Não me toque em mim ou…biscateie-se!

GUEST POST por Augusto Mozine*

Como você usa o seu corpo, Abaporu? Não, esse texto não é mais uma auto-ajuda “geração saúde”. Quando pergunto “como você usa o seu corpo?”, eu quero saber, nessa sua reflexão, o quanto você é capaz de usar a sua liberdade. Também não estou me referindo à libertinagem (só), mas a outras formas de se aproveitar o próprio corpo e que vão muito além da liberdade sexual.

Resumindo, você é capaz de se sentir feliz minimizando ou anulando as pressões sociais sobre a forma como você deve se vestir, sobre a quantidade de mililitros do silicone que você deveria colocar, ou sobre o tamanho do seu pinto? Você tem muito ou pouco cabelo? Calvície precoce ou decorrente de algum processo químico/doença? É rato de academia e caso não vá lá durante a semana se recusa a exibir a flacidez dos 30 na praia de sábado? Tem celulite, estrias, espinhas e isso incomoda?

Alguma dessas coisas incomodou? Preocupa não, incomoda a todo mundo. Então por que eu estou fazendo essa tortura? Apenas para lembrar que cada uma dessas coisas que se acumula no mal-estar da nossa rotina (claro que eu também não estou incólume) significa um nível maior de controle externo sobre o nosso corpo. Sim, toda vez que nós nos olhamos no espelho e pegamos na gordurinha da cartucheira, balançamos e pensamos  “isso não deveria estar aí”, estamos mais dependentes de um denso processo de dominação do nosso corpo.

Calma, “se ame” não é a resposta que darei para resolver isso… Isso não tem nada a ver com o amor próprio, tem a ver com o nível de liberdade a que nós nos permitimos. Ao quanto estamos dispostos a romper padrões, colocar dedos nas feridas e procurarmos nos sentir bem. A resposta, talvez, esteja em um fenômeno chamado “biscatear-se” ou se permitir romper com essa merda! Grite todo dia para a humanidade: “Não me toque em mim”!

Não, não é crime, ainda. Mas ninguém precisa ficar medindo a quantidade de silicone da outra, o tamanho do bilau, a cintura, a grossura das coxas e dos braços, regulando a musculatura alheia etc… E, mais, é importante se dar ao luxo de, sendo ou não o padrão de beleza (e 99% de nós não é), usar e abusar do nosso corpo (com saúde, segurança, consentimento e blá blá blá).

Se isso não der certo, vá para arte (não deixe de ver o vídeo), onde qualquer corpo fica lindo, além do que um dia você será alguma daquelas obras de pessoas “não-padrão de beleza” na parede de um museu ou em um vídeo no YouTube. E enquanto isso não acontece, biscateie-se. Seu corpo é tudo aquilo que você deve se permitir impedir o resto de constranger! E quando aquele amiga vier com o papinho, “se ama, amiga”; diga a ela: “que nada, to me biscateando, santa”!

.

*Augusto Mozine é desses. Desses que chega conquistando espaço. Diz-se por aí que ele não gosta de se definir, mas nós por aqui dizemos que é cientista social e surrealista. Se você passar quietinho e com atenção, vai ouvi-lo conversando com estátuas enquanto escreve nonsense pra quem quiser… Se espalha entre O Blog que HabitoPode isso, Nelson? e Hipérbole Política (um segredinho: é um inveterado apaixonado, sofre e aproveita o melhor e o pior que as pessoas estão dispostas a oferecer…). Quer mais? Segue ele no twitter: @Mozzein

Este é um guest post mas não é. É que de hoje em diante a biscatagi da casa está em um relacionamento aberto, tico-tico-no-fubá, enrolado, chameguento, divertido e constante, porém não monogâmico, com o querido Augusto – que virou nosso, por assim dizer, colunista. Cliente fixo da casa. Com os privilégios afins e condizentes. Uma segunda-feira do mês é sempre dele, pra usar e abusar, lambuzar-se como quiser.

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9 respostas para Não me toque em mim ou…biscateie-se!

  1. gilsonmhjr disse:

    Bão.. como quase todos…

  2. renatalima91 disse:

    Estou aqui, pensando nas roupas que me cabiam há dez anos, e em quanto eu desejo de novo vesti-las.
    E seu post veio dar uma marretada nas minhas escolhas.
    O quanto este desejo é meu, o quanto dele é o desejo de ser outra que não a que sou hoje, o quanto desse desejo me é imposto até mesmo pelo fato de eu manter roupas dois números menores, entulhando o guardarroupas, aspirando voltar a caber nas roupas em que cabia.
    Bem, vou ali fazer compras.
    No caminho reflito e decido se compro roupas maiores ou só cenoura e alface.

  3. leticia disse:

    Ótimo texto…hoje mesmo olhei no espelho e senti vontade de menos gordurinhas…difícil libertar-se disso (ou biscatear-se disso).

  4. mateus disse:

    Blz… O post é bacana com essa ideia de corpos “não-padrão de beleza” e também acho que a arte pode ser um bom “reduto” para testar o biscatear-se. Mas…fui só eu ou esse vídeo – e, especificamente esse vídeo – só apresenta corpos lindos, quase irresistíveis?!
    Não saquei a do vídeo…
    Confusão minha?

    De todo modo, inveja do Augusto de ser convidado pra sentar na mesa do boteco das minas! Os mino pira!

    • Mateus,

      a parte do conceito do vídeo o Augusto te responde. A parte de sentar junto no boteco…ora, escreva um guest post pra nós, rá!

      • mateus disse:

        Opa!
        Depois de quase 15 dias de meditação intensa e uma pausa para um respiro….

        Sabe que gostei da ideia do guest post!! 😉
        Mas, agora que fui convidado pra sentar na mesa do boteco das minas, alguém pode me dizer o tema da conversa? Sobre o que posso escrever?

        Que saber o que pensei? “Minhas 10 fantasias (com) feministas”.
        Parece papo de boteco? 😛

  5. Augusto disse:

    Mateus, obrigado pelo comentário! De fato eu poderia ter explorardo o vídeo melhor, que apesar de lindo, tem tantas amarras/proteções nos corpos que eu quis usar como contraste ao Abaporu, solto e pensativo!

    • mateus disse:

      Como é louco esse lance da perpeção que a arte desperta/provoca, né?!
      Eu tinha visto no vídeo corpos lindos e livres…hehehe.

      Mas, tranquilo…era só um comentário pra saber mais mesmo. Sem pretensão de análises “corretas”….

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