Yes, nós temos barriga!

Sim, a gente tem. Uma barriguinha daquelas arroxadas, por vezes salientes, mostrando ao mundo que o corpo é imperfeito. Barrigas de diversos tipos e tamanhos, que acompanham a nossa personalidade, a nossa estrutura física, a nossa sede e a nossa fome de vida. Barrigas que guardam ainda o gosto bom do prazer, de alimentar-se sem pudor, sentindo os sabores humanos e mundanos da vida farta. Barrigas que salivam por aquela cerveja gelada, uma após a outra, desfrutando o sábado e o domingo descompromissado e etílico madrugada adentro. Barrigas de mesa de bar, de feijoada, de carne de sol com mandioca, de batata frita e frango à passarinho, de chocolate derretido entre os dentes, de sorvete duplo com calda, caramelo, e tudo que se tiver direito. 

Claro, eu sei, a gente é vaidoso. E tem uma vida a zelar. Não estou falando do descuido completo do corpo, de se entupir de gordura trans, de descer ladeira abaixo rumo ao desfecho final da saúde. Estou falando de gozo e aceitação, delineando (ou tentando delinear) aquelas prosas bem hedonistas de se querer viver bem, e relacionar-se com o que o outro tem de melhor. Porque companhia boa, e cheia de tesão, é aquela companhia de se desfrutar prazeres. Nada mais bonito do que ver a amada deliciando-se, degustando a vida por entre uma garfada e outra, derramando-se numa cerveja bem gelada sem pressa de ir embora. Vivendo sem culpa, e sem padrão de aceitação. Porque o que importa, mesmo, é outra coisa. É a vida que está lá, ali, querendo ser vivida em momentos de querer, de delícias, de prazeres bem terrenos e finitos. 

E também porque tesão, gente, é mágico. Podem passar mil corpos esculturais, barrigas de tanquinho, pernas torneadas, receitas de aminoácidos e fórmulas de emagrecer, que os pêlos não se arrepiam e a vontade de partilha, ainda que sexual, pode se esgotar na primeira corrida na esteira. O que arrepia, mesmo, é outra coisa. Como diria o poeta, “uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. Porque é nesse algo mais que mora o tesão, o amor, o desejo. A vontade. E nada melhor para despertar esses sentires sem fronteiras do que o prazer compartilhado, com barriga ou sem barriga, rumo aos banquetes fartos. Degustações tantas e aventureiras, gastronômicas-etílicas-sexuais, despudoradas e desavergonhadas, cheias de quereres sem limites de qualquer natureza. 

E é por isso que, aqui, eu reverencio essas barrigas e pessoas maleáveis, convencidas de que a vida está aí para ser desfrutada até a última gota. Esses corpos imperfeitos e que sabem que, no fundo, o sentir não se resume à estética. Corpos que querem sentir o outro livre de qualquer peso moral ou consumista, rotulável por academias e avaliações físicas, por revistas de moda e medidas engessadas de peso e altura. Porque isso, eu bem sei, é um saco. E serve para que mesmo? Para desfilar nas passarelas da vida? O que importa o desfile se a gente não pode gozar o prazer para além das curvas retinhas e bem costuradas?

Como já disse Xico Sá: “Época chata essa.. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. E haja rúcula! A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um torresmo decente, uma costela no bafo (…)”. É isso Xico, vamos incentivar as comilanças, os banquetes bem servidos, a vida farta e avessa ao “arrumadinho” e magro de sentires. Vamos exaltar, repetidamente, o hedonismo que tem que se ter para, minimamente, ter-se uma vida mais feliz, em meio a essas tantas neuroses implantadas em nosso trânsito cotidiano.

Porque biscate que é biscate não se importa com a balança contada. Se importa é com o prazer.

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
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29 respostas para Yes, nós temos barriga!

  1. Aldo Melo disse:

    Adorei! Gosto de mulher sem frescura…Já pensou em escrever mulher só é bom quando é sem frescura… beijos.

  2. E não é que me deu uma vontade louca de ir na churrascaria? Comer sem culpa, sexo sem culpa, vida sem culpa. Perfeito. Amei. Bjs.

