Impressões do Desejo

Camisola vermelha. Curta. De alcinhas. Quarto escuro, apenas a luz da tela do computador e um abajur com coloridas borboletas.  Ela lê o email, rosto afogueado. Imprime, ela imprime o texto, como se a materialidade das letras fosse consolo pra ausência do corpo. A língua passeia pelos lábios, molhando a boca como um correspondente ao seu sexo já úmido. Os olhos percorrem as palavras como se fossem suas mãos na primeira exploração do corpo dele: com voracidade, ímpeto, ânsia. Procura a frase seguinte como se traçasse o mapa do seu desejo. Chega ao fim do texto insaciada, a boca querendo o gosto que as mãos apenas puderam supor.

Liga o ventilador, deita-se com as pernas abertas deixando o vento brincar de levantar sua saia e provocar sua pele. Estica o braço pra trás, arruma a posição do abajur, a luz fraca incidindo apenas sobre o papel. Música? Sim, música. Mexe o corpo e aperta o play no pequeno aparelho…

Retoma a leitura, agora lentamente, letra a letra, desnudando a pele, sentindo a textura, a língua descobrindo os sabores: pescoço, peito, braços, abdome. Um suspiro. Ela se escuta: o sangue no pulso, a respiração acentuada, um gemido. Ela já não lê, reconhece as palavras no seu próprio desejo, antecipa os sentidos no seu corpo que pede. Esfrega os papéis em si mesma. Lambe-os e os acomoda entre as pernas. Reclina-se. Arfa.

De olhos abertos, ela só vê o impossível: fazer coisas más parece uma excelente idéia. Lamber o dedão do pé, é assim que ela vai começar. Depois, envolver com a boca cada dedo, mordiscá-los, chupá-los. Morder o calcanhar com força. Com as mãos firmes, moldar tornozelos e beliscar atrás dos joelhos. Traçar arabescos nas coxas com a língua inquieta. Exigir que ele se vire. Agora? Sim, agora. Montar em seu quadril, apoiar-se pra frente e, com o nariz, cutucar-lhe a nuca, enquanto os seios se esfregam nas costas. Roçar. Tocar com leveza os braços, os ombros, os lados do tórax. Voltar-se, rápida, e mordiscar a bunda. Rir, quando ele se mover, inquieto. Enroscar as pernas na dele. Arranhar-lhe o corpo. Deixar que ele, brusco, se irrite e a aperte contra o colchão. Dizer: deixa. E, como se sempre tivesse feito isso, mesmo sendo a primeira vez, deslizar em direção ao seu pau e abocanhá-lo todo, num impulso só. Deixar que ele lateje em sua boca. Paradinha, paradinha. Depois, como se não fosse terminar nunca o movimento, mover a cabeça pra frente e pra trás. Muitas, muitas vezes, apreciando o gosto próprio do desejo alheio. Rir-se quando ele procurar, quase em vão, cabelos na sua nuca pra puxar. Gemer, quando ele encontrar e os puxar com raiva. Ficar molinha quando ele apertar seus seios – no dia seguinte estarão roxos, ela sabe – e mergulhar a língua na sua boca. Submeter-se quando ele a colocar de quatro e, num movimento único, penetrá-la. Esquecer-se, quando ele se perder nela.

Gozar em vermelho. Saber dele como num eco de seu próprio gozo. Fechar os olhos e voltar ao texto. Impresso.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Esse post foi publicado em desejos de biscate, uma biscate quer e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

22 respostas para Impressões do Desejo

  1. Vivi Ayres disse:

    Arfei daqui…

  2. Assim você me mata….

  3. dehcapella disse:

    Ui.😉

  4. Aline disse:

    Que texto mais delícia!

  5. Masturbação deveria ser patrimônio imaterial da humanidade.

  6. Nossa.
    Nossa.
    fiquei vermelha aqui também.

  7. Eu bebi um copo d’água antes e outro depois que li, e mesmo assim me perdi nos pensamentos e nos trem aqui para fazer… Sou dessas.

  8. A respiração acelerou aqui.
    Igual a Niara aqui em cima, tb sou dessas.

  9. Charô disse:

    Ai, onde eu tava mesmo?

  10. Dandi Marques disse:

    Ufa! Fez um calor danado na descida dos parágrafos.

  11. Júlia disse:

    Porra!!!! Desejei …Palavras deliciosas!! Continue arriscando😉

  12. Delícia, delícia e muito bem escrrito. Pode arriscar a vontade.😉

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s