Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia

Eu falo demais e falo da minha família abertamente. Brado, aos quatro cantos, que nossos principais valores são a convivência, autonomia e o respeito. Não que saibamos muito bem o que é isso e tenhamos todas as respostas, muito pelo contrário. Estou descobrindo. Aliás, estamos. Porque nem sempre funciona. E recomeçamos… Para minha surpresa, isso incomoda. Frequentemente somos vistos como pessoas egoístas que não se relacionam conveniente e adequadamente. Imaturos, com dificuldade de amar e de “jogar a âncora”. Seríamos virtualmente incapazes de criar uma família “de verdade”. Filhos? Nem pensar.

Essa idéia tem a ver com nossa opção por sermos não-monogâmicos, eu e o Roger. Algumas vezes mais, outras vezes menos, outras vezes beeeeem menos (há controvérsias) mas… Estamos sempre em busca da não-monogamia. Essa opção fez com que eu tivesse o privilégio de conhecer pessoalmente a Rede Relações Livres (ou simplesmente RLi) no ano passado. Foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. E se você não conhece, deveria. Eles são uma grupo não-monogâmico (com acentuação atéia, mas não necessariamente, abertamente feminista) que questiona o modelo de relacionamento monogâmico em todas as suas facetas.

O que achei fascinante entre eles é a recusa de adotar modelos tradicionais de conjugalidade. Eles não se casam, não usam alianças, não moram nas mesmas casas. Não andam de mães dadas e praticamente não expõe aquilo que, entre monogâmicos, é tido como próprio de um relacionamento. Eles vivenciam tudo isso, mas em momentos muito especiais, de extase. Quando se está numa de suas reuniões, a menos que se saiba de antemão quem é parceiro de quem, é virtualmente impossível formar pares entre eles. O mais adequado é assumir que qualquer um deles pode se relacionar com todos ao mesmo tempo.

Pode acontecer de você estar com vários parceiros num bar, mas será praticamente impossível estabelecer quem se relaciona com quem. E mais, a qualquer momento, essas pessoas tem a autonomia de estar com quem quiserem. Sem ter de pedir permissão para o(s) parceiro(s), sem ter de dar explicações. E quando não querem estar um com o outro, no problema. Ninguém tem de inventar dor de cabeça para explicar o porquê de não querer transar em determinado dia. Até mesmo porque eles muitas vezes preferem morar em casas separadas. Só admitem morar juntos em condições muito específicas, quando falta grana para manter duas casas por exemplo.

Aboliram de seus relacionamentos toda e qualquer atitude e símbolo que remeta à posse. Fale de ciúmes e eles não serão capazes de te entender. Preferem sentir compersão que é a felicidade de ver seu parceiro sendo feliz com outra pessoa. Isso se explica facilemente porque ntre eles já não existem mais casais e sim indivíduos. Ali não existem duplas, trios ou quartetos, existem pessoas livres para se relacionar com quem quiserem, pelo tempo que lhes aprouver, e do jeito que for mais gostoso, sem ter de dar satisfações para ninguém. É muito bonito de se ver. Mas é claro, é um caminho a ser trilhado pois tudo não vem assim facinho.

Para isso eles criaram uma estrutura que lhes permite estudar, conversar, vivenciar. Não falarei aqui dessas vivências porque não participei diretamente de nenhuma e prefiro manter certa discrição sobre os relatos que ouvi porque são estórias de pessoas e é melhor respeitar aquilo que eles mais prezam, sua intimidade. Mas posso dizer que todos ali me parecem muito sinceros, saudáveis (sim, tenho de falar nesses termos) e conscientes de sua capacidade de amar e de se comprometer seriamente (ou não) com mais de uma pessoa. São pessoas apaixonantes, simplesmente. As mulheres, todas biscas até o talo. Livres, livres, livres. Quando eles querem, simplesmente o dizem. Assim, facinho. Eu fiquei assim, bege (coisa bem rara para uma negra) de tanta admiração.

Há quem diga que se trata da incapacidade de se doar, de amar de verdade. O principal equívoco é achar que um Rli não se envolve emocionalmente uns com os outros. Há relacões que duram há praticamente 15 anos. Mas isso não quer dizer nada. Para um Rli o tempo não importa. O que vale é a intensidade. Super biscate a coisa. É puxar até a última ponta. Mesmo que seja só sexo ou não. Ou apenas afetividade. Ou ainda as duas coisas juntas. O fato é que ali impera o respeito a si e ao outro. Gente, só indo lá pra ver. E eles sempre estão aberto a “novatos” que não são obrigados a nada se não quiserem. Você pode ir lá, bater um papo gostoso e sair. Respeito gente, respeito.

Ali não há perdas ou traições porque ninguém se pertence. E mais, é bom se despir de qualquer preconceito. Entre os Rlis a escala de Kinsey é uma vivência. As pessoas não ficam em um ponto da curva para o resto da vida, elas valsam por ela todinha se lhes aprouver. É muito libertador para mulheres e homens que não tem medo de se descobrir pocahontas ou não. E é claro, quando um monogâmico é apresentado a esse universo dá um medinho. Mas garanto, pouco tem a ver com egoísmo. Diria que muito provavelmente uma bisca ficaria muito excitada com tudo isso. Até mesmo porque aqui o pagode é mais embaixo, como escreveu lindamente a Paula Bruk dia desses.

E se você gosta do nosso blog que tal distribuir amor em nossa página do facebook? #Sejoga. E para quem não pode ir até Floripa, fica o convite para o grupo RLi no facebook também. Uma deliça.

Agora um beijo, um abraço e uma perto de mão. Até o próximo post.

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3 respostas para Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia

  1. Amanditas disse:

    Como assim aqui não tem comentário ainda? Lindo post. 😀

  2. Paula disse:

    Fiquei curiosíssima… Como boa bisca q sou, até já falei do assunto com meu marid… ops, parceiro? Com o boy isso… Mas é novidade de mais pra ele! rsrsrsrsrs

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