É de pelada que elas gostam!

Por Amanda Vieira*

Amanda (a primeira de camiseta branca da esquerda pra direita) e suas parceiras de futebol, em Brasília

Ela saiu de casa com aquela meia 3/4, que cobre a perna até o joelho e deixa um pedação das coxas pra fora. As unhas ainda estavam lindamente pintadas, mas a maquiagem estava visivelmente vencida. Andava com pressa, flutuando de alegria ao deixar uma pia de louça suja para trás. No meio do caminho o celular tocou. Ela apertou os lábios, olhou para o céu e soltou:

– Será que hoje vai dar quórum?

É assim que, aos poucos, a pelada das mulheres vai se formando. Algumas saem direto do trabalho para o jogo, outras levam os filhos, os maridos, as namoradas, as vizinhas, as chegadas – tem até as que aparecem do nada, sozinhas, sem avisar previamente: simplesmente elas chegam! E são bem recebidas – se os times estiverm completos, ela fica de próxima, no revezamento, sempre há um jeito de agregar uma visitante.

Algumas mulheres amam jogar futebol. Não pra acompanharem seus maridos ou terem um assunto em comum com homens: amam jogar futebol por motivos que dizem respeito somente a elas. O futebol pode ser vivido como um prazer puro e simples, mas também pode servir como um momento de relaxar as tensões do cotidiano, como um ritual sagrado de confraternização com outras mulheres e até mesmo uma forma lúdica de perder calorias e manter a forma, por que não?

O que nenhuma mulher gosta é de preconceito: nenhuma mulher deixa de ser mulher por jogar futebol, nenhuma mulher pode ser discriminada por cometer o crime de jogar bola. O futebol amador vem revelando jogadoras fantásticas – por que ainda se paga tão pouco para as que decidem se tornar profissionais? O que justifica essa desvalorização absurda?

Quando você encontrar mulheres jogando bola, fazendo embaixadinha ou treinando pênaltys, lembre-se: ali estão mulheres felizes. É futebol de valor, honesto e raro: ver mulheres felizes não tem preço!

.

* Amanda Vieira é jornalista, paulista dando o ar de sua graça e profissionalismo em Brasília, mãe da fofa Sofia, feminista, de esquerda, ativista das lutas essenciais e justas e uma das pessoas lindas desse mundo que ajudam a mantê-lo habitável, “fazendo castelos de areia e soprando as brincadeiras dos outros”. Dá uma espiadinha no seu blog e a acompanhe no tuíter em @amanditas1904.

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"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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5 respostas para É de pelada que elas gostam!

  1. Gilson Moura Junior disse:

    Essa lógica de masculinização do futebol é meio estranha, nem sei se é só machismo.

    Confesso que tenho dificuldades com o futebol feminino, no sentido de assistir mesmo, acho lento e “aberto” demais, embora recentemente tenha mudado pra melhor com a Martha e novas jogadoras com uma nova lógica de atuação.

    Claro que isso vem de jogadores que convivme com o futebol profissional a sério e não essas tentativas mambembes do Brasil, futebol profissa da Suécia, EUA, etc…

    Nunca vi peladas das minas, aqui, só de uma amicíssima que joga o fino e jogava com a gente, mas sentia que ela sofria um preocnceito gigantesco, de “deixar de ser mulher” mesmo, e já era lésbica mesmo antes de se entender lésbica e ir ser feliz no mundo gauche da vida.

    E fico impressionado como além do preconceito contra quem joga, rola o preconceito contra quem vê e entende, o que aliás desconfio que exista maioria de entendedores de futeobl entre as mina do que entre os mano, que pagam de entendedores, mas não enxergam avanço de lateral, cobertura de volante, zagueiro com bom passe, nada, é só um bando de corneta desqualificado.

    Bacana esse futebol aí, bacana mesmo, é bom romper os padrões e quem sabe um dia isso se popularize a ponto de também influenciar a profissionalização do futebol feminino e seu crescimento como modalidade aqui no país, que pode ser mais competitivo.

    • Amandita disse:

      Amigo, lá onde eu jogo tem jogadora que corre mais que muito menino por aí ! Tem as jogadoras mais “lentas” também – no final fica um jogo bonito porque os times heterogêneos exigem mais toque de bola, estratégia, passes bem colocados. E rende muitas surpresas – é muito mais emocionante! Quando vier aqui pra Brasília venha ver nosso jogo… :-P

      • Gilson Moura Junior disse:

        Amanda, eu tava mais falando do profissa, no amador não duvido nada.. Mas como te disse só joguei com uma mulher e só a vi jogando, nunca vi uma pelada feminina na Mui Leal, e óbvio que tem.

  2. A tradução como sinônimo de “football” não pegou… mas o “ludopédio” existe e é essencial: a brincadeira que se joga com os pés e é um barato.

  3. Charô disse:

    Amo ver futebol feminino. E adorava jogar quando era pequena, fazia muitos gols. Mas um dia, assim de repente, aprendi que futebol “era” coisa de homem. Fico me perguntando o motivo de ser assim. talvez porque este seja um dos poucos territórios em que os homens podem se tocar de alguma forma. Talvez daí venha a necessidade que eles tem de manter como um espaço essencialmente de machos. Será que tem a ver? No mais, uma beijuca!

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