Nas Coxa (sic)

Desenho do meu querido Patife, feito especialmente pra ilustrar o post. Rá!

As madrugadas são para o medo. Ou para o desejo. Que são as formas de se dizer: fome. Nas madrugadas a vontade é mais intensa. Há menos palavras e os anseios se mostram como na prateleira do açougue: crus. Na madrugada se sangra.

Era sempre madrugada em seu peito, vazante de quereres. Sempre madrugada em seu ventre, latejante de incertezas. Sempre madrugada no olhar que se esconde na porta entreaberta. Madrugada no encolher-se em lençóis.

Era sempre madrugada em sua cama, ela sabia. Madrugada no seu jeito de andar, um passo em falso, bailarina do desencontro. Sempre madrugada no seu sorrir, que eles adivinhavam em convites que ela sentiria no só depois. Madrugada nas palavras nuas. Dizer sim, sempre tão mais fácil. Madrugada com lua em minguantes, quando o querer era uma dor. Em crescentes, quando o corpo se fazia em alegrias.

Era sempre madrugada na sua cama. Memória. Pele. Madrugada em sussurros de antigas canções. Desafinadas memórias, sempre Lado A. O melhor. Boas palavras. Madrugada no jeito de aprisionar os últimos instantes da noite entre as pernas firmes. Narrativa de anseios sem nome: acolher os pretéritos, geralmente os imperfeitos. Madrugada ao deixar o tempo escorregar pro claro recomeçar. Um dia de cada vez, ela sabia.

Madrugava ao cerrar os olhos e abrir a casa. As mãos. As pernas. O peito. Madrugava ao se fazer voragem. Coragens. Madrugadas são em quereres. Em fome. Em medo. Em desejo. Madrugadas são em preto. E branco. Quase noite. Quase dia. Quase certo. Quase bom. Madrugadas são em incertezas.

PS. Biscate escrevente dava lindamente pra o Danilo Caymmi

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Esse post foi publicado em memória biscate, uma biscate quer e marcado , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Nas Coxa (sic)

  1. Bíh D'lima disse:

    Que maravilha!

  2. Silvia Badim disse:

    lindeza!

  3. Elisa disse:

    Li, lindamente (rs) seu texto.

  4. Eita. Mais assim, na madruga, rapidinho…. nas coxa. Lindo.

  5. Silvia Sales disse:

    ‘Buni’ demais!

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