Já pagou o seu preço hoje?

Fique linda usando apenas estes produtinhos que custam metade do que você ganha. Emagreça com saúde (!)  até 5 kg por semana com a dieta protéica de Saturno. Siga determinada conduta e seja querida e admirada por todos. Fique rica e bem sucedida antes dos 30. Arranje “o gato” dos seus sonhos com o nosso mais novo manual de sedução da mulher antenada. Insira sua fórmula de perfeição aqui e mostre ao mundo como dá para ser muito feliz e que só não é assim quem tem má vontade.

Uhum. Já comprei essas ideias muitas vezes. E tenho certeza que muita gente que tem a oportunidade de ler este post também. E, se reconfortante for, a culpa não foi e nem nunca será nossa. Existe uma série de mecanismos bem articulados que corroboram para isso em nosso cotidiano. Por mais que pareça estar tudo OK em nossa vida, sempre haverá um filme, uma revista, um programa de TV ou alguém muito intrometido (e metido) insistindo em nos dizer: “ei, você tem mudar isso aí, poxa. Num casou ainda? Tá errado, não é assim que se faz. Você não deveria agir assim. O que os outros vão pensar? Você tá gorda, hein? Poxa, que roupa cafona…”

E como tais ideias fazem sucesso! Fico pasma quando paro para pensar nisso, ou quando vejo que eu mesma sou a vítima. Quando começo a me sentir mal por não conseguir ser exatamente o que esperam de mim. Ou quando começo a enxergar defeitos no meu corpo porque aquela saia da vitrine do shopping não caiu bem. Ou então quando lembro que me sentia “incompleta” as vezes, pelo simples fato de estar solteira.

Antes, na época das nossas avós, nos cobravam a castidade. Mulheres que não eram mais virgens não “serviam” para mais nada. Antes, mulher que não era boa dona de casa estava condenada à “solidão eterna”. Afinal, que homem que se casaria com uma mulher que mal sabe como fritar um ovo? Antes, nós mulheres não podíamos sonhar em ser astronautas, engenheiras, pilotos de avião, presidentes de nações, médicas, atletas, policiais, cientistas, designers, juízas…

Ainda hoje, mesmo que muita coisa tenha mudado, há quem pense que mulher que é dona do próprio corpo não “presta”. Biscates, essas vadias que nunca entendem onde é o lugar delas. Mesmo depois de tanto tempo, de tantas lutas e de tanto espaço que conseguimos. Por mais difícil que seja de acreditar, há quem diga que mulheres não são tão boas profissionais quanto os homens. E, mesmo que hoje nós possamos, teoricamente, ser o que bem entendermos… Ainda ganhamos 30% menos do que os homens. Ainda que sejamos maioria nas universidades. Ainda que tenhamos tripla jornada de trabalho e que isso seja visto como “normal”. É o preço que se paga por tanta independência.

Agora, as cobranças são outras. Aliás, diria que são as mesmas de antes, só que “reformuladas” pelo contexto histórico contemporâneo. Todas nós temos que ser bonitas, passivas, discretas, comedidas, monogâmicas, heterossexuais, magras, de cabelo liso, maquiadas e ter roupas da moda. Devemos trabalhar o dia todo fora, estudar e quando chegarmos em casa, arrumar tudo, preparar comida, lavar roupa… Porque é nossa obrigação. Quer ajuda (leia-se divisão justa do trabalho)? Ah, contrate uma empregada e pague um salário ridículo para ela. É que o homem, tadinho… Não sabe cuidar da casa como você cuidaria!

Ser mulher custa bem caro. Se for biscate então, mais ainda. Mas não falo aqui do quanto a gente gasta para tentar se adequar a tudo que exigem de nós. Falo do preço alto que envolve tentar (mesmo que aos poucos) romper com o status quo. Falo da coragem que a gente tem que reunir incansavelmente para enfrentar tudo que nos cobram. E falo, principalmente, dos juros, à longo prazo, que teremos de pagar…

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Cláudia Gavenas

Paulistana, 26. Designer, gateira, feminista e musical. Meio perdida na vida, mas não tem certeza se realmente quer se encontrar...
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