O que é uma coisa bela?

A beleza, como todas as categorias explicativas do real ou de suas frações, não é um conceito “natural”, “pronto”, determinado por fatores alheios ao mundo humano. Assim como as tradições, a beleza é um elemento inventado e que é alterado através dos tempos com variações de acordo com contextos, classe, etnias,etc.

O dito popular “quem ama o feio, bonito lhe parece”, sabiamente já indica que a variação do belo é dependente do observador, que é quem a partir de seu juízo determina o que é belo, ou não, para ele. Este observador no entanto não é isolado e nem imune às influencias do grupo social do qual faz parte e mais ainda, da sociedade como um todo e suas relações de tensão entre classe, gênero, fenótipo, regionalidade,etc.

Em resumo podemos entender a beleza como mais um dos inúmeros eixos de categorização da realidade, grosso modo de rotulação do real, que é construído socialmente de acordo com as interações entre indivíduo e grupo, grupo e sociedade, sociedades e classes, sociedades e contexto histórico e entre sociedades e culturas.

O “Belo”, portanto, não é apenas um, nem é universal, tampouco natural. O “Belo” em 1600 definitivamente não era o “Belo” em 1800, como não o foi em 1940 e nem é em 2012. Cada época tem sua beleza e essa beleza é determinada socialmente e não está nada imune às tensões políticas intestinas a cada época e sociedade.

A beleza, assim, é uma questão histórica que se altera a cada contexto histórico. A estética pode ser entendida como um elemento presente em todas as sociedades, no sentido do julgamento do que é ou não belo, mas o resultado da construção do belo para cada sociedade não pode ser entendido como uno, ou seja, cada momento, cultura e lugar possuem sua beleza, a estética só pode ser entendida como um valor universal se entendida como a construção do belo de acordo com as especificidades do contexto. Como valor universal é redutora, como valor universal no sentido da estética construir só um parâmetro de beleza é redutor e também é uma questão de classe.

Como tudo na vida em sociedade não há um só determinante na construção do que é belo, mas não se pode ignorar a influência das divisões de classe na busca de um conceito hegemônico de beleza que instaure um formato que reflita a noção da classe dominante do que é belo. É a partir deste processo que o conceito de belo nas sociedades ocidentais seja, o da pessoa branca, com o corpo “sarado”, cabelos lisos, de preferências com traços nórdicos. O inverso disso é considerado feio, não-belo.

É neste sentido que o pobre, o negro, o índio, são feios no contexto social como um todo. É a partir deste entendimento que podemos apreender a dominância de um tipo de bombardeio cognitivo de um tipo de beleza que exclui a maior parte da população.

Não é uma teoria do “Quarto escuro”, não existe um planejamento que define uma estratégia de conquista de hegemonia sobre o que é belo, é um entendimento da percepção do belo como um valor sólido e universal a partir da ponta da pirâmide social e que é bombardeado aos demais ao ponto do outro se desconhecer como passível de ser belo. A beleza enxergada por uma classe é passada como beleza universal porque é assim que se entende por beleza entre a elite que detém os mecanismos de reprodução de ideologia. Além disso, é uma busca de beleza asséptica, “racional”, construída pelo esforço, que é quase uma defesa de tese do “Espírito do Capitalismo”, segundo Weber, aplicado à beleza.

Esse entendimento da beleza atinge a todos, mas especificamente às mulheres e ai fica até mais claro a divisão de classes do belo. Para a mulher ser bela para a sociedade, conforme o padrão estabelecido de beleza, ela tem de seguir conjunto de determinações, regras e práticas que possuem preços simbólicos e materiais nada brincalhões. Estes preços vão desde uma jornada extra de trabalho nas academias, que além de não ser remunerado ainda tem um curso financeiro alto, até transformações físicas por vezes radicais, fora a aquisição de produtos e mais produtos “de beleza”.

