Pé Ante Pé

(…) Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que menos trilhada me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Robert Frost

De vez em quando alguém me pergunta: qual a melhor opção? Teria sido melhor se eu tivesse feito X ou Y? Confesso: eu mesma às vezes me pergunto isso. Aí eu lembro: não tem melhor opção.

Como eu sei? Porque não há caminhos lineares partindo de um único lugar. Não tem encruzilhada na vida do tipo: se eu topar o teste na Globo serei atriz de sucesso, se não comparecer serei dona de casa frustrada e mesquinha. Tem um bocado de intervenientes no processo, inclusive a forma como se simboliza o que nos acontece.

O formato prova de vestibular não serve na vida, não tem resposta certa. É o caso do amor. Ou melhor, dos casos de amor. Não tem melhor caminho, não tem escolha certa, tem as opções que fazemos e o que fazemos com elas.

Por exemplo: a gente vai indo, vai indo e nota que não se está indo pro mesmo lugar. Nem mesmo pela mesma estrada. E os passos, ah, os passos, desencontrados e sem ritmo. E aí perguntam @s amig@s qual a melhor opção: ficar ou partir? E eu digo: não tem melhor escolha, tem a escolha que você está pront@ pra fazer.

Uma das frases feitas mais precisas que já li é aquela: “a vida é o que nos acontece enquanto fazemos planos”. E a gente segue, mesmo assim, planejando e pensando se o relacionamento vai dar certo.

Relacionamentos não vão dar certo. A idéia de que relacionamentos devem dar certo é uma forma contemporânea de dizer: finais felizes. Os finais não são felizes, alguém parte, alguém trai ou, ainda que se viva em risos por sessenta anos, alguém morre. Um final pode trazer alívio, ser triste, angustiante, libertador, indiferente, aterrorizante, mas não feliz. Pra mim, um relacionamento não pode ser pautado no futuro, pelo que ele pode vir a ser. Um relacionamento é o que ele é, o que ele está sendo. Um relacionamento não vai dar certo, ele está dando certo, agora, neste instante, ou não. (…)

Eu considero que todos os meus relacionamentos deram certo. Porque em todos houve aquele momento em que brilha o olho e a respiração falha. E, como, pergunto, eu poderia dizer que tal beleza foi um erro? Eu não acredito em uma hora certa, em uma pessoa certa, em um local certo pra se querer bem. O meu sentir e, ainda mais, minhas relações são sem expectativas de que sejam outras coisas (não sem esperas, destaco, de encontros, de jantares, de filmes, de cervejas, de cama…). Elas apenas são o que vão sendo, o que vamos fazendo. Uma semana ou dez anos. 

Quando o relacionamento entra no descompasso querid@ amig@ é hora de olhar pra você mesmo e saber: o que eu quero? Hoje? Agora? Não amanhã, não em um futuro que talvez-aconteça-se-eu-sair-pela-porta-agora-ou-ficar-casar-e-ter-tres-filhos. Agora. O que te tira o fôlego? O que te faz arder? Pra onde seu desejo se volta?

Não há resposta pronta nem saída fácil. É bom ficar com quem sabe nosso jeito de se espreguiçar na cama, quem liga na hora certa, quem segurou nossa mão na hora de dor, quem riu junto, trepou muito e adivinha o que significa cada suspiro. É bom. É bom ficar só e descobrir se é possível dormir em outra posição, acordar outra hora, atender o telefone só quando quer, ser nosso próprio suporte, se masturbar e não precisar de ninguém como decodificador. É bom conhecer gente nova, dormir em camas esquisitas e em poses “nunca-antes-na-história-desse-país”, ligar e receber ligações em horas inusitadas, redescobrir cheiros e sabores, segurar a mão de alguém em crise, aprender o que significa o suspiro novo. É bom.

É terrível ficar com alguém que já nos conhece tanto. É doloroso e assustador ficar sozinho. É desconfortável e temerário conhecer gente nova. Não tem saída pronta nem resposta fácil. Tem quem a gente está sendo e o que se permite viver. O que aceitamos em nós, agora, já. O que tememos. Nossas escolhas somos nós.

