“É água no mar, é maré cheia” – As Biscates da Zona Costeira Cearense

GUEST POST Por Tiago Costa*

“É do medo que nasce a coragem”  — Mentinha, pescadora da Comunidade de Curral Velho, Acaraú – CE

Imagem do I Encontro Estadual de Mulheres Pescadoras do Ceará -- 27 a 29 de novembro de 2009, em Fortim (Foto: arquivos Terramar)

Conheço muitas biscates: Teens, de classe, desfrutáveis, mães, militantes, feministas… Todas mulheres incríveis e fantásticas!

Quero, nesta oportunidade, falar de outras biscates com quem convivo desde 2006, quando ingressei no movimento socioambientalista na Zona Costeira Cearense. Com elas dividi e divido momentos de luta, de mobilização, de resistência, de desabafo, de ruptura e de muitos risos, festas, conversas e confidências nos terreiros de suas casas: são as mulheres pescadoras!

É muito comum, mesmo na zona costeira, atribuir à pesca como uma atividade masculina. Isso porque nessas comunidades a atividade masculina é mais centrada, enquanto que as atividades das mulheres tendem a ser mais multidirecionadas. Em outras palavras, os homens dão conta das atividades produtivas: pescam ou cuidam da lavoura; as mulheres, além de pescarem e cuidarem das lavouras, dão conta do trabalho reprodutivo (cuidam dos filhos, idosos e doentes, cozinham, lavam, passam, etc.).

E porque essas mulheres são biscates:

Primeiro, mesmo desenvolvendo inúmeras atividades dentro da cadeia produtiva da pesca, essas mulheres sofrem grande invisibilização, inclusive de seus companheiros. Contra isso, elas estão lutando e se organizando para o seu reconhecimento enquanto pescadora, pautando e articulando as políticas específicas de proteção, de assistência técnica, previdenciárias, etc. que demandam a sua participação no setor pesqueiro.

Segundo, nos conflitos socioambientais na zona costeira, são elas que costumam a ser mais afetadas e são elas que estão na linha de frente, nos momentos de denúncia, de articulação, de mobilização e luta contra os projetos de desenvolvimento que destroem seus modos de vida, sua cultura, suas atividades e seu meio ambiente. Posso citar aqui a trajetória da pescadora Mentinha de Curral Velho, que na luta contra a expansão da carcinicultura sobre os manguezais ou no avanço das eólicas que desterritorializam comunidades, sofreu e continua sofrendo ameaças de morte, mas nunca se calou: tornou-se uma grande liderança; viajou meio mundo – chegando a ir representar as pescadoras em um encontro na Índia -; e ainda escreve poesias e frases, como esta que inicia o post.

Terceiro, essas mulheres estão se descobrindo mulheres, falando de si mesmas, construindo conhecimentos, resgatando saberes e se descobrindo a cada dia sobre o seu “estar no mundo”, problematizando questões não apenas sobre o seu trabalho, mas também sobre os seus corpos, as suas vidas, os seus cotidianos e os seus direitos enquanto mulheres.

“(…) e quando a gente se descobre mesmo, como mulher, então a gente começa a se sentir responsável pela história, não só a nossa, mas a história da sociedade, a história das outras mulheres, a história do mundo, – da vida, né?” — Nazaré Flor, pescadora/trabalhadora rural do Assentamento Maceió, Itapipoca – CE

Quarto, para finalizar, essas mulheres se comprometem com uma ação política  que rompe com os paradigmas do patriarcado sem se verem atreladas ou engolfadas em movimentos estranhos as suas preocupações e interesses específicos, através da Articulação de Mulheres Pescadoras. Elas têm aprendido a se reinventarem e a se imporem no seio do movimento feminista contra a dominação simbólica. Com o apoio desse movimento, essas mulheres tem se mostrado capazes de dialogar, de elaborar uma fala pública e de se manifestarem contra instituições que contribuem para eternizar a sua subordinação.

“A grande vingança nossa é a esperança. A mudança traz a ruptura – e às vezes só acontece no grito, na marra” — depoimento de uma pescadora no I Encontro da Articulação das Mulheres Pescadoras do Ceará (AMP-CE)

Logo, desconstruindo as imagens essencialistas que geralmente são atribuídas às mulheres que vivem na zona rural e na zona costeira, espero ter trazido um pouco sobre esse ser biscate dessas mulheres, que reivindicam sua condição de pescadora e lutam por seus direitos, construindo sua própria organização e mobilização contra o patriarcado e contra a lógica capitalista de desenvolvimento.

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* Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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5 respostas para “É água no mar, é maré cheia” – As Biscates da Zona Costeira Cearense

  1. Amanda Montenegro disse:

    Amei o texto, Parabéns!

  2. ftiagocosta disse:

    Agradecido Amanda, aqui é uma fração pequenininha do que representa ser mulher e pescadora no NE! Há ainda muitos depoimentos marcados pela exclusão e pela opressão, assim como de sabedorias e fortalezas que são muito peculiares… Tê-las como amigas me torna sim uma pessoa privilegiada! Não poderia deixar mencioná-las como biscates maravilhosas que são!

  3. Amandita disse:

    Bom demais seu texto, Tiago! Legal que você esteja vendo isso de perto e compartilhando aqui no blog. 😉

    • ftiagocosta disse:

      Agradecido Amandita! Como eu disse, é um pouquinho do que são essas biscates… conviver com elas, no cotidiano de suas comunidades, de suas lutas e de sua vida é realmente algo muito marcante! Viva as “Mentinhas”, “Maninhas”, “Menininhas”, “Nêgas” e todas as pescadoras e marisqueiras do NE!

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