Este corte já reduz o acesso ao belo para milhões de pessoas, em especial mulheres, que não tem como doar mais um pedaço de seu tempo dividido entre casa, trabalho e por vezes estudo, deslocamento em cidades com péssimo transporte público e que toma grande parte do dia, com academia e exercícios que permitam a construção do corpo determinado pelas cartilhas publicitárias e nem meios financeiros de adquirir todos os produtos de primeira linha que são “obrigatórios”, conforme a Ana Maria Braga, na penteadeira de toda mulher.

A própria figurada beleza já corta outros tantos milhões, com seus cabelos lisos, pele alva, ou queimada de praia, boa alimentação, corridinhas matinais,etc.

E é neste sentido que a beleza torna-se política, pois ela é uma forma de aprisionamento seja da mulher em um papel que entre outras coisas é de acessório estético, seja dos não brancos como sub-classificados também como valor estético. A própria vinculação entre saúde e beleza, saúde e atividades físicas regulares, conceitos recentes e formados a partir do fim do século XIX e início do XX, obedece a uma lógica política a uma estrutura que exige além do trabalho e tempo um comportamento de manutenção do corpo físico com o fim de alongar a “vida útil” da mão de obra é uma arma política.

A beleza também é um campo de batalha anti-hegemônico, o belo também é um campo de disputa. Assim como parte dos movimentos negros utilizam a luta contra o padrão de beleza claramente definido como um padrão “branco” como um corte político que envolve a luta pela auto-estima e entendimento de sua beleza como existente, num berro que acaba por caminhar para o enfrentamento a estes padrões de beleza que reduzem a sociedade à imagem de sua classe dominante, precisamos avançar para a discussão do belo para além dos grilhões das propagandas de cerveja.

Porque a beleza é rica? Porque a beleza é branca? Porque a beleza é magra? Porque a mulher pobre automaticamente “se enfeia” e acaba se destruindo, se negra ou afro-descendente, mulata, e tiver o cabelo diferente do liso “obrigatório” em sessões de tortura semanais ou mensais para “esticar” os cabelos , e que acabam por destruí-los?

Porque a mulher pobre, que sofre mais o impacto de trocentas jornadas de trabalho, falta de um atendimento médico de qualidade, alimentação, é “enfeiada’? É tratada como refugo, como não-bela por um padrão que ela nunca alcançará diante das condições em que vive?

O padrão de beleza é também uma arma de destruição da auto-estima das pessoas pobres, o padrão de beleza é a negação da diversidade humana, da diversidade social e uma imposição de uma lógica de “se ver” onde o espelho só mostra o que não é o humano perfeito.

É preciso entendermos que a luta por qualquer tipo de mudança radical na sociedade e que inclua as pessoas em sua diversidade passa automaticamente pela luta contra a hegemonia cultural que atribui como sagrada a propriedade, a divisão de classes e uma beleza que exclui.

É aí que o belo exclui qualquer rompimento com o padrão estabelecido,que pune o não branco de olhos azuis às continuas exclusões que vão desde a recusa de negros como “anjinhos” de procissão até à negação de empregos por ausência de “Boa aparência”, leia-se identificação de um não-branco e não magro.

É preciso que nos perguntemos o que é uma coisa bela, e que essa resposta nos olhe nos olhos e nos identifique como somos, como amamos, como enxergamos o belo e não como nos dizem para enxergar e que o resultado da pergunta seja uma to político de negação à força da opressão, que também se ergue e destrói coisas belas.

Sobre Gilson Moura Henrique Junior

Historiador e militante anarco ecologista, municipalista libertário, raivoso e porra louca. Autor dos Blogs "jornalista Incidental" , "Na Transversal do Tempo", "Das humor", tricolor e humorista nas horas vagas.
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21 respostas para O que é uma coisa bela?

  1. Amanditas disse:

    Ah, seu lindo! Curti demais. 😀

  2. “que também se ergue e destrói coisas belas” – bem original! A propósito… Isso não é de Caetano Veloso? – “a grana que ergue e destrói coisas belas?”…

    • Gilson Moura Junior disse:

      O título é do Caetano, mas da canção “O Estrangeiro”.

