Uma biscate incomoda muita gente…

Por Deh Capella*, Biscate Convidada

Por que essa biscate te incomoda tanto?

É a roupa curta dela? É o colorido das peças, é a exposição do corpo?

Que bobagem. Vamos com calma, vamos pensar juntos. A primeira coisa é: ela te obriga a se vestir da mesma forma? Não? Então já temos um item a riscar do nosso checklist imaginário: a forma como ELA se apresenta é DELA. Pode não ser exclusiva, provavelmente você verá outras assim por aí – uma horda de biscates, que horror! – mas não é propriamente um dresscode, certo? Se você não gosta da roupa da biscate é só não usar roupa igual e pronto. Viu que fácil é?

Ah, mas aí os trajes da biscate estão em desacordo com o teu código moral, você acha que aquela roupa identifica uma pessoa com problemas de caráter? Pense que são roupas apenas. Que se a bisca em questão andar por aí de terninho e saltinho, vestida da forma mais distinta e modesta possível o caráter dela continua sendo o mesmo. Conheço bastante gente vestida em tons pasteis e cortes discretos, comprimentos e decotes que as Senhoras de Santana aprovariam e que ainda assim não vale um traque. Roupa é só roupa, aceite isso.

Ah, mas aí ela tem muita carne exposta e assim não pode, assim não dá? Pode. Dá. O corpo é dela. Biscate não sente frio? Ó que bom pra ela! Ah, biscate sente frio? Problema dela, uai. Ela que vá se virar com a gripe dela, você se agasalha como se sente melhor ou então vai externar sua preocupação com o próximo fazendo um voluntariado, que tal?

Não é a roupa, são os “modos”? O que seriam “modos” de biscate, então?

É porque seus gestos e atitudes são livres? Porque ela faz o que tem vontade? Pois bem. Primeiro pense se aquilo te incomoda porque você quer ser daquele jeito e não consegue. Oras, ou você tenta ou você admite que as pessoas são diferentes, têm temperamentos, reações, prioridades, interesses diferentes, vieram de contextos diferentes, têm outras vivências. E deixa pra lá, aceitando que a biscate faz sim parte desse colorido caldeirão de pessoas e que é justamente isso que faz do mundo um lugar interessante – e não um cenário de romance distópico onde pessoas são robôs idênticos programados para agir do mesmo jeito.

Você acha que a biscate em questão te prejudica? Mas como é isso? Ela está te puxando tapete, te fazendo mal de fato? Te atrapalha no trabalho ou no dia-a-dia? Ora, então cresça e resolva a parada. Mas como gente grande, conversando, de preferência sem usar aquele argumento odioso que faz referência ao uso que ela faz das próprias partes pudendas (só eu me divirto demais com essa expressão?) – sim, deixe as partes pudendas da moça em paz, até porque se ela é biscate das boas ela pensa e age e sente não só com os genitais, mas com o corpo todo (e creia, isso é bom! Já tentou?). Ah, a biscate te roubou a criatura amada? Pense primeiro, mas pense BEM se a criatura amada é tão volúvel assim a ponto de simplesmente ser levada sem querer. Então, se for o caso, repense o status da criatura amada na sua vida, porque né? Quem quer estar junto de alguém que não tem domínio das próprias vontades e responsabilidade pra lidar com o que vem pela frente, pessoa passiva que só “é roubada”?

Se o que existe aí é mágoa porque ela não te quer, e você passa seu tempo enumerando seus defeitos, é hora de desapegar e seguir em frente, crescer. Dói, mas você supera e a vida continua, é uma promessa.

Ponto final, meu amor: ignore a biscate, se for o caso. Deixe que ela exista, deixe que ela fique por aí e viva a vida dela – te garanto que ela não vai deixar de ser quem é porque te incomoda. Pense se não é uma imaginação fértil demais somada a um monte de preconceitos que te fazem detestá-la. Aquela vagabunda/periguete/biscate/ordinária/lambisgoia/desclassificada/mocreia pode ser uma pessoa cheia de defeitos sim, mas pode também ser alguém legal, pode ser inteligente, pode ser companheira, pode ser divertida, pode ser uma boa profissional, uma amiga leal, pode ser até uma filha/irmã/sobrinha/tia/mãe sensacional. Mas seus olhos não te deixaram ver isso ainda.

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*Deh Capella é historiadora de chuteiras penduradas, bibliotecária positiva e operante, tem 36 anos e é mãe de um menino bonito de quase 5. Vive de ler, escrever, ouvir música, correr, nadar e se aborrecer com a quantidade de gente disposta a encher a paciência dos outros por capricho, inveja, dor de cotovelo ou rabugice mesmo. Ah sim. A sua própria ranzinzice está em tratamento – dizem que o primeiro passo é admitir o problema, não? Atende também no Por trás da tela… e uma vez por mês no Blogueiras Feministas e não, não morde. Mesmo. Experimenta pra ver!

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"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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12 respostas para Uma biscate incomoda muita gente…

  1. Jéssica Souza disse:

    Deh (a íntima, rs), que texto maravilhoso. Muito, muito bom mesmo. Sem falar no tom de humor gostoso de se ver. Parabéns pelos argumentos😉.

  2. Deh disse:

    Brigada, flor!🙂

  3. Victor disse:

    Quem nunca se fez biscate na vida…rsrs!