  3. Mariazinha disse:

    Eu já desisti de me lutar contra a minha! Adoraria ser um pouquinho + magra (e, no privado, batalho por isso). Mas em público não abro mão de uma cerveja gelada, de uma pipoquinha no cinema…

  4. Deh disse:

    Uma linda ode à barriga – a minha é de pão, é de chocolate, é de batata. Estamos nos entendendo e chegando a um acordo e tô quaaaase feliz. Então é isso que importa, se eu estiver feliz com ela tudo fica melhor – eu odeio ter pancinha (barriga tanquinho/barriga sequinha, pffff, nunca me pertenceu e não me pertencerá, até porque gosto da barriga macia) mas me recuso a abrir mão dos sabores e texturas que me fazem feliz. \o/

  5. Juliana Higa disse:

    lindo, estimulante e confortante em um mundo onde somos massacrados pelo estética…dá até vontade de atacar o saco de sucrilhos sem dó nem piedade…volto daqui a pouco, rs…

  6. Mira Lima disse:

    odeio minha barriga, mas adoro uma feijoada!!! rsrsrs

  7. Clara Gurgel disse:

    Ainnn…”minha vida por um arrumadinho” (no caso aqui, de carne seca com feijão de corda) adoooro!! Sem pecado e sem juízo… delicioso texto, Silvia!

  8. Michelle Borborema disse:

    sabe, acho que não existem barrigas perfeitas ou imperfeitas. assim como há vaginas de diversos modelos e formatos, nossas barrigas são bonitas e perfeitas como são.

    temos que abandonar a ideia do “belo” como uma coisa só. mas é tão difícil, né?
    enfim, acho que biscate que é biscate é feliz como quer. se você quiser ter uma alimentação legal, tenha. se gosta de fazer esportes, faça. se curte uma barriga de tal formato, vá lá. isso também é prazer pra muitas.

    agora, buscar algo sem desejar verdadeiramente é chato. por isso devemos pensar um pouco.

    • Silvia Badim disse:

      eu também acho! é um pouco a coisa do rótulo né? somos todos imperfeitos, perfeitos, é preciso desconstruir essa ideia de que o “perfeito” é o esteticamente aceitável pelos padrões da sociedade. esporte é bom, comer é bom, cuidar-se é bom, eu também acho. o problema é a beleza inalcançável. às vezes as que mais malham, e buscam o “perfeito”, são as mais insatisfeitas com o próprio corpo, já reparou?

  9. Michelle Borborema disse:

    é, é verdade. a gente tem que se amar, cara.
    chega! 🙂

  10. Sueli disse:

    E eu aqui toda chorosa pq engordei uns quilos e a minha está mais saliente rs. Obrigada! =)

  11. Diana Helene disse:

    muito bom o texto, me irrita como as pessoas não admitem as mulheres terem barriga… as vezes eu até acho q elas perguntam se a gente está grávida só para encher o saco mesmo! Fiz um cartum sobre isso uma vez:
    http://crocomila.blogspot.com.br/2012/04/gente-tambem-se-parece.html

  12. Camila disse:

    Adorei o Post Silvia, só há um problema: você mesma não parece ter barriga, né?
    Eu como gordinha absolutamente amante de rodízios de pizza e buffets “coma o quanto quiser” compartilhei seu post pra todo mundo porque eu AMEI, mas você tem barriga?

  13. Charô disse:

    Silvia, eu como sem culpa há alguns meses. Engordei 25 quilos e a bariga aumentou litros. E me sinto bem, sou paquerada na rua e faço dança do ventre. Sou feliz e dona de uma barriga feliz. E sempre que me perguntam se estou grávida eu digo que não, digo que sou gorda mesmo. E a pessoa morre de vergonha de sue preconceito. Eu dou risada. Sim, temos felicidade e barriga. Um beijo sua linda!

  14. Vanessa Bóbbo disse:

    Fala deliciosa essa. E como diria o Zeca Baleiro, “Mundo velho e decadente mundo, ainda não aprendeu a admirar a beleza… A verdadeira beleza, beleza que põe mesa, que deita na cama… A beleza de quem come, a beleza de quem ama! a beleza do erro, do engano e da imperfeição.”

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