A Moça Feia da Ponte

Cora Coralina é goiana conhecida em muitos rincões do país. A sua poesia que retrata os costumes goianos de certa época, que desenha a cidade patrimônio, que enaltece os doces nos tachos nem sempre foi literatura de moça direita. Aliás, desconfio que Cora nunca foi o ue se convencionou chamar moça direita.

Escrever poesia é mister de homem. Pensar, sonhar, desejar, amar também são verbos que só os senhores masculinos podem conjugar. Quem disse? Muita gente disse, mas Coralina não ouviu. A moça feia da ponte só conseguiu escutar o que sua alma lhe dizia: não se subalterne, seja feliz.

Ela foi Aninha e Cora. Ana de batismo, Cora de guerra. Aninha estava sob o jugo do pai e da sociedade conservadora vilaboense. Cora publicava poemas em jornais e montava seu próprio. Foi Cora quem fugiu com o homem divorciado da cidade. E depois voltou para ser aclamada a “maior poetisa de Goiás”.

Rimando as dores de uma sociedade hierarquizada, em que as mulheres estavam invisíveis debaixo de tantos panos e trancadas em suas casas; Ana ou Cora, ou ambas, sabia que não era daquele tempo.

Alguém me retrucou.

Você nasceria sempre

antes do seu tempo.

Não entendi e disse Amém”.

Uma mulher que ousou dizer não e sim, tudo ao mesmo tempo. Amou, fez doce e poesia e encantou o poeta Drummond:

“Minha querida amiga Cora Coralina Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia …”

Vinte e sete anos desde que Cora não percorre mais os becos de Goiás. Mas, ainda hoje, é possível encontrar quem a trate como uma pecadora.  Biscatagem não tem época, assim como os julgamentos morais e o discurso conservador sobre as mulheres que se desejam livres. Quem não (re)conhece sua poesia, se limita a perpetuar um machismo rançoso que quer fazer de sua liberdade algo de que se envergonhar.

A poesia de Cora Coralina é de orgulhar os brasileiros e brasileiras, revelando o que há de mais profundo nas relações pessoais no interior desse país.  Além disso, me orgulho de ver em Cora uma biscate em seu tempo.

.

* Lis Lemos é nascida no cerrado, escolheu viver perto do mar. De múltiplas palavras: jornalista, feminista, mestranda, mas nada disso é importante. O que importa mesmo é a paixão por pamonha à moda, torresmo e cerveja. Ah, e seu amor incondicional pelas pessoas. Todas elas. — A Lis escreve sexta-feira sim, sexta-feira não aqui no BiscateSC.

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"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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3 respostas para A Moça Feia da Ponte

  1. Eliana Klas disse:

    Tenho vindo com frequencia aqui, e gosto, sempre, do que encontro.
    Eu que em uma só vida consegui ser mãe solteira, divorciada e hoje “amigada” sou a bisca da minha família. E afirmo que valeu a pena. Sou feliz.
    Ler este texto me deu vontade de reler Cora.

  2. Priscilla Cordeiro disse:

    Que coisa linda Lis! Só para constar: a primeira vez que li versos de Cora foi no Presídio Aníbal Bruno, era ela quem recepcionava quem ousava entrar nesse lugar tão sedento de sua sensibilidade e poesia.

  3. Que linda essa postagem. Obrigada por nos honrar com suas palavras, Lis *:

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