morava sua ex-namorada!!!!

Tem também o contrário do surto: o silêncio, a mágoa contida. Digna. Elegante. Mas como dói. Tudo isso por conta da droga do medo de ser traído.

E aí, tantas separações. Tantos machucados. Tantas brigas, tantos soluços, tantas portas batidas. Tantas culpas por não ter resistido. Tá certo, eu errei. Não era, não devia ser. Foi só uma vez. Eu prometo, não vai mais acontecer. Eu tava frágil, você tava viajando. Eu tava carente. Ele que quis, me provocou.

E nunca: eu tava feliz. Eu tava bem, eu tava bonita. Eu encontrei e tive vontade e fui. Porque aí não. Assim não pode, assim não dá. Traição é o nome do jogo, e o mínimo que se pede é a culpa. Não fica nem bem.

Num mundo em que a propriedade privada é totem, amigos se pode ter muitos. E com eles se festeja, se chora, se vive a vida. Amigos ficam e podem, sim, ser pra sempre. Pra uma vida inteira. Porque amigos, a gente compartilha e multiplica.

Amores? Relações amorosas? Às vezes são pra vida inteira. Mas é tão difícil. Implica tanto. Tanto a fazer, mas tanto também a deixar de lado. A não viver. A não experimentar. Tanto que, quando a gente encontra um casal que está junto há 52 anos, não resiste: aplaude. E o aplauso nos traz de volta para a zona de conforto. Aquela que nos impede de pensar “e se”. Se eu tivesse ido, testado, experimentado. Se eu tivesse ousado. Mas tem a “traição” no meio.

Ninguém quer ser “traidor”. Mesmo que o que se chama de traição seja um tipo de honestidade. Com nossos próprios desejos. Com nossa própria integridade, nossa própria liberdade. Que tenha como arcabouço uma ética que não inclua a hipocrisia amorosa. Até porque, né. Nada é assim preto no branco. Tem zonas cinzentas, tantas gradações. Tem os que são, é certo; mas também tem aqueles que talvez. Aqueles que quem sabe. Aqueles que às vezes. Aqueles que não era pra ser, mas. Aqueles que quando viu, já foi. Aqueles que a gente nem viu quando foi. Aqueles que um dia. Amanhã ou depois. E aí, como fica?

*Renata Lins agora escreve aos sábados no nosso clube. Carioca tranquila e bem humorada, economista e tradutora, que já esteve exilada, socialista e de uma sensibilidade ímpar, apaixonada por livros, filmes e música e que, acima de coisas, gosta de pessoas. Saiba mais dela no seu blog Chopinho Feminino ou a acompanhe no tuíter @repimlins.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
Esse post foi publicado em biscatagi, desejos de biscate, memória biscate e marcado , , , , . Guardar link permanente.

32 respostas para Traição – O Nome do Jogo

  1. Adrianne disse:

    Rê, que que é isso de bão demais que é seu jeito de escrever, assim tão dum jeito que fala as gentes?! bjos

  2. Paula disse:

    Tava conversando exatamente isso com meu marido essa senana. Sobre a possessividade q a gente costuma exercer sobre o outro. Concordo com cada vírgula.

  3. eagora disse:

    Concordo, concordo muito. Só o que me incomoda é que a traição masculina ainda é tão bacanamente relevada, sabe? Tudo isso que vc disse válido, mas pra maioria válido pro homem!… E daí que pra mim não rola… Tenho um hábito qdo chega aquela parte em que o relacionamento fica “sério”, ou qdo bate a insegurança, de oferecer na lata relacionamento aberto ou não? A maioria dos homens com quem me relacionei, mesmo aqueles que já tiveram relacionamentos abertos, dizem não. E eu acho que não por acaso os que já tiveream relacionamentos abertos são os primeiros a trairem e qdo são deixados são os primeiros a se magorarem profundamento qdo veem a parceira com outro, como se fosse uma espécie de traição… Enfim, apenas fazendo contrapontos, no mais pessoas e relacionamentos conhecemos em qualquer lugar, mesmo e vai da vontade de cada um tanto pra uma coisa qto pra outra…
    Só não acho justo esse cabo de guerra, eu posso elA não… E que é comum ao meu ver…

