Fumar sem tragar, nem pensar!

* Não, isso não é uma apologia ao fumo. Mas ao aspirar profundamente a vida.

No dia seguinte, bem no dia seguinte ou alguns dias depois, tanto faz, a ordem não importa, é sempre uma cronologia acelerada de quem tem muito, a gente manda para o outro uma piração qualquer. Os dedos coçam, as unhas se agitam, a tela do computador brilha, ah, a tela brilhante e os quadradinhos em branco, e a gente escreve algo sobre estar do avesso, sobre sentir as águas fartas, sobre amor de escamas ou sobre estar nua no gelo do ártico, qualquer intensidade assim, daquelas bem biscateiras, de quem mergulha no rio que corre.

Coisas assim que saem meio sem querer, vomitadas lá das entranhas, vômito bom e quente de quem comeu muito até doer, degustou banquetes cheios de prazeres, de boca aberta e dentes afiados, com a língua desperta sentindo todos os sabores.

A coisa sai assim, viva na tela, e quando a gente percebe já apertou o “enviar”, botão maldito que não tem volta, aquele botão que não retrocede, que vai e não volta nunca mais, malditas eras tecnológicas sem correio – porque a gente já foi capaz de perseguir a rota dos carteiros para impedir o destino da carta enviada, acredite, mas no fim das contas. As letras saem com seus destinos traçados, e ainda somos bobas o suficiente para acreditar no destino, a gente confia com alguma lucidez e uma fé teimosa, sim, porque sem confiança a gente morreria mais um bocado sem nascer por completo.

Mas é bom o impulso e o botão que não volta porque a gente manda. Manda e no minuto seguinte…alerto: é possível se arrepender loucamente, arrancar os cabelos ou os cortar mal em frente ao espelho, fios e fios despedaçados sem qualquer lógica. Mas no fim do dia, ah! ainda conseguimos ficar um tanto felizes, apesar das possíveis madeixas picotadas, porque as falas foram, e seguiram o seu curso de rio. A gente olha com orgulho aquele avesso todo, aquele avesso tão verdadeiro de quem viu e fez, e relê duzentas vezes o conto, a prosa interminável escrita em itálico, o poema ou a histeria repleta de vida vermelha – aquela vida que pulsa por dentro e muita gente não têm coragem de colocar a mão porque ela é densa, ela se esparrama sem controle, ela é visco, ela é matéria-prima.

E que orgulho desaprumado desse avesso que é tão nosso, que é tão bonito e tão triste, e também feio de doer a vista, sim, a gente gosta dos feios da gente. E, de repente, pensamos com algum pesar em como adoraríamos receber uma piração dessas no meio do dia, receber letras tortas que nos contassem sobre águas fartas, gelo, entranhas, tesão desvairado, feiúra e ressaca, qualquer desvario desses que faz a gente revirar um bocado por dentro.

Mas parece que ninguém revira mais, só a gente, essa confraria biscateada que são nossos pares, essa gente nossa que revira e manda, que aperta o botão que não tem volta, que se suicida e mergulha para nunca mais, que roe o osso até doer, que vai lá e diz e conta para o outro sobre essa vida submersa, que tenta acordar o outro para o lado de dentro que pode ser partilhado. A gente se fode um bocado, é fato, mas a gente tenta.

E então esperamos ávidas por uma resposta pulsante, tá bom, a gente espera ávida por uma resposta qualquer, nem que seja um beijo xoxo, algo dizendo que não entendeu nada mas gostou da lembrança, quem sabe, algo dizendo que também lambeu um pouco as feridas, algo com um pouquinho de vermelho ou um tom mais bordô, talvez algo colorido, mas que nada. Passam-se semanas e nada aterriza, e quando você vê está bloqueada do facebook da criatura, excluída da rede de amigos, todos aqueles amigos sorridentes que falam coisas divertidas, que tecem comentários sobre roupas e cabelos ou convidam para festas de ver e ser visto, aquela rede de amigos que parecem de plástico, plástico-bolha que estoura quando recebe um avesso desconjuntado.

Não, eu não quero essa rede nem fazer parte dela, eu já tenho as minhas biscates nuas e fumantes que nem eu, e graças aos astros elas se proliferam no escuro, aquelas de verdade,  que me acolhem na madrugada de ataque de riso, bêbada às três da manhã chorando de soluçar, ou quando o vazio se ergue enorme pelos dias, é lá que eu moro e eu não quero outro lugar.

Queria apenas sentir esse você-e-eu ou qualquer coisa pulsante como aquelas noites de sexo, estender o toque por baixo da pele, conhecer o escondido que faz todo o sentido, era isso. As pessoas têm medo da morte e a gente vicia no abismo, no outro nu de ponta cabeça, nesse sentimento de adentrar o que não se mostra – e isso é uma burrice sem fim, pode-se dizer, mas é tão bom que a gente vicia.

