Facinha… Por Um Triz

A analogia da mulher-que-dá-para-qualquer-um (leia-se para quem ela quiser) com uma “galinha” é a mais usual. Biscate, convenhamos, é um termo novo e é mais aplicado às mulheres que só não servem para casar, mas pode namorar, trepar e até desfilar por aí. Afinal, biscate é expansiva, “faz vista” e reforça a fama de pegador do macho (que imbecil!).

Galinha, não. Galinha é a mulher que os homens comem escondido. Ligam no meio da noite depois de terem ficado na mão, e justamente por não quererem ficar na mão, e encontram sem que ninguém saiba, nem mesmo os amigos mais próximos. Sim, porque eles também fazem o mesmo, mas são bem capazes de dizer “vais acabar pegando uma doença” (é… de causar engulhos).

Segundo o dicionário Priberam:

galinha
(latim gallina, -ae)
s. f.
1. Fêmea do galo.
2. [Popular]  Coisa muito boa ou muito fácil.
3. Má sorte. = AZAR, DESDITA, INFELICIDADE
4. [Figurado]  Pessoa achacada, doentia, descorada.
5. Pessoa que faz muito espalhafato a falar.
6. [Brasil]  Mulher devassa.

Esse misto de “coisa muito boa ou muito fácil” (2) e “espalhafatosa” (5) talvez seja a justificativa (muito da esfarrapada) para que sejam tão desejadas quanto mantidas em segredo. Porque é assim… A galinha dá para todo mundo (6), mas ninguém a vê com namorado ou par. Então, quem é esse “todo mundo”? É fato que o “todo mundo” fica também por conta da maledicência e maldade alheia. Galinha é aquela que todos pegam, mas que não escolhe. Né? Errado.

Quem disse que não escolhe? O que sabemos dessas relações obscuras é que enquanto está bacana para os dois eles se divertem mutuamente, quando o homem não quer mais vira as costas e sai andando e quando é ela que não quer mais o homem se sente rejeitado e sai por aí chamando-a de galinha (alguma semelhança com outras relações?). Ora, como ela ousa rejeitá-lo se não passa de uma… de uma galinha? Ops! Mas ele não queria só diversão e ainda por cima escondido? Por que ela não poderia querer o mesmo? Oras, porque não pode. Mulher é objeto, galinha, então… Errado, de novo.

Não importa (e aqui vale o mesmo raciocínio sobre o estupro — quem for até lá, me refiro ao penúltimo parágrafo) que tipo de mulher sejamos (quando aceitamos as caixas em que nos enfiam) — galinha, santa, biscate, puta, santa-do-pau-oco, incrível, para trepar ou para casar –, se o homem se sentir rejeitado e resolver te difamar ele vai fazê-lo. Isso tem a ver com  poder e começa nos tempos de escola, desde que somos guris e gurias e nem temos muita noção do estrago que essa difamação poderá causar em nossa vida numa sociedade machista como essa, mas as relações de gênero já estão estabelecidas. Melhor dizendo, a opressão de gênero já está estabelecida.

Mas assim como ser biscate, ser galinha e não se sentir diminuída por esses rótulos que a sociedade tenta nos impor varia com o grau de autonomia, aceitação e domínio da própria vida e do corpo, para transformar esse rótulo pejorativo em orgulho de ser dona de si e de suas vontades.

Recuperemos, então, as lições da nossa “semana santa”… Agora que nós já sabemos dizer BU-CE-TA (a Renata que ensinou) e que ela não é a fonte de todos os males, muito antes o contrário, e a ressignificamos no corpo e na vida, sabemos que os dildos são nossos aliados no caso de querer sentir o prazer da penetração sem querer se relacionar com outra pessoa (Marília deu as dicas todinhas) e sabemos que masturbação é fundamental para conhecermos nosso corpo e nosso prazer (a Cláudia explicou tudo tin-tin por tin-tin), vamos relembrar que não há a obrigatoriedade do orgasmo e que ele deve ser consequência e não objetivo, e que não precisamos nos submeter aos modelos e nem lugares preestabelecidos pela sociedade e pelos homens. Podemos e devemos escolher e assumir o nosso lugar nesse mundo, que até pode ser o lugar que a sociedade queria, desejava para nós, mas que isso seja uma escolha nossa e não algo imposto por terceiros(as), e que viver requer desejo-necessidade-vontade (nos disse a Silvia):

“A gente só quer viver a liberdade de qualquer coisa que não tem nome. As pessoas desconfiam, nos olham arregaladas e alarmadas, mas pode acreditar, a gente não faz mal nenhum, desses de arrepiar ou ferir ou arrancar cascas. Ademais, é bom que se diga, a gente não quer café da manhã de comercial de margarina, faz tempo que a gente perdeu os modelos, é, faz tempo, a gente não quer nada que tenha esse lastro, a gente quer a vida-vivida pelo que vem de dentro, com essa liberdade toda que não cabe em lugar nenhum. A gente só quer amar assim dilaceradamente que é como tem graça.”