  4. Carol disse:

    fantástica reflexão
    fiquei com gostinho de quero mais x)

  5. Raquel Stanick disse:

    arrepiei aqui…

  6. Silvia Sales disse:

    Rê, delícia de texto. Quero mais, agora sobre a dor daquele que se considerou “traído”, que sacou o ‘jogo’, mas que magoou, chorou. Sentiu o baque, apesar de. Olha, eu sempre achei que a traição de amigo é pior, muito pior, pq você acaba deduzindo que ele nunca foi seu amigo, acho. Diferente da ‘traição’ amorosa. Porque essa, mesmo que você passe pelo período da inconformidade, você sabe que foi amada, desejada. Só que isso é finito. Não é pra vida inteira. Debate longo. Olha, meus aplausos, amiga. Beijão.

    • Gracias, Silvinha. E… isso aí é toda outra conversa… Aqui eu tava tratando do significado da relação, esse negócio de que tem que ter posse envolvida. A questão prática, de como a gente, que foi criada nessa sociedade maluca em que “relação amorosa” implica “ser dono”, em certa medida, lida com isso tudo, são outros 500… não me aventurei por essas plagas… beijos!

  7. vitor de souza disse:

    Achei bem legal, essa idéia que você passa no texto de posse e a relação da sociedade com isso., concordo.
    Mas descordo na parte que você tenta relativizar a traição (corrija-me se eu estiver errado). A traição seja ela qual for entre amigos, familiares, relacionamentos amorosos, ela é errada pois você quebra uma cosia chamada confiança.
    E focando mais na parte do relacionamento amoroso, antes de você começar a namorar, o individuo creio eu que todo mundo conversa sobre o que vai ser pautado o rumo da relação, e que as pessoas já se conhecem minimamente. Se a as duas pessoas optarem por um relacionamento aberto, ótimo esse sera o modo de que será seguido.
    Todo mundo comete erros a maioria das pessoas infelizmente já trairão ou já foram traídas, a primeira coisa que a pessoa deveria fazer ao trair era contar primeiro ao parceiro\a traída/o para conversarem e consertar a situação. Essa coisa de não vou negar o meu direito de sentir prazer acho esse discurso defeituoso e egoísta, em relacionamento fechado. Tudo na vida é sacrificio quando escolhemos certo caminhos nós temos que sacrificar outras coisas. Bem gostei muito do texto, e eu como homem depois que comecei a ler mais sobre o feminismo pude entender melhor certas situaçôes do universo feminino e enxergar coisas que antes não via. Abraços.

  8. Pamela disse:

    Texto lindo, amei;

  9. Silvia Badim disse:

    clap, clap, clap! bem vinda ao clube, arrepiando a gente, fazendo pensar e questionar os totens das possessividades e latifúndios afetivos-sexuais. como no meu post sobre fidelidade, eu acredito sim em fidelidade, fidelidade para a vida. escolhas, por vezes. mas que seja sempre em nome do desejo e da felicidade. e sem que a gente se negue, se massacre, se culpe, se perca da gente mesmo. puta desafio né?! bora pensar mais!