      Não aprovei seu comentário sobre o diálogo entre Sócrates e Hipias, por uma série de razões:

      1 – Não o entendo como uma critica ao que escrevi acima, inclusive pelo fato de que a noção de Sócrates está presente logo nos primeiros parágrafos. Caso o texto tivesse sido lido isto seria percebido, acho eu ao menos.

      2 – Não entendo este espaço como um desfile “fechado” e inacessível de conhecimento “bibliofilo” ou “enciclopédico”.

      3 – Não entendo este espaço como um desfile de vaidades “intelectuais” feridas ou de obsessões virtuais.

      4 – Entendo que o texto tem em si diversas questões que não forma abordadas no diálogo postado e recusado, como por exemplo a questão de class,e a questão do contexto histórico-cultural dos conceitos e noções de beleza, e inclusive de conceitos e noções de real e que se lido pode ser trabalhado sob o ponto de vista filosófico, histórico, antropológico,etc..

      5 – Caso o senhor discorde que o conceito de beleza, e não a percepção do Belo, é dependente de contexto histórico-cultural, peço que exponha isso, até como contribuição de debate, ou seja, advindo da leitura do texto em seu inteiro teor e dos conceitos ali presentas e não de uma dedução a partir do titulo e de noções pré-concebidas que em si mesma deixam claro que o artigo acima escrito não foi sequer levemente lido.

      Enfim, caso a prática exposta no Facebook retorne aqui peço licença pois não serão liberados mais comentários. Afinal este espaço não me parece ser um palco para obsessões da vaidade pessoal.

      • Gilson Moura Junior disse:

        Ah, não me pretendo original em nenhum momento no texto acima, nem tampouco no título, mas pretendo lançar reflexões.

  3. O Belo em Platão
    29 de fevereiro de 2012 por Lili Machado
    ANEXO – Hípias Maior – análise extraída dos Diálogos de Platão
    Diálogo entre Sócrates e Hípias de Élis, que tem por assunto: “O Belo em si (auto to kalon), um traço que seja comum a todos os objetos supostamente belos.”

    O que é a beleza? É preciso lembrar que para um Grego, o belo não é apenas um valor estético; a beleza possui uma dimensão moral. Entre o belo e o bem, o Grego não distingue, dois universos. O que é o belo? Sócrates tem grande dificuldade em explicar a necessidade de formulação de uma definição universal (não se define o belo por um exemplo particular: uma bonita mulher).