Olha, é importante dizer, porque a gente parece querer engolir tudo, mas a gente sempre devolve o outro para si, a gente devolve o outro inteiro, talvez um pouco desconjuntado e revirado, mas a gente devolve, porque só assim podemos ser inteiras. A gente quer, é claro que a gente quer, mas a gente quer a coisa solta, quer andar fluída, a gente chega penetra toca o fundo e devolve, garanto, devolver é o nosso prêmio de conquista, é o nosso porto de chegada.

A gente só quer viver a liberdade de qualquer coisa que não tem nome. As pessoas desconfiam, nos olham arregaladas e alarmadas, mas pode acreditar, a gente não faz mal nenhum, desses de arrepiar ou ferir ou arrancar cascas. Ademais, é bom que se diga, a gente não quer café da manhã de comercial de margarina, faz tempo que a gente perdeu os modelos, é, faz tempo, a gente não quer nada que tenha esse lastro, a gente quer a vida-vivida pelo que vem de dentro, com essa liberdade toda que não cabe em lugar nenhum. A gente só quer amar assim dilaceradamente que é como tem graça.

É, a gente só quer gozar profundamente o momento em que se respira, fumar e tragar bem fundo até sair fumaça pelo nariz, até engasgar de tanto tossir e acordar com a garganta arranhada, com a cara amassada no espelho e duas olheiras fundas que parecem azeitonas pretas. É só, é essa profundeza que não se revela, é esse último minuto que não volta, é essa descoberta de si que vicia e nunca mais se pode voltar para o conforto do mundo dos shoppings e mulheres de papel dado, nunca mais se pode pegar o caminho de volta e fumar sem tragar, tocar o outro sem sentir o suor e o cheiro de vem de dentro, sem percorrer desesperadamente o caminho secreto.

É que às vezes a gente acerta, acredita em mim, a gente acerta e conhece o que é a plenitude de ser quem se é, e qualquer plenitude de se dividir o que não se divide. E é por isso que a gente arrisca, é por isso que a gente se arrebenta e continua e grita a plenos pulmões:

– fumar sem tragar, nem pensar!

Sobre Silvia Badim

faltam palavras objetivas para definições. eu sou. o que mesmo? professora, militante, biscate, mãe, escritora, amante, livre de rótulos. e o que mais? muito mais. sou muitas. socorro-me do que já disseram, e repito: "eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada. meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa. meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água".
Esse post foi publicado em desejos de biscate, uma biscate quer e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

12 respostas para Fumar sem tragar, nem pensar!

  1. Cassia Anacleto disse:

    Super intenso, visceral e honesto.
    Parabéns a autora do texto e ao blog.

  2. Cassia Anacleto disse:

    Super intenso, visceral e honesto.
    Parabéns a autora do texto e vida longa ao blog.

  3. Bíh D'lima disse:

    Clap, clap, clap!
    Tragavelmente gostoso!

  4. Sílvia Badim, sua Linda!

  5. renatalima91 disse:

    “Mas é bom o impulso e o botão que não volta porque a gente manda. Manda e no minuto seguinte…alerto: é possível se arrepender loucamente, arrancar os cabelos ou os cortar mal em frente ao espelho, fios e fios despedaçados sem qualquer lógica. Mas no fim do dia, ah! ainda conseguimos ficar um tanto felizes, apesar das possíveis madeixas picotadas, porque as falas foram, e seguiram o seu curso de rio. A gente olha com orgulho aquele avesso todo, aquele avesso tão verdadeiro de quem viu e fez, e relê duzentas vezes o conto, a prosa interminável escrita em itálico, o poema ou a histeria repleta de vida vermelha – aquela vida que pulsa por dentro e muita gente não têm coragem de colocar a mão porque ela é densa, ela se esparrama sem controle, ela é visco, ela é matéria-prima.”

    Se arrepender loucamente, mas no fim dia ainda ser feliz.
    O avesso tão verdadeiro.
    Densa, sem controle.
    Me revolveu as entranhas, Silvia.

  6. Louise disse:

    Pensei que não haviam palavras para essa corredeira que achei dentro de mim; que bom que me enganei.

  7. Silvia Badim disse:

    que bom poder partilhar essa correnteza toda, e juntar, cada vez mais, pessoas nuas e fumantes que nem eu, disposta a aspirar profundamente a vida. 🙂

  8. Taís Bravo disse:

    Me senti menos sozinha na vida depois desse texto. Que bom que ainda tem gente assim!

  9. Nanda disse:

    Que liiindo!!! É assim mesmo que me sinto diversas vezes, é ótimo saber que mais pessoas sentem-se assim também! Parabéns, belíssimo texto!

  10. Pingback: Facinha… Por Um Triz |

  11. Identificação? “magina? Me fez lembrar uma outra coisa. Compartilho: http://cultbacaninha.blogspot.com.br/2012/04/era-isso.html

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