  10. sobre relativizar a a traição- não acho que seja relativizar, mas ser menos hipócrita ao assumir que em primeiro lugar, sempre, a gente ama a si mesmo mais que ao outro, e depois que somos mutáveis, nós mudamos, desejos mudam e a assim as relações mudam, inclusive de amizade. Acho que a única coerência a ser cobrada de alguém, se é que dá pra cobrar coerência em sentimentos, é aquela com ela mesma. Estou coerente com o que quero? com o que sinto? com o que desejo? Estou feliz comigo mesma? ë ao estar infeliz consigo mesma, com o lugar onde se está, o trabalho, a relação amorosa é que magoamos a nos e aos outros. A dificuldade é de lidar com as mudanças nossa e do outro. Mas sabe, mal controlamos a nos mesmos, nunca sabemos tudo sobre nós, eu ao menos me surpreendo comigo mesma volta e meia. Como vou espera controlar o outro? Como vou espera controlar o amor ou a amizade de outra pessoa? ë aí que está o melhor do texto da Renta. ë tudo sentimento de posse, causado pelo medo ad mudança. Quem sabe ao entendermos que a vida é sempre essa impermanência, esse monte de possibilidades, tenhamos menos apego, menos medo e menos conflitos? Menos dor?

    Adorei o Texto, Renata. bjs

    • Iara, você já explicou aí um pouco do que eu queria dizer… e é duro mesmo lidar com as mudanças. A gente muda todo dia, o outro muda todo dia. A gente se apega às lembranças, à história, e enquanto isso a vida corre. A vida não para. A gente vai mudando. E, mesmo que a gente decida não agir sobre o sentimento, sobre o impulso, sobre o tesão, é importante, acho, reconhecer – mesmo que seja só pra gente mesma – que ele existe. Poder olhar pra isso com tranquilidade, poder escolher não agir, por um motivo ou por outro.
      O que me impressiona é o tanto de vezes em que as pessoas nem aceitam admitir que isso existe, que é uma possibilidade de todo dia… a culpa vem antes…

  11. Dandi Marques disse:

    Renata, que texto lindo! me deixou meio sem palavras de cá. Estarei sempre por aqui aos sábados. Beijos!

  12. Gente, fiquei tão feliz com os comentários. Muito obrigada a todo mundo que comentou, mesmo. (Le amo também, Falzita. :)). Queria me deter aqui mais particularmente nas questões levantadas por eagora e por Vitor.
    Eagora, acho que sim, você tem razão quanto ao fato de a fidelidade ser mais cobrada da mulher do que do homem. O que eu tava aqui tentando discutir, no entanto, era uma questão que tem a ver com todos (mulher, homem – hetero, gay). Não por acaso, os dois exemplos (reais) que dei envolviam mulheres: justamente pra deixar claro que, na minha opinião, é uma questão muito mais social do que de um sexo específico. É claro que quem consegue impor mais o faz: mas as mulheres estão tão envolvidas com a questão relacionamento/ traição quanto os homens…
    Vitor, acho que a Iara já respondeu, em parte, por mim: e queria deixar claro que esse texto não é uma proposta de ação. Não é uma “aula” sobre nada. Cada um sabe onde lhe dói o calo. O que eu pretendia discutir aqui era a questão mais geral que é justamente a idéia de que relacionamento amoroso tem que implicar fidelidade absoluta, ou o calabouço. E do tanto de sofrimento que isso gera. Mas não tenho solução pra isso, só constato o imbroglio em que a gente tá metidos – a gente, como sociedade. Porque desejo, atração, encontros, acontecem todo dia. E o que a moral e os bons costumes da nossa sociedade fazem é querer que a gente simplesmente ignore isso, que a gente finja que não tá acontecendo nada… ou então é “traição”. Mesmo as propostas de relacionamento aberto, uma forma de lidar com isso, não estão isentas de dor e de sofrimento: Simone de Beauvoir que o diga. Mas tentam.

    • vitor de souza disse:

      Sim entendi, você quis discutir o lado sentimental em que a maioria das pessoas são pegas, e está a todo tempo exposto a encontrar alguém interessante. Realmente é algo complicado você lidar com sentimentos e tentações, por isso que eu tenho a opinião que relacionamentos de que natureza for seja ele fechado, aberto, liberal, etc, a pessoa tem que ter um certo nível de maturidade, para saber lidar com essas a”adversidades” no meio do caminho da melhor maneira possível para ela acima de tudo e para o outro. Essa coisa de relacionamento é coisa para adulto (embora nem sempre maturidade esteja aliado com idade). Me desculpe se te entendi errado, é por que estamos em uma sociedade hoje muito individualista e egoista, e as pessoas acabam querendo fazer certas coisas encima desse discurso de “meu prazer primeiro” e elas acabam atropelando sentimentos de outras sem pena. E muita das vezes fazem isso encima de pessoas que confiam nelas, acho isso uma coisa bem desleal e feia, mas da para se consertar tudo com bastante franqueza, com você mesmo e os seus sentimentos e conversando com o seu parceiro ou seja lá quem for. Abraços.