    Eis a questão: Como tu fazes, para saber quais as coisas que são belas e quais as coisas que são feias? Vejamos, serias, tu, capaz de dizer o que é o Belo?
    Hípias começa a sua exposição, primeiramente, diz que o Belo é uma bela virgem. Sócrates refuta a definição, afirmando que uma coisa particular não pode ser o Belo. Além do mais, apresenta a relatividade de uma coisa particular. Por exemplo, uma bela virgem é feia diante de uma deusa; o jumento, é belo, assim como é bela uma panela de barro cozida.
    Para os Gregos, não é possível dissociar o sentido ético do sentido estético. É neste sentido que a panela de barro bem cozido é bela, pois ela é útil. A beleza a qual se refere Platão é, além daquilo que se apresenta nos corpos e nos objetos, como nas obras de arte, a que observamos ou julgamos; ela também se diz das pessoas, das condutas, dos utensílios de cozinha, das leis, da educação, como também dos prazeres, e, de todas as realidades das quais estimamos o valor e a excelência. Então, o Belo não pode ser uma coisa particular, pois existe uma multiplicidade de coisas belas, no entanto, é a causa e se manifesta nas coisas particulares, como se, delas, tomasse posse, porque lhe é intrínseca a necessidade de se manifestar. Neste sentido, é Bela a panela de barro cozido como é Bela a colher de pau retirada de uma figueira. Esta, inclusive, mais bela do que o ouro.
    Hípias diz que o Belo é o ouro. Mais uma vez, Sócrates apresenta a limitação da proposta, apontando a estátua da deusa Atena, esculpida por Fídias, que é bela, ainda que seja construída em marfim.
    Hípias é conduzido a reconhecer que o Belo é o que convém. Então aparece, mais uma vez, a bela panela de barro cozido. Desta vez, como a que melhor convém para cozinhar um puré de legumes. Sócrates mostra que seria mais conveniente que este puré de legumes fosse mexido com uma colher retirada de uma árvore de figueira do que com uma colher de ouro.
    Hípias afirma que O que há de mais belo para um homem em todos os tempos e lugares e para todos é ser rico, bem situado e honrado pelos Gregos; alcançar a velhice, ter feito aos seus parentes belos funerais e receber, ele próprio, dos seus filhos um belo e magnífico enterro. Sócrates ironiza as palavras do sofista.
    Sócrates é requisitado para trazer as suas definições. Primeiramente, afirma que o Belo é aquilo que é útil. Por sua vez, o que é inútil é feio.
    A seguir, Sócrates afirma que aquilo que é vantajoso é o Belo. As duas definições situam-se tanto no campo ético quanto no estético, mostrando que não há, para os Gregos, a separação.
    Afinal, o filósofo define o Belo como o que nos dá prazer, sendo este proporcionado pela visão e pelo ouvido, ou seja, o Belo é permissível através dos sentidos. Chega-se à conclusão de que o Belo somente se dá a conhecer, utilizando canais sensitivos. Por outro lado, Ele somente existe porque existem a música, as artes plásticas, a poesia, a arquitetura. O Belo é o prazer que sentimos nas coisas oferecidas pela visão e pelo ouvido. Portanto, o Belo é tanto o que é útil como o que convém; também é Belo o que podemos ver ou ouvir: uma escultura de Fídias como uma panela de barro cozido ou uma colher de figueira; uma bela música, um poema ou um belo discurso.

    • Paulo, novamente, leia o texto. Jamais questionei o que coloca Sócrates ou Platão. E sinto que sua obsessão em desqualificar o que escrevo seja tão forte que lhe impede de ler o texto acima postado e que possui questionamentos sobre a questão histórico-cultural, sobre a questão de classe,etc…

      Repito, se vossa senhoria houvesse lido o texto teria entendido e visto isso.

  4. Ah, Paulo, recomendo sempre que um professor, ainda mais de História e Filosofia, leia o que questiona, inclusive as provas dos alunos, pode-se perder bastante conhecimento e análise contextual, percepção do cotidiano, do real, ao menos de um corte conjuntural do real, quando nos fechamos em noções pré-concebidas do que se lê ou vê. E pode-se, repito, perder-se muito ao nos apegarmos em orelhas de livro, capas, titulos e resumos e ignorarmos o inteiro teor do que criticamos.

    E sei que uma pessoa com tal grau de refinamento intelectual deve saber disso, ao menso deveria. Ainda mais citando Sócrates, que ao afirmar que nada sabia, que tudo esta por ser descoberto e que o conhecimento é transitório e mutável, pretendia a humildade da sabedoria ao invés da arrogância do conhecimento.

  5. O Belo é o que é útil… Então uma escultura tem qual utilidade?

  6. dandra pereira disse:

    Texto adorável e emancipador no que nos diz a quem servem os padrões…
    O meu corpo? aaaaah… meu corpo está serviço de outros desejos nada padronizados: aqueles desejos meus mesmo, íntimos, reais e de mulher pobre, trabalhadora, possuidora de si mesma como um ser que coabita com tantos outros seres merecedores de delicadas atenções.
    viva a diferença e a singularidade!!!
    obrigada, Gilson!

  7. Pamela disse:

    Esse texto, com certeza, é uma coisa bela.

  8. Natty disse:

    Ótimo texto e importante reflexão.

  9. Charô disse:

    Obrigada, isso faz um beeeeem pra pele e pro intelecto que você nem sabe. Aprendi horrores, mesmo.

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