Biscate apaixonada e desaforada

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

O Biscate talvez não seja o lugar mais propício pra elucubrações amorosas. Ou questionamentos fúteis. Mas peço licença pra expor minhas angústias com amores e relacionamentos. Creio que o Biscate, com sua arejada política de temas e diversidade, abrigará minhas legítimas e idiossincráticas lamúrias. Aviso: o texto, é antes de tudo, muito sincero em sua catarse.

Bom, é bem verdade que biscate se apaixona. E que flertamos com a loucura nessas ocasiões. Que queremos dar uma de Adélia Prado e lavar, e secar, e beijar os pés da pessoa amada. No caso, meu amado. Homem mais velho, quase duas gerações após a minha. Mais amor e seríamos o novo casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia. Entre contas a pagar, problemas pra resolver, pesquisa pra encaminhar, eu só queria pensar, sentir e estar com essa paixão que me tomou como um susto. E que anda mexendo com as coisas íntimas, essas as quais não permitimos que qualquer um tenha acesso. Porque bagunça com projetos de vida, com desejos guardados, com promessas escondidas, que às vezes a gente deixa de lado pra obedecer ao lado prático (e duro) da existência. A paixão amolece tudo isso. Despedaça essa seriedade tão forjada e necessária pra matar os leões do cotidiano (podia ser outra metáfora? Adoro felinos!). Já se sabe que mulher pra se fazer na vida, não pode ser mansa. E a minha língua sempre foi desaforada pro machismo. Mas sou bem calminha quando amo. Mais doce ainda. De provocar diabetes. E ele, sábio nas artes de se relacionar, tem tirado o melhor de mim. Isso que escamoteei pra um sem-número de gente, que tentava, sem muito sucesso, porque eu simplesmente não deixava, me ver entregue e sem máscara. Não tenho dúvida que ele quebrou minha resistência. Passou a perna no meu ceticismo afetivo. O resultado disso tudo é que eu amo tudo nele, sobretudo o contexto que o envolve: a filha adolescente, o seu time de futebol, o gosto duvidoso pra decoração, a barba que ele deixa crescer só porque eu peço, o café da manhã que faz pra mim, a voz calma, as mãos, o corpo… Ah, o corpo…

Ou não. Quanto tempo dura o encantamento de uma paixão? Estou apaixonada, mas estou lúcida. A balança desequilibrou e sinto um descompasso. Uma disritmia que não é aquela coisa linda do Martinho da Vila. E, independente do rumo desta carruagem, sempre optarei pela minha dignidade. Tenho gostado de dormir junto, mas, à parte do clichê, amo as noites que estou em casa, tomando meu vinho chileno, lendo um livro ou agarrada no meu notebook. Ou fazendo nadinha, só procrastinando mesmo. Adoro você, homem que tem me feito dobrar os sinos. Porém, há alguma coisa em mim, um divã interno, um cuidado instintivo, um senso de coragem que é algo que simplesmente impede de me tornar uma extensão de ti. Lavo, seco e beijo teus pés, mas não esqueço de cuidar também dos meus. Pra que eles possam estar bem pra caminhar depois dessa viagem. E caminhar pra bem longe, esse lugar de utopia que me recebe sempre de braços abertos e abriga os meus sonhos e desejos. Por isso, trate muito bem essa biscate aqui. Ela merece todo o amor do mundo. Ela tem o diálogo estreito com poderosas orixás mulheres, como Iansã e Iemanjá. É uma biscate do mar, coreira, com flor na cabeça, meio cigana, meio profana, meio sagrada, meio bruxa, meio louca. E que não hesita em abandonar barcas furadas pra girar, feliz, a saia de chita colorida em outras rodas incandescentes de tambor.

Pra completar o recado desaforado, nada melhor que um poema da biscate-mor portuguesa, Florbela Espanca, a nos ensinar que estamos nesse mundo pra amar muitas vezes:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

.

* Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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12 respostas para Biscate apaixonada e desaforada

  1. Cris disse:

    Biscate Apaixonada, aqui do frio do sul eu te desejo sorte, porque é o que uma biscate pode fazer por outra em momentos de paixão, desejar sorte. Mais sorte do que eu tenho – já que normalmente ñ tenho nenhuma quando o assunto é amor – e que vc saiba viver a plenitude de amar enquanto e sempre que houver amor.

  2. Selma disse:

    Lindo texto… Lindo mesmo. Encantada… Abç

    • Jeane disse:

      Oi Selma

      Que bom que gostou do texto, ele foi escrito sob muita paixão e de um fôlego só. Essas paixonites acabam com a gente mesmo, não é???
      Bjs
      Jeane

  3. Dani disse:

    Uma na coisa que mais me irritam nessa minha vida biscateira é ser uma pessoa profundamente amante dos amores e ter de ficar me refreando, muitas vezes, para não correr o risco de levar na cara. Alguém tem de mostrar o lado bom do amor, da dedicação ao amor, para essas figuras que andam entrando nas nossas vidas…Por que será que parece que só para nós há esse prazer em cuidar, se desvelar, acarinhar, demonstrar? Isso me parece tão bom que não é possível que só seja bom pra mim…Uma coisa é a submissão, outra é a dedicação ao ser amado. Você me entende, Jê!

    • Jeane disse:

      Entendo, Dani. Nem todos têm a sensibilidade pra abrigar o romantismo do outro. Uma coisa é certa: à parte dos corações duros e frios, o nosso deve ser mantido sempre cálido e aberto. Sem medo de pegar na cara. Ou vale a pena outra forma de se relacionar?

  4. Saulo Eglain disse:

    Sem comentários.Aliás tenho sim…
    …sortudo o cara.

  5. Charô disse:

    Oie, deixa eu dizer que amey o texto e não achei desaforado não. Achei bem pé no chão e te digo uma coisa, ser assim é bem útil. Parabéns pela maturidade, essa coisa que nada tem a ver com o tempo…

    Ah, deixa eu falar, sou do B.F. Morei na ilha por 2 anos. Passei pela universidade, conheci um dos amores da minha vida, me apaixonei pelo Reviver e ainda hey de morar por ali, num daqueles casarões lindos. Saudades. E uma ponta de inveja. Não há melhor lugar pra se apaixonar no mundo!

    Um beijo.

    • Jeane disse:

      Charô querida,
      São Luís é uma das cidades mais bonitas pra se viver uma paixão, se aquelas pedras de cantaria do Reviver falassem, eu estaria lascada! hehehehehe… Mas no atual momento, nossa querida cidade agoniza e sangra pelo esquecimento do poder público. Tá uma tristeza só, o centro histórico e todo o restante. Muito abandono, desrespeito ao patrimônio e a cada dia, um casarão é condenado. Dói na alma ver isso…
      Beijo pra vc, que bom que gostou do texto… Se tem uma coisa que aprendi, é a transitorieadade do amor. Pra quê cobrar coisas infinitas, que peso, né? Quero a intensidade, mas quero tb a leveza. Mil beijos

  6. Lais disse:

    Não se tinha jeito melhor de terminar esse texto sem esse profundo poema da Florbela.
    me emocionei!

  7. Amiga querida, lindo texto! Inspirado e inspirador. Obrigada!

  8. Pingback: Ser periguete ou parecer periguete? |

  9. A biscate se apaixona sim, pq ser biscate é ser paixão. Paixão pela vida, paixão pela liberdade, paixão pelo desejo, paixão pela paixão. E como poderíamos ser tão apaixonadas se não houvesse uma intervenção humana tbm? Como não se apaixonar por alguem, se nosso coração bate mais forte, nosso corpo sente arrepios que parecem vir do nada e ainda é um dos sentimentos que faz o mundo parecer mais encantador de se desbravar? Como, se tudo isso é tentador de se sentir por ser tão lindo e a biscate busca pela beleza do viver?
    O problema não é a paixão, o problema é a expectativa. Ou como diz uma música da Madonna: “Is not the game, is how you play”. Coisinha difícil não criar expectativa. E quando se cria… tudo pode desmoronar a qualquer decepção.

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