E Quando Acaba?

A música começava assim; “eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar…” e quase não precisava de mais nada, você já sabia que o tadinho do cara estava era lascado mesmo, afinal aquela voz de Dolores Duran arrastando-se não prenunciava boa coisa.

Música e dor de cotovelo sentida ou causada parecem uma combinação quase perfeita. Eu sei e não sei disso. Sei porque adoro uma música desse naipe. Fico toda arrepiada só de lembrar a Maysa e sua voz quente e clara quase soletrando “é que isso acontece porque vou passar minha vida esquecendo você” ou a Elis rasgando tudo “te adorando pelo avesso até provar que ainda sou tua”. Sei também porque tenho amigas e elas, vez em quando, dizem: “ai! (sempre tem um gemidinho antes) essa música parece tanto quando eu e o fulano terminamos”. Sem falar as incontáveis trilhas sonoras de filmes e novelas, de bom (e às vezes nem tanto) gosto.

E não sei da combinação música/dor de cotovelo porque nunca fui boa em sofrer por fim de relacionamento. O mais que rendeu foi: a) uma carta até fofa, dividida em capítulos e que continha a pérola: os dezesseis dias seguintes ao fim do nosso namoro… pode rir, pode rir, isso mesmo, eu escrevi “os dezesseis dias seguintes”; b) uma noite com três cigarros, trancada no quarto, ouvindo na radiola (mais risos, eu sei) o LP (mais pausa para as gaitadas) Drama 3 ato da Maria Bethania e c) uma viagem sobre o Atlântico porque chorar no travesseiro é quente, mas não tão divertido quanto ouvir Lucciana no pé do ouvido com aquele sotaque delicinha. E só. Mesmo. Podem perguntar por aí. Se você pensa que meu coração é de papel… talvez ele seja!

Não costumo sofrer quando acaba, mas explico, é que se tiver que dar uma dorzinha, dá logo ali, no durante, eu sinto os percalços na hora exata em que machucam. Passou? Pois passou. Também, devo confessar que não fui muito testada, pode até ser que ainda passe um trator na minha vida e eu volte aqui toda alcione e fafá de belém. Mas até agora eu já cortei mais do que sangrei e olhe que nunca foi intenção andar com punhais. Mas, então.

Eu sempre ficava um pouco chocada com a dificuldade que as pessoas pareciam ter de simplesmente seguir em frente. Porque é assim que eu faço. É que sou meio Wolverine nessas recuperações de dor de amor. Como faz tempo que eu intuí que relacionamento é um troço impossível – tem uns que dão certo só pra sustentar a regra que toda regra tem exceção – não me lembro de um tempo em que eu tivesse expectativas do tipo: “agora vai”, “é esse” ou coisa que o valha. Hoje, continuo dando ratas, pisando na bola, enfiando o pé na jaca, essas coisas: por exemplo, encontro uma pessoa uns quatro, cinco meses depois que um relacionamento acabou e ela me diz o quanto ainda sofre, aí me dá um oco no juízo e eu digo: ué, mas já faz tanto tempo… como se o relógio de todo mundo corresse igual. Alô, biscate (sou dessas, puxo minha própria orelha), e liga que você não é régua de nada, o tempo de cada um corre conforme quer e pode, eu sussurro pra mim e vou tentando aprender.

É que nos meus envolvimentos, eu vou vivendo o que está sendo. Tem hora que eu penso que amar é justinho como comer: gostoso devia ser o critério principal. E não acho que exista um modelo de relacionamento feliz. Não acho que existe um jeito melhor, que serve a todos e que se sairmos ligando os pontinhos vamos sair do labirinto. E se não há um relacionamento certo, viável e feliz garantido, porque eu deveria doer por este, concreto, real e historicamente delimitado? Não há nada, acho eu, que um relacionamento deveria ser. Ele é o que é, inclusive sua ruptura. Isso é libertador, porque elimina parâmetros de comparação e queixas sobre metas e sonhos irrealizados.

Sabe a frase inicial (brilhante) de Anna Karenina? “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”? É o mesmo com os relacionamentos amorosos – só que praticamente pelo avesso. O que vai dando errado nos ensina. A gente vai percebendo o que não funciona com a gente. O que nos dá prazer é, quase sempre, descoberta. Imprevisível. O que nos encanta e envolve está ali, tão perto e, ao mesmo tempo, sob um véu que costumamos chamar amor.

Porque a gente ama? É sempre difícil falar de amor. Diz Lacan (aquele biscatinho nhami,nhami – cês já viram a foto dele sem camisa, fumando e tomando sol?) que é impossível, mas é do cerne do humano tratar do impossível. Aí estão os poetas, que não me deixam mentir, rimando e rimando para escamotear que não há palavras para dizer o desejo. É impossível falar de amor, talvez, porque dizer do amor é dizer da falta que o estrutura e da entrega que o mantém: “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Não quer porque o que lhe falta não é o mesmo que nos faz incompletos e que supomos que ele anseie. Assim, oferecemos o que sobra ao Outro pensando suturar uma ausência. O amor remete ao vazio e é pelo vazio diariamente convocado.