E se no final das contas só as mães são  santas (a de cada um, claro!) e não depende de nós sermos  classificadas como galinhas, fáceis ou biscates, acho bem mais  prático  ser galinha logo de uma vez e assumir isso com orgulho. E se é para ser galinha, que tal uma galinha beuba muito da facinha e bagaceira?

Esse receita veio cambaleando lá da casa de uma tia de Minas, passou pela casa de uma biscate no Ceará para finalmente servir como refeição da primeira reunião da gerência do BiscateSC. Chegou beuba, beuba, beuba e as bisca-gerente também estavam beubas quando a fizeram e aqui que está a mágica da coisa: É tão fácil, mas tão fácil que só poderia ser… GALINHA, e não é preciso preparo ou concentração.

GALINHA BEUBA
(para duas pessoas)

Abra uma cerveja e comece a beber. Numa panela coloque um fio de azeite, uma cebola picada, duas sobrecoxas e duas coxas de frango (com pele mesmo), uma sopa de cebola diluída em um pouco de água, uma cerveja preta (long neck). Ligue o fogo, tampe e deixe lá que ela apronta sozinha. Se a panela for antiaderente, não precisa nem mexer. Se não for, toda vez que for pegar mais cerveja na geladeira, mexa para não grudar. Continue bebendo até a galinha ficar pronta. O ponto é quando a carne começar a desgrudar do osso. Sirva com arroz e purê de batatas (ou batata assada, ou cozida, ou frita, ou palha… o que o seu teor alcóolico permitir). Se der muito trabalho sirva só com arroz ou com pão. Pra quê complicar as coisas, né?

Eu sugiro fazer a receita ouvindo música brega e gargalhando alto. Escolhi essa do Odair José dizendo que “para gente ser feliz, pra que fique tudo bem, o importante é se entender“. Ousando contrariar um pouquinho o Odair, pra gente ser feliz basta a gente siquerê e sinroscá.

Rá!!!

Sobre Niara de Oliveira

Ardida como pimenta com limão! Jornalista marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.
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15 respostas para Facinha… Por Um Triz

  1. ftiagocosta disse:

    #SouGalinha… e não homem galinha, #SouGalinha mermo! Engulam! Belo texto Niara!

  2. ftiagocosta disse:

    Só ressaltando que vc é definitivamente uma membra do #BregaDaTL pela citação do Odair José! Rá! Engula de novo! =P

  3. gilsonmhjr disse:

    De tudo que eu li no Biscate a parada da não obrigação do orgasmo foi uma das mais fodas pq mexe com uma porrada de pré-concepção que mesmo o relativista historiador cultural de meia tigela aqui tem, e às vezes nem sabe ou finge que…

    Outra coisa é a lógica que começa na escola, e que por mais que a gente fodão intelectual e “macho pracas nos enfrentamento” pense que seja acaba reproduzindo, mesmo em silêncio.

    Aliás,o silêncio e sua reprodução é ainda pior, pq inconscientiza. e ai fico pensado em como lidar com isso, coma s irmas e com o sobrinho e a sobrinha (Minhas irma já foram “galinhas”, e talvez ainda sejam, e apanhei algumas vezes qdo me emputecia a respeito).

    A receita, bem, a receita eu não guardei, pq posso vir aqui mais tarde e pegar. O quadro da gerencia beuda fazendo cocós eu ri alto, pq imaginei e invejei um pouco pq é um sonho estar nessa mesa, por n e grandes motivos de afetos mútuos e amplos.

    Um dia dou a receita do Frango na moranga e se quiser eu chamo de pseudo-Camarão na moranga.

    De resto aprendo demais aqui, espero que mude o que precisa ser mudado e aprenda, inclusive a gostar mais gostoso neste viver, que é muito perigoso,e bom, pq somos todos equilibristas que nem a esperança e o beudo da musica.

    • Estar inserido numa sociedade machista pesa para todo mundo, Gilson, até para as feministas. Não é fácil não reproduzir os padrões e ainda criar novos para colocar no lugar. A gente vai aprendendo, aos poucos, apanhando. Beijo!

  4. Renata Lins disse:

    Cara, esse mundo das galinhas me impressiona muito ainda. Até hoje. Até hoje, homem come quem quiser, e mulher tá sempre à beira de ser tachada de algum desses lindos epítetos. Como a igualdade ainda tá longe. Difícil. Porque dá vontade de dar de ombros e fazer o que quiser. Mas eu posso fazer isso. Em outros espaços, não é tão fácil. Tem custos. Então, acho, o negócio é dizer e dizer e dizer, pra que isso mude. Mas ainda tem caminho.
    Beijos!

  5. Bíh D'lima disse:

    MA-RA-VI-LHA!

  6. O encontro de um gênio, Odair, com uma Nobel, nossa Niara.

  7. Amanda disse:

    Odair JOsé! Adoro posts que misturam comida, música, boas ideias… E fica tudo combinando!😀 Adoro!

  8. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

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