      • Sim, era mais por aí. Não pretendo (imagina, quem sou eu) ensinar ninguém a fazer nada. Mas acho que o peso que se coloca sobre a idéia de “traição” amorosa faz com que fique muito mais difícil para todos os envolvidos lidar com os fatos e os sentimentos.
        Um abraço!

  13. suzana Dornelles disse:

    Parabéns pelo texto, pela sensibilidade, pela clareza, Renata!

  14. Bárbara disse:

    Aplaudo de pé. E assino embaixo. Disse tudo o que eu também acho, mas com uma poética que eu não alcançaria. Bravos, guapa 🙂

  15. Vanberto disse:

    Gostei muito do seu texto, é muito elegante e corajoso. Mas, por favor, permita-me defender um ponto de vista. Só uma pergunta: se a idéia é experimentar, vivenciar, experienciar, aprender, inovar, terminologias estas curiosamente ligadas a uma linguagem corrente de mercado, por que se prender a uma pessoa? Espero que não se importe que eu compartilhe, neste espaço caleidoscópico, uma definição de relacionamento amoroso: para mim é muito mais do que sexo, do que amor próprio ou alheio; mais ainda do que experiência; está a anos luz de regras ou convenções. Amar alguém, amar intensa e verdadeiramente, é ser cúmplice: amantes são “partners in crime” me lembra uma canção. Traição é algo que pode acontecer com qualquer pessoa, eu mesmo já traí amigos e o admito sem remorso porque reconheci meus erros cara-a-cara. O problema não é trair, enquanto ato, mas se utilizar da traição para sublimar problemas, culpando, antes de tudo, ao parceiro ou parceira a despeito de admitir que o problema é conosco mesmos, porque sempre é conosco mesmos antes de mais nada. Esse tipo de brincadeira com os sentimentos alheios, esse tipo de traição é desprezível e abominável, demonstra imaturidade e covardia e estas sim são faltas muito mais sérias do que traição, muito embora você não as tenha mencionado no seu texto. Veja, todo mundo acha que perdão é algo cristão demais e, por isso, não é valorizado. Bem, você já pensou que perdão é também uma forma de vingança? Da mesma forma, todo mundo repudia um ato de traição com o outro, mas ninguém se dá conta de que estamos sujeitos a trairmos a nós mesmos. Quando fingimos que gostamos de alguém só pra uma trepada e depois vamos atrás de outrem, nos sentimos culpados porque achamos que traímos o outro. Na verdade, nós traímos a nós mesmos porque somos covardes demais pra admitir que o verdadeiro canalha não é aquele que se deita com muitas mulheres ou aquela que se deita com milhares de homens, nem o homem que se deita com vários homens ou mulheres com várias mulheres. Verdadeiro canalha é quem não assume sua canalhice e fica arrumando desculpinhas pra se sentir melhor com os outros, pra ser aceito no grupo, pra não magoar os outros, quando deveria buscar se sentir melhor consigo mesmo pra que possa fazer com os outros se sintam bem. Eu não gosto da obra de Nelson Rodrigues, mas ao menos o filho da puta admitia que era um canalha, machista e sádico. Ninguém que estivesse com ele poderia negar sua sinceridade da mesma maneira que não poderia reclamar se fosse traído ou traída por ele. O problema, Renata, parece residir muito mais no medo da sinceridade do que no fantasma da traição.

