B. de Biscate

Quando recebi o convite da Luciana para escrever no “Biscate Social Club” fiquei: contente, lisonjeada, entusiasmada e algo temerosa. Estados de alma esses que não requerem grandes explicações. Até porque os leitores do BSC são inteligentes. E começava já a escrever. Mas. Há um mas. Ou vários, mas vamos com calma. O “Biscate Social Club”, qual  Super-Gestor Fashion Pré-Troika tem uma Missão/ Visão e um  Conceito.

Esta  blog-situation  requer que o escritor/colaborador/ocasional biscateiro, ou seja, moi se identifique tanto com a Missão/Visão como com o Conceito postos a uso. Ora eu não tenho duvidas, identifico-me com a Missão/Visão : “Um tantinho de felicidade por dia…”,  e adoro de paixão o Conceito: «Aqui, somos todas “biscates”»

Acrescento que era- e é –  meu desejo, apresentar em termos aos meus conterrâneos  o “Biscate Social Clube” e a ideia que lhe deu vida. E assim, voltamos ao princípio. Ou seja a…

Este cartãozinho

Este cartãozinho, em que dois felizes jovens WASP mostram a sua felicidade ao lado da pérola que se lê. Ele, o FELIZ homem inteligente, deu-se conta de que mais lhe valia ter a INCRIVEL MULHER, loira e terna, ao lado, do que uma colecção de “biscates”. A colecção não sabemos onde.se posicionaria. Imaginamos. Mas não sabemos. Mais.  Do que é que a loira se deu conta, não nos é dado conta a nós. Mas supomos que estará embevecida quer na FELICIDADE dele, quer na suprema honra de ser considerada uma MULHER INCRIVEL pelo HOMUS INTELIGENTUS – claro que nos fica a esperança de que ela esteja a pensar em algo muito diferente, como, hmm, por ex.:”Quando é que desengomas daqui, paspalho, para eu telefonar ao teu grande amigo Joe e termos sexo fantástico na cama dos teus pai. Adoro que ele seja namorado daquela sonsa da Alicinha…”  Eii! Teresa! Basta.

O cartão provocou espanto, repulsa, hilaridade e pensamentos diversos num interessante grupo de mulheres. A ideia da “biscate” como, alguém que simboliza, de certa forma, o contrário desta ganga toda, está formulada, mais ou menos assim, no primeiro post do blog:

Uma “biscate” sabe que um ser humano inteligente nunca pensaria numa mulher como “parte de uma colecção”. Uma “biscate” sabe que não precisa de estar sempre maravilhosa. Mas maravilha-se com as possibilidades que o aceitar das próprias limitações lhe traz. Uma “biscate” sabe que ‘estar ao lado’, seja de um  homem seja de outra mulher, é só mais uma posição. Como ‘estar por baixo’, ‘estar por cima’… ou ‘estar longe’.

Longe deles, cá para mim.  A menos que o Joe e tal…

Mas o que é uma “biscate”? É que “biscate” calha ser daquelas palavras que, sendo de uso corrente  em Portugal e no Brasil, têm significados diferentes num e noutro país,significados objectivos e subjectivos e tudo isto se torna menos simples do que parece.  O que, aliás, era de esperar, Ou alguém esperava que “biscate” fosse uma palavrinha bem comportada, das que não dão trabalho, obediente, uma palavrinha boaaaazinha!? Dah! E  andava eu a brigar com a descrição mais exacta possível do sentido, do significado de “biscate”, que, nos dicionários sérios e nos populares, – dicionários biscate, pode ser? –  vai desde o puro e duro: prostituta, puta, mulher de vida fácil, passando pelos ambíguos: mulher que anda com os maridos das outras, promiscua, até aos mais suaves: veste-se de forma provocante, dá nas vistas, e mesmo, em nota de rodapé, misteriosamente escondida, a frase:

1)-  No liceu, a rapariga que andava com todos e permitia avanços de natureza sexual era uma biscate.

Uhhh. Andava com todos.Uhhh Natureza sexual. E desde o liceu. Tchhh…Mas não ajuda muito. Tomei nota de sinónimos: vadia, cabra, bitch, allumeuse, slut, não. Tramp.

É isto. Tramp! The lady “biscate” is a tramp. Relembrei a letra (tradução aqui):

 

Ela é A TRAMP, não é uma gaja.

Ela gosta de sentir o  vento no cabelo, gosta de viver sem maçadas, ela está falida e depois? Ela faz o que quer. Ela faz o que acha bem. Ela age pela própria cabeça.

The lady é uma biscate! Q.E.D.

E dou com o significado de biscate neste estabelecimento:

Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.

Ei! Podia ter poupado trabalho. Mas é isto mesmo e cheguei lá sozinha.