O amor vem falar do que nos diferencia, do que nos faz únicos: o meu amor sou eu, irrepetível. A falta que se faz amor é constitutiva do ser humano. O amor é pra trás, está lá, na memória, o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi. Chegamos atrasados ao nosso amar, é isso. Procuramos nos alcançar e ao que sentimos, mas quando damos nome, quando batizamos o sentir, é aí que o perdemos, porque o que podemos falar não consegue dizer de tudo que é. Amar é solitário. Por sermos únicos, a forma do sentir também o é. E isso faz com que os momentos que chamamos encontros pareçam ainda mais belos.  E, claro, torna-se mais difícil seguir sem eles.

Eu sei, agora pelo outro lado da janela, que quando um relacionamento acaba, quem a gente era naquele relacionamento morre. Isso dói. Às vezes a saudade de quem éramos naquela relação machuca mais que a ausência do outro. E nem sempre conseguimos conviver com o fantasma de quem fomos. E, quase sempre, é mais de um fantasma. Porque morre quem a gente era e morre também quem a gente acha que seria. Morre quem a gente planejou, a pessoa que achamos que seríamos, tão mais feliz, resolvida e realizada do que quem a gente é na vida real. É difícil abrir mão desses eus que seriam tão felizes. É difícil fazer o luto pela relação, pelas esperanças, por nós, é difícil velar esse vazio e angústia que nos ocupam. Mas não é nada difícil, pra mim, entender que, depois do choro e vela, a dor virando memória, as belezas vividas possam manter boas amizades ou, pelo menos, relações cordiais de carinho, admiração e respeito mútuos.

Nisso de relacionamentos com o que já não é, eu costumo ter muita sorte. Sou amiga de vários ex-namorados, ex-marido, ex-rolo, ex-tico-tico-no-fubá. Os que não são amigos, amigos, são contatos friendly. E os que nunca mais vi ou falei, foi por acaso e estradas diversas, mas tenho, por eles, ternura. Lembro carinhosamente os sorrisos todos que eles me proporcionaram. Meus envolvimentos sempre foram bons. Começaram bem, seguiram bem, e, com certa habilidade, bem terminaram. Eu os quis com intensidade quando os queria e não mais quando não queria, mas há que se aprender a cuidar e eu cuidei e fui cuidada. O certo é que fui feliz com estes homens que me habitaram e em quem habitei. Mais ainda, fui alegre.

Mas sempre tive nostalgia de uma grande dor. Romântica de verdade, não esperava o grande amor, mas o grande sofrer. Um tango habita meus íntimos espaços. Eu esperava aquela dor que ocupa as melhores canções, os maiores filmes, as indescritíveis solidões. De vez em quando, suspeito do meu riso e a espreito a alegria, esperando que ela fraqueje e deixe ver que é só um vazio. Mas ela segue, firme. Fui me acostumando a não sofrer e, às vezes, tenho medo de ter me acostumado a não sentir. Quando esse fantasma suge, não tenho dúvida, já logo convoco a Izmália que, ao invés de pôr-se na torre a chorar, foi lá, pegou o microfone e disse a que veio:

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Esse post foi publicado em biscatagi séria, desejos de biscate e marcado , , , , . Guardar link permanente.

8 respostas para E Quando Acaba?

  1. Cris Rangel disse:

    Mas que texto, hein garota? Sabe quando alguém pega bem na jugular? Foi assim que eu me senti agora. Td bem que eu sofro. Eu estou a sofrer um tanto. Td bem que sinto diferente de vc, mas ainda assim ñ tenho como não me ver nas tuas palavras, nas tuas reflexões.

    Beijos e obrigada

  2. Danieli disse:

    Adorei!!!! E digo uma coisa, sofro, mas não por muito tempo, sempre lembro de uma música do Alceu Valença chamada “na primeira manhã”. E deste jeito acabo garimpando tudo que aconteceu, jogando fora o que não foi legal e ficando só com o que foi bom!

  3. Aurora disse:

    Lindo texto. Eu nasci com vocação indiscutível para o sofrer, interessante ler uma perspectiva oposta.

  4. leticia disse:

    Amei o texto (pra variar…sei).
    Mas dessa vez vou fazer um comentário mais longo um pouco.
    Tenho inveja de quem segue em frente…acho que nunca sigo…sou muito apaixonada por sofrer…mesmo sem querer claro….mas há essa parte que se apega ao passado de tal forma que simplesmente se recusa a seguir em frente.
    Por isso tive poucos namoros…que duraram bem menos que a fossa em nome deles!!
    Já sofri 2 anos completamente sozinha por um cara que namorei 6 meses!!!! Rs agora dá vontade de rir. Mas só agora.
    Agora deu vontade de escrever um texto de sofredora biscate pro blog!!
    Beijos e mais beijos

  5. lena santos disse:

    Lindo esse texto eu, gosto de não sofrer por amor …

  6. Minha nossa, que texto maravilhoso! Suave e tão forte ao mesmo tempo. Um dos melhores que já li. E me vi nas linhas, certamente
    Obg!!

  7. Tem gente que tem um certo apego ao sofrer. Talvez pelo medo desse fantasma do vazio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s