  4. schneewittchen disse:

    texto bem legal. acho engraçado que muita gente que se sente incomodada nunca parou pra se perguntar por que se sente assim. só acho que nem sempre é pq a biscate não deu bola ou pq é inveja. acho que a coisa é mais sem explicação apesar de eu achar que o exercício de cada um de procurar motivos mostra muito pra gente o que a gente reprime por conta do que a sociedade espera da gente. muitas vezes, acho que o cara se sente atraído por algo que ele conscientemente rejeita. eu mesma já me vi favoritando foto pra ver e rever de coisas que me incomodam e eu parei mil vezes pra perguntar por que eu ficava vendo algo que me incomoda. o mais próximo de resposta que tive, nos meus casos de incômodos, é que eu tinha uma curiosidade quase infantil sobre o assunto e precisava meio que olhar e pensar sobre. digerir.

    mas, especificamente sobre biscates, acho que falar mal tbem é um jeito de a pessoa dizer pro fulano ao lado:”estamos no mesmo nível, estamos juntos contra isso”. acho que diz mais sobre o que a pessoa quer mostrar pro outro do que o que a pessoa quer dizer da biscate.

  5. Sempre fui a favor de vc se vestir como melhor se sentir, colocar uma roupa que valorize o que vc tem. Prefiro que não seja extremamente exagerado, não mostrar demais, mas isso é meu gosto. Tbm é problema meu se eu não me visto como gostaria, não mostro as pernas como gostaria. Timidez minha.
    Mas lendo esse texto, percebi que ainda existe um rastro de incômodo com um tipo específico: a periguete de academia. Usar fio dental e cabelo solto enquanto malha, é algo tão… longe do que era pra ser o propósito de ir à uma academia. Estou aqui refletindo nesse post, e procurando de certo, o motivo do meu incômodo. Mas o que passa na minha kbça é esse lance de propósito. Tem tanto lugar para biscatear, a academia era pra ser algo de vc para vc. Acho até que se perde o foco. Pq pra cuidar de si, tem que ter muito foco. Enfim… Agradeço se me ajudarem na reflexão =)

    • Deh Capella disse:

      Oi, Aline!
      Tava lendo seu comentário e fiquei pensando que talvez dê a impressão de que meu incômodo é zero – e não é. Mas eu tenho tentado lidar com isso, digamos, não olhando pro lado. Não que eu ande de tapa-olhos, claro, mas tenho procurado disciplinar o olhar-julgador quando me vejo em situações como essa da academia que você disse. Eu vou pra academia pra cuidar de mim, pra fazer exercício, porque me sinto saudável, porque gosto da competição comigo mesma, porque gosto de como meu corpo fica quando estou me exercitando, etc etc. Mas esse é o meu padrão de bem-estar. Então eu fico meio desconfortável em pensar “aqui não é lugar disso” – pode ser, sem dúvida, lugar de biscatear, mas na minha opinião. Pode ser, mas EU não faço isso porque…não é comportamento típico meu (haha, devo ser biscate honorária por boa vontade e doçura d@s biscates-titulares, porque sou a pessoa mais bem comportada do mundo, pelo menos me vejo assim). Eu não usaria cabelo solto malhando (tenho cabelos curtos com franjão, e mesmo assim prendo porque senão não consigo correr), não usaria um incrível macacão colante com recortes estratégicos porque acho que não combina comigo e não tenho corpinho tudo em cima pra isso, mas acho legítimo mesmo quem usa. Se a moça quer pagar a cadimía pra desfilar, ótimo, se o rapaz tá indo lá pra exibir os bíceps, bão também pra ele, que seja proveitoso. Eu continuo indo lá, ligando a esteira, colocando os fones e curtindo o meu tempo do meu jeito.
      É meio por aí que eu penso.
      Beijim, brigada pela visita!
      :***

      • eu acho que o importante é a gente sentir que não é régua pros outros…não é porque eu vou pra biblioteca pra ler (deusolivredeeudarexemplodecadimia) que todo mundo tem que ir com o mesmo propósito…e, ainda que todo mundo esteja com o mesmo objetivo, cada um tem seu estilo de ser e se sentir bem (acho eu).

  6. Renata disse:

    Adorei o texto, Deh. Aliás, como todos os seus que tenho lido. Suas reflexões têm me feito pensar e a reavaliar a forma como olho e julgo as outras pessoas. Obrigada pelos insights.

  7. Deh disse:

    Obrigada! Apareça mais por aqui, por ali, é sempre bom conversar com você!

    :**

  8. Milla disse:

    Achei esse blog por acaso e estou me deliciando em me ver tão pequena. Quando penso que sou livre de tantos preconceitos, que minhas birras fazem sentido, textos como esse me fazem olhar um pouco mais pra mim ao invés de olhar pra biscate. De fato, a vida é dela… o que tem nela que me incomoda tanto? Deve ser pq ela realmente é muito legal, eu não. Ela é bem relacionada, eu não. Ela sabe se divertir… eu não. Kkkkkkkkkkkkkk é, vivendo e aprendendo… Olharei com outros olhos , a partir de agora, aquelas as quais julgo como biscates infames. Ótimo texto!

    • Deh disse:

      Oi Milla, obrigada pela visita! Acho que é válida mesmo essa parada pra avaliação. A gente pode acabar descobrindo que implica com o outro por bobeira, gasta tempo e energia à toa, mais simples deixar cada um viver a sua vida em paz. Volte sempre!

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