Terei o direito de aqui estar – com elas? Memórias. Três anos e em frente do nariz o terceiro cestinho do dia. O desafio era enchê-lo com ovos de plasticina feitos por mim.  E andei pelos corredores desertos até sair da escola infantil, que odiava, e seguir sozinha até casa. Isto é verdade. Era só um quarteirão, mas percebem a mensagem. Biscate pode até ter três anos. Mas não atura nem mais um cestinho com ovinhos de plasticina. No Crap! Salto 15 anos e há revolução e tudo na rua a cantar, tanto mar, tanto mar. As discussões em casa.Não vai viver sozinha. Vou. Enquanto viver à minha custa não vai. Então vou viver à minha custa. Um curso abandonado – isto foi um engano. A solidão do wild side. Um  namorado despejado à porta de casa, com uma bebedeira enorme. E eu para o taxista: siga, que ele fica bem. No crap. O amor proibido, clandestino. A minha falta de culpa. As unhas que nunca deixei de roer. A semana passada, eu a discutir com o polícia mais velho, enquanto os outros interrompiam a sua tarefa, a tarefa injusta, feita de má fé, para ouvirem, trocistas. Só estou a cumprir ordens minha senhora. E eu, ahaha é agora que digo aquela olhe que em Nuremberga trataram da saúde a muita gente que só estava a cumprir ordens.  E a Ana e eu, de bikinis minúsculos, como há trinta anos, a sentir a areia quente e o cheiro do mar na primeira praia do ano. A rir a rir a rir. Memórias. Posso aqui estar.

Uma biscate faz o que quer. Não tem receio de levantar a voz e por a mão na cintura, varina. Ou de seduzir de baton e vestido à jessica rabbit. Ela pode ser rica, pobre ou remediada. Mas se é “biscate” mesmo, fica do lado dos nada têm. Ela repõe a justiça como pode – a lutar numa barricada ou a morrer por uma causa. A dormir com o boss ou a roubar um pão. Ela ama quem ama e não quer saber se o seu amor é homem, mulher, casado, solteiro, bígamo ou lobisomem. E, se não amar, ela dorme com quem lhe apetecer. E com quantas pessoas lhe apetecer. Uma, duas…Ou três. Ou com a prima do ex-marido. Ou então com ninguém. Ela não é obrigada a. Ela é fiel ou não. Ela tem filhos ou não. Ela pinta o cabelo de azul ou não. Ela decide. Dificil? Põe difícil nisso. Ela vai ser olhada de lado. Ostracizada. Apontada a dedo. Vai andar com a letra escarlate, vai ser apedrejada logo que o zeppelin desapareça. Biscate não pode ter medo. Ela age como se tudo lhe fosse permitido  ou como se nada lhe fosse permitido. A biscate tanto parece Louis L’État c’est moi XIV,  como o mais despojado, despossuido dos seres, parece  a frase pirosa de Me and Bobby McGee, freedom is just another word for nothing left to lose.. É tudo ou nada.

Citando Rita Lee, eh, sua biscate doida, este caminho, como o rock, não é para frouxos.

Mas compensa, ah se compensa. Porque escolheu a Liberdade e honrou a escolha. Porque há outras como ela por aí e a vida é de tal modo também outra nesses lugares. Porque é para ela – sim, vaidade, faz mal? –  é para ela que  foi apedrejada pelos mesquinhos, pelos invejosos, ou tão só pelos que não entendem porque não lhes foi dada a bênção de entender, é para a biscate que génios escreveram, pintaram, esculpiram, compuseram, pensaram.

Ser biscate, para muitas de nós – olha este nós, Luciana! – é um caminho. Poucas mulheres nasceram biscates, como poucos têm o ouvido absoluto, ou a capacidade de ver dentro da cabeça uma demonstração matemática. Há quem tenha morrido na tentativa. Há rendições. Há quem tenha conseguido e faça da biscatagem um estandarte. Há quem lá chegue com toda a simplicidade. E há muito para dizer. Mas entretanto, olhe, venha cá. Sim, estou a falar consigo. Entre, venha conversar, venha ouvir a musica. A musica é sempre óptima aqui. Sente-se, descalce os sapatos se lhe apetecer. Peça uma bebida.

Willkommen, Bienvenue, Welcome.  

Bem –vindos ao Biscate Social Clube.

Teresa Font escreve, a partir de hoje, uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club. Enquanto não se cadastra como autora (biscate ocupada, ai ai ai) colocamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
Esse post foi publicado em biscatagi é cultura, biscatagi especial, memória biscate e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para B. de Biscate

  1. Charô disse:

    Nossa, um postão de responsa. Biscate, pra mim um caminho. Porque eu não me sei Biscate ainda. Ando a descobrir. Gosto de fazer o que gosto, de ser o que gosto mas sou dessas tímidas. Queria ser mais assim, de peito pra fora e mãozinha na cintura. Mas ah, eu gosto do “car ces’t mon bon plaisir”… Biscate é despótica? Sim ou… Não. Serei? Talvez.

    Só sei de uma coisa. Biscate quando escreve é assim, sem dúvidas. Parabéns pelo post de coragem e vísceras. Amey e espero os próximos.

    Um abs!

  2. Pingback: Quando Biscatagem e Feminismo andam no mesmo passo |

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s