Quando Biscatagem e Feminismo andam no mesmo passo

Por Teresa Font*

Não me lembro da data certa, do dia, da hora em que o meu feminismo nasceu. Sei que foi mesmo uma epifania, uma revelação – ou um “helloooo!? acorda!” mais prosaico. Lembro-me do ataque de fúria. Isso sim.

Há mais de quinze anos, o tempo chuviscava e chateava e era ainda inverno e depois de uma tarde de lutas com o telefone, a ser passada de criatura amável para criatura amável durante horas, lá consegui que o banco transferisse determinada quantia, não muito elevada, de uma conta minha para outra conta minha.

A diferença é que num caso eu era primeira titular e no outro segunda. Como os dois titulares eram os mesmos, o banco enganou-se a fazer um depósito. E, em vez de corrigir o engano depressinha e pedir desculpa pelo incómodo causado, andou uma tarde inteira a encanar a perna à rã. Que era eu.

Quando cheguei a casa a urrar contra a incompetência nacional, um calmo marido riu-se e disse-me com toda a placidez: “É que andaram toda a tarde à minha procura, para perguntarem se podiam fazer a transferência”.

CORTA PARA:

FADE IN:

Portugal, fim dos anos anos 60

FADE OUT:

(flash-back, preto e branco)

O primeiro-ministro é Marcelo Caetano. Salazar , muito doente, morreria pouco tempo depois. Existe uma policia politica de acção selectiva, ou melhor, escalonada por crimes e razoavelmente incompetente como serviço de informação, já que o uso da palavra “inteligência” como em “intelligence” é, neste caso particular, completamente despropositado. A vida, essa, corre pacata, para quem não se “mete em trabalhos” e tem emprego certo.

1 – INT.- CASA DE TERESA-QUARTO-DIA

É domingo, dia de folga da empregada.

MÃE

Vá fazer a cama.

TERESA

Mas a Isabel…

MÃE

A Isabel já fez a dela.

Vá fazer a cama.

TERESA

Mas o João…

MÃE

O João é rapaz.

TERESA

E depois…?

MÃE

Vá fazer a cama.

2-EXT.- PÁTIO DA ESCOLA-DIA

O meu irmão João e eu esperamos que nos venham buscar para o almoço. Como acontece muitas vezes, estamos quase sozinhos. Os pátios são separados, rapazes de um lado, meninas do outro. Estou distraída a ler, quando reparo que o meu irmão começou uma luta. Observo. Está a perder. Não, está mas é a levar uma sova. Levanto-me e atiro-me ao contendor a soco e pontapé. Param os dois, boquiabertos, a olhar para mim.

RAPAZ

A tua irmã é parva ou quê?

JOÃO

(olhando par mim, zangado, um fio de sangue a aparecer no nariz)

És parva ou quê?


3 – INT.- CASA DE TERESA-QUARTO-DIA

(flash-back, anos 70, cores kodachrome da época)

Tenho treze anos, é dia de aulas e acordo com um entusiasmo pouco habitual. O que é? Está para acontecer qualquer coisa hoje…ah! É o primeiro dia em que as raparigas podem usar calças no liceu.

Salto da cama.

As Levi’s de bombazina tiveram uma venda nunca vista, por essa época..

Agora que relembro, é verdade que as cores mais vendidas foram rosa e encarnado.

Os rapazes compravam azul-escuro e castanho.

3-INT – GARAGEM – ENTARDECER.

(flash-back, anos 70, cores kodachrome da época)

Adolescentes dançam Led Zeppelin e Deep Purple. Um deles aparece na porta e faz um sinal. Na mão traz um single de vinyl. Põe o disco e começa a tocar o “Je t’aime moi non plus”. Algumas das raparigas sentam-se. Os outros pares começam a dançar o slow.

As raparigas sentadas cochicham e riem-se.

Depois, de repente, houve a revolução.

E, de repente toda a gente estava na rua, a gritar, a cantar, a dançar. Além dos principais partidos havia mil outros grupos. Não havia aulas. Os graffttis mais divertidos eram os dos anarquistas.

