Fogueira

Leitor

Eu pensei em fazer um post chic, descritivo e erudito sobre uma autora que gosto muito, M. Yourcenar, e um dos seus livros que mais me tocam: Fogos. Eu sempre acho bem difícil escrever sobre livros. Complicado mesmo. Fico meio ensimesmada: se é pra falar mal do livro ou do autor, não me dou ao trabalho. Se é porque gostei e quero dizer isso, fico pensando: como posso dizer melhor o que já está lá tão bem dito? Dá vontade de assinalar apenas: vai lá! Porque alguém vai perder tempo lendo o que eu tenho a dizer sobre um livro ao invés de ler o próprio livro? Eu sei que não é o enredo que conta – ou não só. É a própria forma como se escolhe escrever, o estilo, o ritmo, a forma.

Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour, 1903-1987

Autora

M. Yourcenar é uma autora incrível, ela mesma vivendo sempre no limite do que a nossa sociedade insiste em chamar de biscate: um amor homossexual, duas paixões platônicas por jovens homossexuais, uma vida sexualmente ativa com homens com os quais ela escolheu não casar, uma negação consciente da maternidade, uma vida de viagens e descobertas intelectuais, o não-conformismo diante do mundo posto…Uma mulher inteligente, sensual e livre. E uma grande escritora, primeira mulher a participar da Academia Francesa de Letras. Entre suas obras, destacam-se: Memórias de Adriano (1951), A Obra em Negro (1968), O Labirinto do Mundo (1974-77), Mishima ou A Visão do Vazio (1981) e O Tempo, Esse Grande Escultor (1983).

Livro

Passeando nesse impasse, perguntei-me porque Fogos…e logo eu soube, Fogos é uma bela coleção de biscates. Como mais seriam classificadas, hoje, uma mulher que se apaixona pelo enteado, um homem travestido de mulher, uma moça que desobedece a família e o Estado e insiste em um comportamento autônomo, uma concubina, um jovem em um triângulo homossexual, uma outra que mantem como amante um jovem primo do marido enquanto este viaja e a própria Maria Madalena?

Fedra ou o Desespero – “…embriaga-se com o sabor do impossível, o único álcool que serviu, desde sempre, de base para todas as desgraças. No leito de Teseu, experimenta o prazer amargo de enganar de fato àquele que ama e, em imaginação, àquele que não ama. Ela é mãe: tem filhos como teria remorsos…”

Aquiles ou A Mentira – “…um dia essa grande beleza tornaria mais difícil sua obrigação de morrer…”

Maria Madalena ou A Salvação – “…amar sua inocência foi meu primeiro pecado…”

Clitemnestra ou O Crime – “…durante o dia lutava contra a angústia; à noite lutava contra o desejo e, ininterruptamente, contra o vazio, que é a forma mais covarde da desgraça…”

Eu, Personagem

Eu sou em labirintos. Escavo percursos pra me perder de mim. Planejo fugas e marco paredes com indicações de futuros que não percorrerei. Monstro encarcerado, sei minhas sombras. Sou besta e herói, fio e espera. Morro. Morro todas e tantas vezes: espada no peito, abandonada na ilha, caindo do penhasco. E nunca. Permaneço no oco de mim, desfiladeiros de histórias que se fazem em angústia. Sempre, sempre, sempre a solidão de uma cabeça cindida do corpo. O desejo de saber em desejos do outro e só encontrar os caminhos de volta. Esperar a oferenda de amores que morrem em minha mão, um após o outro. Morrem todos tão jovens e eu nunca sei o que poderiam ser. Lá fora, eu espero, o fio na minha mão indica o caminho da desilusão: quando voltar do espelho, verei a gratidão fazer morrer o que prometia ser eterno. Quando todas as histórias forem esquecidas, saberei: eu sou em labirintos.

Tu, Personagem

Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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5 respostas para Fogueira

  1. Obg!! Pq SIM(!), é necessário um post pra me mostrar o quanto esse livro pode ser uma fascinante leitura. Livro esse, que já estou pesquisando nos sites para compra :P. Interessante demais a vida da autora, que não conhecia. Vou procurar mais dela. Obg mais uma vez =)

  2. Sabe aqueles textos que perfuram a carne e entram na alma? Então, o sobressalto foi tão grande que saí e voltei ao meu corpo. Vou correndo ler o livro, mas não canso de ler o seu post! Beijos…

  3. Aline disse:

    E a vontade enorme que deu de ter esse livro e devorá-lo no próximo fim de semana? Obrigada por trazê-lo ao meu conhecimento!

  4. Eu gosto tanto tanto tanto de escrever sobre livros, de falar de livros, de ler em voz alta… que me contem de livros, que leiam pra mim em voz alta. Continua aí…

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