    • Vanberto,

      há tantas coisas no seu comentário das quais discordo que nem sei por onde começar direito. Talvez do princípio. Vamos lá. Amar alguém e querer ficar com ela não é o mesmo que “prender-se”. Ou não precisa ser. É justamente da idéia de relacionamento como privação que vem todo o resto do seu discurso que é tão diferente do meu. Continuemos. “Amar é (insira aqui qualquer coisa” é uma limitação de todas as outras experiências humanas. Amar é uma construção individual suportada por uma experiência cultural. Amar depende da época, da geografia e de muitas outras variáveis sócio-históricas. A definição que você propõe é a sua e serve exatamente pra uma pessoa: você. Julgar e enquadrar os outros na nossa própria experiência e ou desejo é uma violência. E é arrogante. Aí concordo com você: o problema não é trair. Mas concordo só na frase, não no resto do raciocínio. O problema não é trair, o problema é convencionarmos socialmente que é traição permitir-se vivenciar o amor, o afeto e o desejo com mais de uma pessoa. Em nenhum momento foi dito, no texto, que a culpa é do outro. O que foi dito é que não precisaríamos sentir culpa. Que interessar-se, desejar, amar não deveria ser visto como um problema, nem nosso nem do outro. O resto da conversa sobre fingimento, canalhice, covardia, etc. não sei como você trouxe pra essa discussão. O que o texto da Renata e, de forma geral, os textos desse club expressam é uma vontade de autenticidade e respeito ao desejo, ao nosso e ao do outro. Eu não conceituo canalha. Dizer “um verdadeiro canalha é (insira aqui as características” é a mesma violência de definir o amar, é um desrespeito aos medos, as vivências, à vida e ao sentimento dos outros. Por fim, sempre é bom fazer uma diferença entre a obra e a vida de uma pessoa.

    • Caro Vanberto, minha resposta está abaixo da da Luciana. Veja lá, certo? Um abraço!

  16. Vanberto, acho que a Luciana já respondeu parte do que eu iria dizer, talvez de forma mais apaixonada até do que o faria… gostei do seu comentário, que também achei corajoso e honesto, aqui nesse espaço que é de trocas e de discussões mesmo. Vamos lá. Queria dizer, como já tinha dito em comentário acima, que não tô aqui pra dar aula nem pra pregar moral pra ninguém: não suporto que façam isso comigo, não o faria com outros. O ponto do meu texto – ou melhor, o meu ponto no texto, que depois que vai pra vida se solta e adquire tantos outros quanto são os seus leitores – é comentar uma tensão permanente na sociedade em que a gente vive entre amar, viver, e o que é convencionalmente chamado . Você haverá de notar que mencionei brevemente as horrendas consequências que podem advir do peso social dado ao “chifre” e à “traição (aqui, logo no começo: “Porque, claro, chamar de “traição” já dá um peso. Já legitima. Já justifica tanta barbaridade. “) . Mencionei brevemente, mas na minha cabeça estavam Lindomar Castilho, Doca Street e tantos outros. Lembro tanto do julgamento público e televisionado de Doca Street e de Evandro Lins e Silva, por quem eu sempre nutri tanta admiração, defendendo veementemente a tese de “legítima defesa da honra”. Violências, mortes. Tantos absurdos socialmente justificados pelo peso indevido dado à idéia de traição. Era disso que o texto falava, ou pretendia falar. Desse tabu que tem que ser trabalhado, que tem que ser discutido. Não pregava, repito, o poliamor ou a relação aberta como regra de conduta pra ninguém. Cada um faz do jeito que bem lhe aprouver e para cada pé um sapato a seu gosto. O que eu problematizava – e problematizo – é o estigma que acompanha a mera idéia de interesses e afetos por alguém que não seja seu/sua companheir@ “legítim@”. Minha vontade era que a gente encarasse isso com mais leveza. Com mais tranquilidade. Com mais franqueza. Com mais sinceridade.
    Um abraço, e espero que volte ao nosso espaço. Contraditório: trabalhamos. E só nos faz crescer, acho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s