O melhor caminho pode parecer ser o que não percorremos. Nele podemos imaginar opções, deleites, oportunidades, alegrias. Nele podemos projetar esperanças, anseios, podemos ser mais fortes, mais audazes, mais bonitos, mais enraçados. Neles podemos ser mais. Essa é a armadilha. Deixarmo-nos enfeitiçar pelo que é sombra e impossibilidade. E vivermos em angústia do que poderia ter sido, como se houvesse um roteiro pré-determinado e nós tivéssemos perdido a deixa.

As melhores escolhas não existem. Só existem as escolhas que fizemos. Que estamos fazendo. Essa. Agora.

A vida não é filme, você não entendeu (por mais que eu quisesse que fosse. Direção:  Ford). A vida é o que está acontecendo agora. Esse momento. Essa escolha. E não é a vibe “carpe diem”-sei-que-lá. Não é só aproveitar o momento. É reconhecer que se é responsável por ele, instante. E pelo outro. E, principalmente, por nós mesmos. E que viver não é ser feliz. É estar sendo.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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24 respostas para Pé Ante Pé

  1. Cris Rangel disse:

    Lindo, inspirador, esclarecedor e, como tudo na vida, um tanto dolorido. Mas é exatamente isso.
    Beijos querida.

  2. Lindo texto. Eu sou desses, mas com vitimas.

    Felicidade é conforme outra canção do Gonzaguinha “Nem o Pobre nem o Rei” um troço que não sei bem, só sei o que não é felicidade. “É só vender a alma pro dono do poder e serás o mais feliz safado” não caberia em mim.

    Já isso aqui, do mesmo poeta, caberia:

    “Não é somente alegria
    Não é somente bom-humor
    É tudo reunido no mistério de outra palavra
    Uma pequena palavra
    Amor amor amor”

    E por isso que eu amo com fogo nas ventas.às vezes erro, às vezes acerto, na maioria das vezes me dou e me entrego e morro e vivo e é bom.

    E tá aí a letra inteira procês verem que coisa linda:

    Eu perguntei perguntei e perguntei
    Muita gente respondeu
    Não sei não sei
    Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
    Ninguém é feliz sozinho
    Nem o pobre nem o rei

    (Diz pra eu ser feliz meu irmão)

    Mamãe falou que eu era um menino muito feliz
    E eu acreditei
    Cresci com esta figura gravada no coração
    Usei abusei lambuzei
    (Eu lambuzei)

    Agora eu ando em todas as bocas do meu país
    Dizendo que a vida é bonita apesar dos pesares
    Mas devo de admitir
    Talvez eu não tenha aprendido
    O que é felicidade

    Dizem que felicidade é só um momento, ô…
    É coisa pas-sa-gei-ra
    Dizem que é questão de loteria
    Que todo mundo persegue
    De toda e qualquer maneira

    Falam que o dinheiro não a compra
    Mas há quem a encontre no mercado
    É só vender a alma pro dono do poder
    E serás o mais feliz safado
    (Safado, safado)

    É só vender a alma pro dono do poder
    E serás o mais feliz safado

    Ventura contentamento
    Sucesso divertimento
    Saúde amizade e muita paz
    Acho que é tudo isto
    Acho que é muito mais

    Não é somente alegria
    Não é somente bom-humor
    É tudo reunido no mistério de outra palavra
    Uma pequena palavra
    Amor amor amor

    (Repete)
    Eu perguntei perguntei e perguntei
    Muita gente respondeu
    Não sei não sei
    Mas eu só sei eu só sei e eu só sei
    Ninguém é feliz sozinho
    Nem o pobre nem o rei…

  3. Iara disse:

    Adorei. Como você é inspiradora, mulher!❤

  4. Deborah Leão disse:

    Coisa mais linda, hein? E já que hoje você já avisou que também é fã do Paulo Mendes Campos, ainda não encontrei ninguém que falasse desses términos com mais lirismo que ele: http://www.releituras.com/i_eleonora_pmcampos.asp (essa é, junto com Para Maria da Graça, a minha crônica favorita desse homem abençoado).