E eu, com dezasseis going dezassete, como a menina da”Musica no Coração” embriagada de liberdade…

4 – INT.- CASA DE TERESA- SALA-DIA

TERESA

A vida é minha e faço o que quiser!

PAI

Com o meu dinheiro não, Teresinha.

As pessoas só são livres quando não

dependem dos outros. Para nada.

TERESA

Então vou ganhar a minha vida.

E ser livre.

Saí de casa e fui ser livre para ali para os lados de Santa Isabel ao Rato. Dos graffiti pseudo-anarquista, o meu preferido dizia: “as meninas boas vão para o céu, as más vão para todo o lado”.

Eu fui para todo o lado. Agora, penso que essa época foi aquilo que os tecnocratas chamam “uma janela de oportunidade”.

Tinha dezassete anos quando fui viver sozinha e entrei na faculdade, a meio de uma revolução que não matou ninguém. Tinha vinte e sete quando conheci o príncipe de verdade, THE príncipe e estava cansada e começavam outras sombras a aparecer.

A revolução tinha acabado há muito, desenhava-se o futuro do país a negro-carvão e a sida tinha começado a matar toda a gente e não só os maus.

Nunca, durante esses anos, me senti discriminada por ser mulher, nunca percebi o que se passava, de tão entretida que andei. Mudei de casa e de terra, tive filhos, alegrias e desgostos, o costume.

Mas foi aí, fora de Lisboa, que fui percebendo.

-Uma colega, professora universitária, sempre grávida, porque o marido “não a deixava” tomar a pílula”.

-Outra mulher, que se matava a trabalhar e para pagar as fugas ao cabeleireiro, tirava as notas muito embrulhadinhas de dentro de um frasco de remédios, porque o marido “não a deixava” ter uma conta no banco, nem usar cheques.

Etc, etc, etc……

Mas eram sempre excepções. Outras pessoas. Casos. Nada daquilo tinha a ver comigo. Até ao dia em que percebi. Que aquilo não me aconteceu a mim. Acontece a todas as mulheres. Não é uma conspiração. É o estado da arte.

Agora percebi.

Agora, também sei quanto é preciso pá, caminhar, caminhar.

Espero um cheirinho de alecrim.

FADE IN:

2012

(imagens de mulheres e crianças a serem maltratadas pelo mundo inteiro. Noticias de assassínios de mulheres. Estatísticas do numero de mortas mulheres pelos maridos, namorados, etc. )

FECHA A NEGRO

.

*Teresa Font escreve uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club (post de estréia foi esse). Ainda não foi dessa vez que ela e o wordpress se entenderam, então apresentamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
Esse post foi publicado em biscatagi é cultura, biscatagi especial, biscatagi séria e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

10 respostas para Quando Biscatagem e Feminismo andam no mesmo passo

  1. Existem textos mais ou menos. Existem textos sensacionais de bem escritos. Tem os textos bons e que te dizem algo. Tem os textos ótimos que se encaixam naquilo que você já pensou ou concorda. E tem os textos que fazem SENTIR A EMOÇÃO DO ESCRITOR. Seu texto pra mim foi esse último. Chorei no trabalho. Vou ali tomar um expresso e me recompor. Beijos e corações.

    • Teresa Font disse:

      Márica,
      Há muito que queria ter respondido-mas a minha relação com o computador ñunca foi totalmente feliz e vem a piorar com o tempo.
      Gostei TANTO TANTO do que escreveste, que os agradecimentos do costume não bastam. Olha, digo que também há kleenexes por aqui…Expresso é boa ideia.
      Mil beijos. E corações , pois claro.

  2. Como elogiar a perfeição?

  3. Renata Lima disse:

    Como elogiar a perfeição? [2]
    Emocionei no trabalho. [2]
    Sem palavras para descrever o quão lindo e forte e intenso foi o sentimento que me despertaram duas palavras, Teresa.
    Obrigada!

  4. josé disse:

    bem esgalhado, Font!

  5. Teresa Font disse:

    Obrigada, José.
    (não chega aos calcanhares dos vossos diálogos, mas estou a esforçar-me…)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s