  5. renatalima91 disse:

    E eu quase fui pra cama sem vc, Luciana.
    E que pecado teria sido.
    Porque vc fala com tanta doçura e tanta bravura.
    E não vou falar demais, porque vc me desvenda tanto, que fico desnuda e rubra e com os olhos marejados.
    E é isso.
    Amei (isso não precisava dizer, mas, né?)

    • Não pode ir pra cama sem mim \o/

      e eu acho que é assim mesmo, amiga, às vezes sangue nos olhos, às vezes lágrimas. A maior parte do tempo, se tudo correr como deve, risinho no canto do olho.

      Beijo

  6. Aline disse:

    Ai, ai… Que belo texto esse. Ainda mais quando nos achamos ai dentro dele. Estou bem ali: ficar ou partir? Estou com medo desse caminho aí, cheio de armadilhas e que agora me parece tão convidativo. Muito melhor que o agora (ou não). Parece que tenho adiado a vida, porque quero e não sigo em frente. Pode ser por tudo que aconteceu, ou pode ser justamente por nada ter acontecido. Eu, sinceramente, não sei o instante em que as coisas desandaram. Não sei o momento que o desejo caminhou para outro lado que não o programado. Só sei que, cada vez mais, a hora da decisão se aproxima. Ou será que já passou e eu sou uma pessoa teimosa (ou medrosa)?

    Hoje, indo para casa, em pé, naquele ônibus lotado nosso de cada dia, eis que vem a minha mente uma frase de uma música que gosto muito, mas que nunca tinha me colocado assim contra a parede: If you never try, then you’ll never know.

  7. Dandi Marques disse:

    Delícia de texto, Lu. Como já havia dito, um tapa na cara.
    às vezes caímos em armadilhas traiçoeiras por serem conhecidas e é nada mais que uma zona de conforto, o melhor é sacodir um pouco e fazer uma resignificação de tudo, afetos, relações, amores. Sejam eles novos ou velhos, o importante é ver sempre com os olhos da possibilidade.

    Super beijo!🙂

  8. Julia Bastos disse:

    Lu, querida, que texto delicioso. Ele é tudo que eu poderia querer ler agora, tudo que estou aprendendo a ser. Cada linha me envolveu.

  9. Renata Lins disse:

    É isso, Não tem solução pronta. Não tem o que poderia ter sido. Tem o que é. Tem a vida que a gente faz a cada dia. E planos são horizontes. Mas não podem ser muletas, que aí estraga. “Não vou mudar porque tinha feito esse plano”. Não rolou, amiga. Não concretizou. Muda de plano. Muda de vida. Beijos, borboleta.

  10. Paula Brukmuller disse:

    Juro q chorei. Sabe aquelas palavras q vc queria ter escrito? Não pq tem inveja, mas pq sente q tava tudo ali dentro, mas sem forma, desorganizado.
    Boa sorte nos teus caminhos!

  11. Charô disse:

    Perfeito. Lembre de “Toda mudança é um esforço de permanência”, obra de Tiago Romagnani. Entender a dor da permanecer já é de uma delicadeza… E ainda escrever sobre… Ah, apaixonei. Parabéns.

  12. Deh disse:

    “Você ama ou está só acostumad@?”. A grande questão. Depois vem a ruptura e o começo. Ou até o recomeço. Mas quando a relação fica imprecisa (que ilusão, tem alguma que não o seja?) ruir é preciso, líquido e certo.
    :***

  13. Mas isso é o Carpe Diem.
    É colher o momento. É estar sendo, e não ser. É colher o melhor das nossas decisões “de agora”. É evitar desperdiçar o momento com o inútil, e dedicá-lo para o que faz bem. Cada um é faz o seu “agora”, e cada um sabe o que o faz bem, e convém aplicar esse pensamento do Carpe Diem como forma de seu presente não ser um vazio, e isso é sim ser responsável para com você mesmo, independente da forma que vier o seu bem.

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